Girls e a transição para a vida adulta

Girls promo Season 06 Episódio 10

Contém spoilers de todas as temporadas

Ser adulto é difícil. Esta foi a tecla martelada nestas últimas seis temporadas no seriado de TV da HBO, Girls. A sitcom não necessariamente gira em torno da amizade de quatro mulheres. É simplesmente a história de uma personagem, Hannah Horvath, e a sua transição para a vida adulta enquanto rodeada por estas outras personagens tão perdidas como ela. Pela perspectiva de uma geração coca-cola — burgueses sem religião e filhos da revolução como já predisse em letra e melodia, Renato, sobre os pós adolescentes pré-adultos.

Está lá grafado em multi aventuras o seu período de gap entre o seu querer e o ser. A saga quixoteana da mulher que iria ser escritora, desbravar o mundo novaiorquino (pelas lentes do Brooklyn e não via Manhattan ou Upper East Side) e desafiar o capitalismo pós crise mundial numa América depredada. Numa sociedade machista e patriarcal que resume mulheres a serem filhas, esposas ou mães, enquanto as mesmas tentam emancipação. Na trama principal a dificuldade de encontrar o seu lugar ao sol e todas as voltas que damos para perseguir nossos próprios rabos nesse interim. Personagens sem filtros, sem rumo na vida, que experimentam do sexo, drogas e rock n’ roll moderno, até simplesmente terem que se achar — ou não, e daí virarem adultos falidos de vez — caso Charlie Dattolo que termina viciado em heroína depois de ter sido um empreendedor de um App.

Mais do que isto, Girls discutiu na TV — mesmo que por assinatura — temas delicados como racismo, relações interraciais e inter-geracionais, gordofobia, transtornos psicológicos, violência contra a mulher (em inúmeras instâncias), empreendedorismo, nessa faixa etária dos 20 e poucos. E deu espaço a esta turma que tenta, tenta, tenta. E não necessariamente vence ou falha. Misturados entre hipsters, youtubers ou yuppies que querem ter voz sem saber muito bem o que dizer ou como dizer.

Pode até ser que tenha usado o mote da amizade dessas garotas (este termo proposital já que não estão Mulheres feitas) num mundo de conto de fadas disfarçado de mundo real. Ao mesmo tempo que conversa com a garota universal que está dando cabeçadas entre hormônios, vida social e pessoal para saber como viver. Sonhar é bom mas não paga as contas. E, decisões precisam ser tomadas para adentrar a nova fase de responsabilidades da vida adulta.

Hannah aparentemente falha e termina mãe solteira. Ou seria esta a grande sacada sobre a mulher moderna? Que esta mulher pode ser o que ela quiser, inclusive, encontrar-se adulta e assumir-se em suas calcinhas como mãe independente. Ou pode abortar (como Jessa queria fazer no piloto — porém o destino encarregou-se por si — Ou Mimi-Rose o fez do feto de Adam). Pode casar e se divorciar. Pode mudar para o Japão. Resumidamente, o que raio esta mulher quiser. E, entre tantas decisões, nadando contra a maré do que se é esperado socialmente para uma parte da população privilegiada: branca, heterossexual, classe média alta — que se forme num curso superior, arrume um emprego e assuma as rédeas de pagar impostos. The American Way ora pois sim sim.

Por um outro lado, não deixa de ser agridoce o fato da maternidade ser o motivo para que a maturidade forçada sob ótica social seja adquirida por Hannah. Ser responsável por outro ser humano é o que faz a personagem crescer e tomar as rédeas da própria vida — apesar de difícil. E, neste caso, mesmo que seja uma decisão consciente, dá a impressão que este caminho ceifa mulheres que desejam mais do que os seus papéis sociais permitem (apesar de ter sido escolhido). O discurso é remartelado quando a escritora famosa no episódio 04 desta última temporada, ao perguntada por Hannah se ser mulher e escritora é tão difícil, responder: Dificílimo.

E por mais que possamos dizer que Hannah possa colocar todos os seus sonhos na criação de outro ser humano e talvez a possibilidade do que ela poderia ter sido, fica a mensagem final de que sonhos não se concretizam, principalmente nesta sociedade desigual em questões de gênero e todas as outras disparidades. O bebê é do sexo masculino, btw.

Um final redondo de sitcom, com um cavalo branco disfarçado de emprego milagroso de professora de internet pode ser simplório e uma versão limitada do que o sucesso almejado pode ser. É a mensagem de que não importa como, sempre há um final dos períodos de transição. De todas as formas, este gap em busca de nós mesmos é um período marcante, como qualquer fase de mudança na vida. Apesar de confuso enquanto vivenciamos é quando construímos as melhores lembranças e histórias mirabolantes para momentos de reminiscências no futuro. E tem sempre um ponto final mesmo que acre. Poderíamos não concordar se Hannah terminasse escritora publicada no The New York Times ou casada ou até abandonando tudo para fazer um mochilão na América Latina.

❤ ;(

Talvez por isto, o episódio “What will we do about Adam this time?” foi um dos que mais me tocaram nesta temporada. É quando há o resgate do relacionamento de Adam e Hannah num breve período de fantasias sem trazer toda a bagagem e conturbações entre eles. Os problemas ficam de fora naquelas horas em que eles passeiam, tomam soda e divagam sobre criar o filho dela juntos. É quando deslubram e vivem a magia. Não deixa de ser um preâmbulo sob todo o período que a série representa. Até que eles “caem na real” e vão cada um para o seu lado. Numa das melhores atuações dessa dupla (Adam e Lena) que dizem tudo com os olhos, as lágrimas, as emoções e o silêncio ensurdecedor antes de embarcar no próximo e inevitável capítulo.

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