Master of None e a habilidade de falar sobre tudo e mais um pouco

Master of none, 1º episódio da 2ª temporada — The thief.

Aziz Ansari (Parks and Recreation) é autor, produtor e protagonista da série original da Netflix que estreiou sua segunda temporada no streaming no último dia 18 de Maio. Com inspiração na sua própria vida, ele encarna Dev Shah, um americano com raízes hindu e ator na casa dos 30 e poucos anos em começo de carreira em Nova Iorque. A série conta o cotidiano desse personagem com holofotes voltados para as suas experiências amorosas. Aziz é sagaz e como quem não quer nada, discute temas espinhosos como racismo, religião, machismo, assédio, relacionamentos inter-raciais, homossexualidade, imigração, geração e preconceitos pela ótica de alguém que faz parte de uma minoria. Tanto na vida real quando na fictícia — os pais do artista interpretam os pais do personagem na trama — a tradição muçulmana e religiosa familiar é muito importante, e por isto bastante explorada, sendo um dos assuntos centrais do seriado. Principalmente em pontuar preconceitos e racismo usando o humor como escape, de uma maneira mais leve que a maioria dos comediantes que usam essa técnica, como Chris Rock, nomeadamente uma das inspirações de Ansari.

A primeira temporada já havia sido uma deliciosa surpresa, apesar de alguns deslizes, personagens bidimensionais e histórias mal encerradas. Os dez capítulos de cada temporada foram literalmente devorados como uma maratona merece. Mas é preciso pontuar que os temas se aprofundaram na nova leva de episódios. Qualidade estética e muitas referências para encantar amantes do cinema ou cultura de entretenimento no geral.

Nos despedimos de Dev no último episódio da primeira temporada com um futuro incerto, logo após romper o seu relacionamento com Rachel. Quem se lembra da briga do macarrão? O SOS final de um relacionamento que luta desesperadamente para respirar. Diálogos no ponto e muito realismo são ingredientes perfeitos para aguçar a nossa curiosidade do que viria. Ele nos aludiu que iria viajar e terminamos a temporada despedaçados e esperançosos.

Logo de início já podemos destacar o primeiro capítulo da nova temporada, que reverencia o filme Ladrões de Bicicleta (1948) de Vittorio De Sica, inclusive ao usar a trilha sonora da película no episódio. Encontramos o protagonista em Módena, na Itália, aonde foi fazer um intercâmbio cultural e ser aprendiz da confecção de macarrão em uma pequena loja da comunidade da região Emília-Romanha, na província de Modena. Preparar o Tortellini, prato típico, com sua hereditariedade e primosidade não é tarefa fácil. Muito pelo contrário, trata-se de uma obra de arte. Bem como falar o italiano. E, Dev ainda debate consigo conflitos amorosos e existenciais, salpicados com muito humor. Esse talhamento da Pasta tão esmerado é colocado na concepção de cada episódio. E, quando finalmente Aziz encontra-se frente a frente com Rachel toda a grandiosidade daquele relacionamento de outrora toma outras proporções na nova temporada.

Master of None 8º episódio da 2ª temporada - Thankisgiving.

Outros dois grandes episódios da segunda leva são “New York I love you” — um “bottle episode” que concentra-se em personagens aleatórios nova-iorquinos como um porteiro, uma moça surda e um taxista imigrante — e “Thanksgiving” que conta todos os jantares que Dev atendeu desde criança na data comemorativa na casa da sua melhor amiga, Denise (Lena Waithe) — um estudo social sobre racismo, feminismo, religião, família e opção sexual.

Ao mesmo tempo, alinhava a saga de um ator buscando o seu espaço no mundo do entretenimento. Que acaba por trabalhar em projetos que nem sempre o agradam, caso do “The clash of the cupcakes” ou o show “BFF’s”. Não se engane, no fim, é uma comédia romântica progressista com uma ótica politicamente correta e humana.

Há mais destaques saborosos como “First date” e a onda modernosa de amar em tempos de internet. Pena que não passe de um tira gosto.

No cerne da questão, o autor trata o amor, como em muitos casos de entretenimento, como algo mágico. Dev se apaixona aonde menos esperava. Ainda que durante a saga haja uma busca por um romance interessante, ficamos na mesmice dos contos de fada. Um pouco decepcionante. Francesca (Alessandra Mastronardi), o par de Dev, nada mais passa de um modelo contemporâneo das musas italianas: branca, européia, de personalidade rasa, muito inocente e singela. Depois da reviravolta nesta temporada sobre a relação de Dev e Rachel, resta torcer por melhores histórias românticas e menos inatingíveis para a terceira.

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