Como Aninha

Gabriel AS
Sep 9, 2018 · 3 min read

Dia desses me peguei pensando que nunca cumprimentei a minha psicanalista com um beijo no rosto. Sempre que entro pra sessão, um aceno de cabeça; sempre que saio, outro aceno. Nunca tinha realmente parado para pensar nisso, até recentemente, quando comecei eu a atender dentro da minha formação clínica. Cumprimentar uma cliente do gênero feminino (ou mesmo do gênero masculino) com um beijo no rosto é, para mim, algo natural, ato que se não acontece de forma orgânica logo é substituído por um aperto de mão ou mesmo os tais acenos. Sem drama.

Daí que pensando nisso me lembrei da Aninha (que não se chama realmente Aninha), colega de sala dos tempos do ensino fundamental. Ela era uma das melhores jogadoras de futebol da minha cidade, respeitada até mesmo pelos meninos mais habilidosos no esporte, “donos” do jogo. Obedecendo aos estereótipos da história que se segue, a questão é que Aninha era ela própria um tanto. “masculina”: boné pra trás, calças largas, em contraste com o corpo pequeno e o rosto fino. Como para mim sempre foi muito mais fácil andar com as meninas, ela era também uma amiga muito querida. A única diferença entre ela e as outras meninas é que, apesar de eu cumprimentar todas as outras com um beijo no rosto, com Aninha era sempre um aperto de mãos. Esse era o tratamento universal direcionado à ela na esfera masculina, de uma forma estranhamente natural tratávamos a garota, que conquistou um espaço comumente reservado aos meninos, como um menino; incluindo a mim, que pouco ocupou os espaços historicamente masculinos.

E talvez justamente por essa razão (talvez para um desviante dos padrões, as melhores chances de compreensão venham de outro desviante), certo dia ela me puxou de canto e pediu pra conversar, um pouco reticente: perguntou se eu poderia cumprimentá-la com um beijo no rosto, assim como fazia com as demais meninas; “Claro”, respondi, e a partir desse dia a coisa passou a ser dessa forma.

Não muito tempo depois ela cumprimentava a todos dessa forma e todos a ela. O que me marcou nessa situação, que cavou lugar na minha memória até o dia de hoje, foi a forma simples e direta como ela abordou a questão: ela me pediu. Talvez fosse mais fácil, na lógica de manutenção do status-quo, apenas seguir com a situação desconfortável, reproduzindo a diferença de tratamento em nome das amizades nas quais ela se construiu. Outra opção seria, num belo dia, forçar uma naturalidade e simplesmente me cumprimentar com um beijo, como quem diz “sempre foi assim, por que a estranheza?”. Essa última é uma estratégia bastante comum no meio LGBT: sair do armário não é o momento mais fácil na vida de uma pessoa não-hétero, de modo que é mais fácil apenas fingir que nunca existiu armário algum. De repente estamos no almoço, e o seu colega faz um comentário sobre a bunda do menino que acaba de passar pelas mesas da cafeteria, ou conta daquela vez que também saiu com um cara mala, reforçando alguma história sua de encontro ruim originado no tinder.

No meu caso, mesmo meus próprios relacionamentos amorosos serviram de certa forma como uma espécie de mensagem criptografada, direcionada aos entes dos quais eu buscava aceitação. Foi mais fácil dizer “mãe, eu tô saindo com o João” do que “mãe, eu sou gay”.

Talvez não tenha sido essa a estratégia mais inteligente, talvez eu tenha decepcionado muitos Joãos no caminho de conseguir fazer uma afirmação positiva sobre mim, mas sei que essa foi a forma que encontrei de não calar. O que continuo me perguntando, depois desse tempo todo, é por quê é tão difícil ter a coragem da Aninha de simplesmente ir direto ao ponto? Não sei por quê eu não cumprimento a minha psicanalista com um beijo. Talvez porque quando eu comecei a análise não fizesse sentido, um aceno tava de bom tamanho pra garantir o vínculo (pra falar a verdade com exceção do meu ciclo íntimo de amigos, qualquer pessoa que cruze comigo num corredor não vai receber mais do que um aceno de cabeça), mas, a despeito do utilitarismo da coisa, Jesus, como é difícil pedir um beijo da minha analista!

Gabriel AS

Written by

De um suporte para outro, tentando criar sentidos.