Minha Primeira Dama — Introdução — Marcela

- Marcela, chegou a sua chance!

E foi com essa frase do meu tio Geraldo que o meu mundo começou a mudar. Eu tinha dezenove anos naquela época e estava colhendo os frutos dos dois concursos de beleza nos quais eu fiquei em segundo lugar. A janela de oportunidade era pequena, mas não custava tentar.

Eu sei, você agora deve estar me julgando como uma jovem alpinista social interesseira. Talvez eu seja. Não consigo me enxergar assim. Minha família sempre deixou muito claro que estavam depositando todas as fichas em mim. Eu era a responsável por conseguir uma situação de segurança e estabilidade para todos e honestamente, não há muitos caminhos possíveis para uma menina do interior.

Não foi difícil conquistar o Michel. Quando meu tio Geraldo me levou à convenção do PMDB, eu já tinha em mente que aquela era a minha oportunidade de conhecer e quem sabe conquistar o deputado presidente da Câmara. Fiz questão de ser vista, de ser apresentada e de me manter em seu campo de visão o tempo todo. No dia seguinte, enviei um e-mail para sua assessoria e não muito depois estávamos saindo para jantar pela primeira vez.

A tatuagem foi uma sugestão da minha irmã, Fernanda. Eu queria encontrar alguma forma de demonstrar minha dedicação àquele relacionamento e ela teve a ideia de tatuar o nome dele na minha nuca. O resultado não poderia ser melhor: nos casamos em uma cerimônia privada um ano depois de termos nos conhecido.

Eu tinha 20 anos na época. Ele tinha 63.

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Já se passaram quinze anos e hoje eu cheguei a um posto que jamais almejei: o de primeira-dama da República. E durante todo esse tempo, eu me especializei em algo difícil de se conseguir hoje em dia, em tempos de redes sociais: discrição. Entre tantas pessoas com méritos intelectuais, o meu maior mérito é minha habilidade em quase não existir.

Entenda: eu nunca tive o perfil baladeira. Sempre fui moça pra casar, fui educada para ser bela, recatada e do lar. E não acho esse tipo de vida infeliz, na verdade me sinto uma pessoa bem realizada em geral. Tenho muito conforto, tenho segurança, tenho minha família toda perto o tempo inteiro e tenho o amor e o respeito do meu marido.

Mas nesses quinze anos, muito da minha mentalidade romântica mudou e eu definitivamente já não sou uma menininha de 20 anos. Um homem poderoso — que vem de uma origem que desconhece o que é uma dificuldade financeira — tem muitas coisas a oferecer a uma mulher como eu. Eu hoje tenho a tranquilidade que poucas mães tem que é a de que o meu filho está seguro e que ele poderá ser absolutamente o que ele quiser no futuro.

Porém, um homem poderoso de 63 anos que a cada ano fica mais velho e a cada ano fica mais poderoso pode deixar a desejar em muitos aspectos na vida de uma mulher. Especialmente quando esses quinze anos transformaram o 63 em um 78.

A empolgação sexual dele não durou muito tempo e mesmo nesse período não era lá algo muito admirável. Por um lado, foi um alívio. Uma das vantagens de se escolher alguém com uma diferença de idade tão grande é justamente o menor apetite sexual do parceiro. Sexualmente falando, paguei um preço baixo por tudo o que recebi em troca.

Não sou uma mulher fogosa com uma libido alta, então os raros e curtos encontros sexuais com Michel acabaram sendo muito mais tranquilos do que se pode imaginar. Somos bons amigos. Ele gosta de ler pra mim e desde que ele descobriu as redes sociais, todos os dias ele pede para que resuma pra ele como está sua popularidade. Eu digo o quanto ele é inteligente e o quanto eu o admiro. E na verdade ele passa tanto tempo longe que eu chego até mesmo sentir falta dele às vezes. Mas na maior parte do tempo eu só esqueço que ele existe.

Mas mesmo não sendo uma pessoa fogosa, eu ainda tenho algum fogo. E eu não sei se é a idade ou se é todo esse caos midiático em que fui jogada ou se é algo que eu sequer tenha observado. A questão é que eu tenho sentido cada vez mais a latência de um desejo reprimido que até então eu desconhecia.

Tudo estava bem. A presidência estava chegando ao fim e as coisas voltariam a ficar um pouco mais normais. Talvez eu pudesse viajar e procurar um bom tratamento no exterior para lidar com isso. Ou pelo menos era isso que eu pensava antes dela aparecer.

Eu não gosto do Jair. Não pelas coisas que dizem dele, mas o considero grosseiro, mal educado, barulhento. Preferia evitar ao máximo o contato durante esse período de transição, mas alguns eventos são inevitáveis. E foi então que eu a conheci.

- Primeira-dama, é um prazer enorme conhecer você.

- Você agora também é primeira-dama. Vamos deixar de formalidades, me chame de Marcela.

- Você é tão gentil. Me chame de Michelle.

Um ligeiro tremor passou por minha perna esquerda, fazendo meu joelho fraquejar de leve quando ela se aproximou para me abraçar e eu senti o cheiro de perfume caro e senti suas mãos leves e macias sobre meus braços. “É tão diferente do toque masculino” pensei sem perceber que esse não deveria ser meu pensamento padrão nessas situações.

- Você não sentiu medo na sua primeira vez?

- Você está com medo?

- Muito.

- Então fique comigo que eu te ensino tudo o que eu sei.

Naquela época ela não sabia e eu acredito que nem mesmo eu poderia imaginar que esse diálogo se repetiria não muito tempo depois em cima da mesa da presidência. Naquele primeiro encontro, eu ainda preferia acreditar que eu estava empolgada por ter uma amiga que entenderia o que era estar no meu lugar — já que as primeiras-damas anteriores eram bem mais velhas e/ou falecidas.

Mas hoje eu sei que na verdade eu estava com tesão. E muito.

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Este texto é uma fanfic sem nenhum compromisso com a realidade e sem nenhuma intenção em diminuir ou engrandecer a imagem das figuras públicas utilizadas como personagens. É diversão pura e simples inspirada por uma imagem que tem rodado as redes sociais. Apreciem com moderação e se alguém quiser brincar de ilustrar essa história, estamos aí.