Eu passei uma vida inteira sem olhar pra mim mesma

E eu só entendi que não me olhava quando passei a me enxergar. 
Por isso às vezes é difícil a gente sair desse barco.

Com uns 23 anos eu me dei conta, com ajuda da minha terapeuta, que não sabia nomear o que sentia. Eu sabia que me sentia feliz ou com raiva. E só. E passei a falar sobre me sentir frustrada, triste, orgulhosa, capaz, apaixonada, decepcionada. Me sentia também por vezes segura de mim mesma, em outras buscando aprovação. Muitas vezes fazia coisas pra agradar os outros, mas também muitas vezes fazia coisas por egoísmo mesmo.

E só consegui me dar conta que fazia e sentia tudo isso quando parei, respirei e tentei entender o que estava se passando comigo naquele momento. E quando a gente simplesmente pára e respira a gente já age de uma forma totalmente diferente.

Depois disso fui tentando entender um pouco mais do que eu era de fato. Ficava antes muito confusa, pois no trabalho me sentia confiante para falar paras pessoas o que de fato eu pensava e nas minhas relações eu nem sabia de fato o que gostaria de falar. Sentia que meu eu-profissional era muito diferente, e muito mais maduro, que meu eu-mulher, tão inseguro — coitado.

E aí parei pra respirar e entendi que aquilo era normal. Só cresce a planta que a gente rega né? E de uns aninhos pra cá comecei a tentar me regar por inteira. E é incrível como, mesmo com 30 anos, ainda dá pra nos surpreendermos com nós mesmos. Ontem mesmo eu descobri que nunca tinha sentido cheiro de couve-flor no forno. É doido.

Enquanto eu tava lá, tentando nomear meus sentimentos, eu decidi também tentar entender como eu era de verdade fisicamente. E resolvi começar pelo meu cabelo. Cortei boa parte (uns 15 ou 20cm) dele fora e deixei a progressiva de lado. E eu tinha um cabelo enorme, e que eu sempre amei. E que hoje eu consigo amar de novo. Mas foi muito difícil chegar até aqui. Porque além de nunca me olhar, eu nunca tinha me olhado com carinho. As palavra que vinham na minha mente quando eu me olhava no espelho eram duras, extremamente críticas e ríspidas. E eu precisei me olhar muito pra desenvolver um olhar de carinho por mim mesma. Por que eu não sou perfeita, mas não ser perfeita não é motivo pra eu não me amar.

Com o cabelo curtinho e me sentindo frustrada (olha ela, ~nomeando sentimentos) eu decidi pular a janta com todo mundo e voltar direto pro quarto de hotel. Por que eu às vezes, pasmem, sou introspectiva. POW, dessa eu não sabia também.

Aí comprei uma agenda da mandala lunar. E todo dia de manhã eu penso em como foi o dia anterior e uso lápis de cor para pintar isso lá na minha mandalinha. Aí escrevo o que eu sonhei. E penso se o que sonhei faz algum sentido.

Comecei a andar com mulheres fodas com convicções políticas iguais as minhas. Que foram me ensinando a olhar pra mim, mas entender que sem o coletivo eu não sou nada. E que o eu importa pouco, mas que ele é essencial pro todo.

Nos últimos meses eu me dei conta que sonhava em morar numa casa com jardim, mas que não tinha nenhuma planta onde eu moro. E aí eu plantei. E reguei. E tô tentando ainda aprender como se faz isso. Dei nome pra cada uma das minhas plantinhas, e aí nunca mais esqueci de dar água pra elas.

E aí na última semana eu aprendi a ouvir meu corpo. Abacate me faz bem e me deixa sem fome. Dá pra fazer comidas ótimas sem abrir nenhum pacote. Dá pra congelar. Se programar. E até descobrir uma feira de orgânicos que rola num sindicato na frente de casa.

Dá pra descobrir de um tudo se a gente pára e respira.

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