Geografia

Gabriel AS
Sep 5, 2018 · 4 min read

Desde que voltei a morar no Brasil me estabeleci novamente na casa dos meus pais (mais precisamente na casa da minha vó, onde de fato cresci), fazendo um retorno ao lar depois de quatro paradoxais anos morando em São Paulo.

Sempre tive uma relação muito ambígua com lugares, minha angústia de não ter lugar no mundo sempre se traduziu de uma forma muito literal no jeito como ocupo os espaços a minha volta: sempre que visito um lugar novo, automaticamente passo pelos diferentes prédios imaginando como seria minha vida se eu morasse em algum daqueles cômodos. Uma casinha verticalizado em Veneza, os subúrbios de Praga, a efervescência da Madrid LGBT, em Chueca. Mas não é só pelas minhas andanças burguesas que essas fantasias (com um tanto de fetiche) me dominam; mesmo em São Paulo, tendo endereço fixo, me pego andando pelo bairro, à noite, voltando do mercado, imaginando como é a vida em cada um dos prédios vizinhos, se há, em algum desses lugares, um espaço no qual eu sinta que possa me estabelecer, algo que me dê as coordenadas de que terra eu habito nesse mundo. Como é possível morar em um (único) lugar e fazer a escolha fundamental de viver sua vida a partir desse ponto geográfico? Por que esse e não outros?

Em verdade minha mítica do flâneur em busca de morada é uma sobrecompensação da minha infância, nessa mesma casa na qual volto a morar. Aqui não vivi com meus pais, mas dividindo quarto até a adolescência com a minha tia, de onde berço virou cama e a noção de privacidade se distorceu em um conceito apropriado de uma forma familiarmente muito singular. Nos breves períodos sob o teto dos meus pais vivi a mesma narrativa, mas com meu irmão mais velho, por quem eu sentia medo e admiração. Nesse sentido era mais fácil habitar o espaço de uma mulher adulta, uma segunda mãe. Cresci cultivando o sonho da cidade grande, praticamente um clichê da Broadway, menino de interior que ao invés de cantar era bom nos estudos e que queria fazer dessa porta uma fuga. Fugi. Mas me levei na bagagem.

Num breve resumo, em quatro anos de São Paulo passei por casas que não eram casas (espaços com cama e dois ou três outros móveis em residência estudantil, que podiam ser chamadas de tudo, menos de lar), casas que eram casas, mas não minhas casas, porque, como disse, levei comigo uma bagagem, e tentei achar espaço para todas essas coisas onde não cabia, com pessoas que não tinham por responsabilidade aceitá-la na paisagem. Tinha excesso, tinha gesso e, como resultado, a convicção de que “hum, ainda não é aqui”.

(Advinha?, não era lugar nenhum).

Voltando ao presente, depois de passar um tempo fora me perdendo por cidades das quais eu só tinha ouvido falar, percebi o quanto adquiri um certo gosto por cidades pequenas, de ruas estreitas e ritmo lento. Me sentia muito mais acolhido nas ruas de pedra de algumas vilas do interior da Alemanha do que no caos paulista de Berlim. Curioso foi perceber, olhando para as fotos, o paralelismo entre muitas dessas cidades pequenas com Atibaia, o pedaço de interior onde cresci e na qual nunca consegui encontrar apelo estético algum. Menino de interior por ocasião. “Como posso sonhar em ter um tipo de vida na Europa que rejeitei durante toda a minha vida no Brasil?”

Como disse, voltei pra casa, não sem alguma angústia, mas retornando a bagagem ao seu lugar de origem, reatribuindo objetos, coisas, pessoas. Tentando, ao invés de procurar lugar no imaginário das casas dos outros, fazer as pazes com a minha própria casa. Parece mais lírico do que de fato é; na prática, é um processo. E o engraçado nessa história toda é que tentando fazer isso descubro que não sou o mesmo, a bagagem não é a mesma e a casa não é mesma. Voltei com muito mais cacareco, coisas que são importantes e dizem de mim, mas só conseguir conquistar lá fora, na casa dos outros, e agora as estabeleço como rotina no seio da família. Não é fácil, mas também não é nenhum sacrifício, vivo administrando a tentativa de dar sentido às minhas raízes com a falta de eventos culturais na sexta à noite. Aceito e demarco lugar, vivendo, ao mesmo tempo, a temporalidade de um espaço que é meu e ao mesmo tempo de um garoto de 15 anos, ligados e separados por oito anos de andanças.

    Gabriel AS

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    De um suporte para outro, tentando criar sentidos.

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