SxSw — Parte II: Obama, Deep Web, Privacidade e Segurança.

A abertura do SxSw desse ano (se você não conhece o SxSw, clique aqui) foi feita pelo Obama. Era bem complicado participar da sessão: você precisava descobrir que a abertura era para só 300 pessoas, precisava se inscrever pra um sorteio de ingressos e depois precisava ser sorteado. Eu não cheguei nem no primeiro passo ;)

Apesar de não ter assistido a abertura no auditório assisti os últimos minutos por screening enquanto aguardava uma palestra sobre Deep Web começar. PS: se tiver interesse, você pode assistir a abertura feita pelo Obama aqui. — Esse texto será cheio de links já que aborda diversos assuntos complexos e/ou interessantes que eu jamais conseguiria resumir em um mero post. :)

Esses 10 minutinhos que consegui assistir foram super interessantes. Uma pessoa da audiência perguntou para o Obama sobre a questão da Apple com o FBI, que por sinal foi um assunto falado em muitas palestras. A resposta, na minha opinião, foi um grande apanhado de frases prontas muito usadas para defender a já conhecida espionagem norte-americana (se você se interessa pelo assunto, recomendo fortemente o livro No Place to Hide: onde Glenn Greenwald conta a história do Snowden e da NSA). Infelizmente os Estados Unidos acham que tem direito de acessar o conteúdo de toda comunicação feita entre pessoas, especialmente a comunicação entre pessoas que não são norte-americanas.

Com uma presença super carismática, Obama pediu inúmeras vezes a ajuda da comunidade de tecnologia para pensar em soluções para a questão de segurança que não envolvam criptografia end-to-end. Criptografar as comunicações entre pessoas tem sido uma solução muito discutida e muito foi desenvolvido nessa área em resposta à espionagem dos EUA, especialmente depois das revelações do Snowden. Obama falou também sobre como abrimos mão de privacidade pela segurança e que isso é normal (sic). Por exemplo: em aeroportos deixamos que nos revistem, já que em troca disso nos sentimos mais seguros. Além disso, reforçou que a invasão de privacidade se restringe a pessoas fora dos Estados Unidos (?!). Em outras partes do seu discurso Obama afirmou que se preocupa com privacidade.

Achei bem difícil de engolir toda a resposta dele à essa pergunta polêmica. A vontade é de levantar e dizer que uma das pessoas mais preocupadas globalmente com privacidade teve que pedir asilo político a outros países já que se permanecesse em solo norte-americano teria sido preso. Então parece uma contradição absurda pedir ajuda para a "comunidade técnica" nesse sentido, além de ter ficado claro que a privacidade da população está em segundo plano se comparada com os interesses do governo norte-americano.

É também hipócrita dizer que precisamos abrir mão de privacidade pela segurança, quando sabemos que as espionagens norte-americanas atingem inclusive Presidentas, Presidentes e membros da ONU, diferente do que ele afirma em seu discurso sobre pedofilia, traficantes, crime organizado e terrorismo (a velha desculpa para se manter uma espionagem cujos dados são de acesso restrito de um país — adivinhem qual? ;)

A minha salvação foi que a palestra "Deep Web & Dark Social: is anything really private?" já começou muito bem, questionando exatamente essas afirmações do Presidente norte-americano. Todos temos informações que não gostaríamos que fossem expostas para todos naquela sala. Por outro lado, somos seres sociais e nossas conexões com os outros são essenciais — não gostaríamos de abrir mão disso mesmo sabendo que determinados tipos de comunicação podem afetar nossa privacidade. Eles trouxeram também alguns pontos muito interessantes sobre privacidade, por exemplo: o que é privacidade para mim é diferente do que é para meus avós. As redes sociais têm um grande papel nisso, já que hoje em dia a exposição online é vista de uma maneira muito diferente. Não consigo imaginar meus avós anunciando que estão namorando pelo Facebook, por exemplo!

hehehe.

Os palestrantes (Greg Swan & Marc Jensen) foram super críticos também com relação às casas automatizadas, já que mesmo que eu opte por não ter lâmpadas "inteligentes" em casa, só o fato de um vizinho meu usar essa lâmpada pode causar danos à minha privacidade. Além disso mostraram imagens bizarras de câmeras não-seguras, e sites onde você pode ver pessoas em tempo real através de suas câmeras de laptop.

Depois desse breve papo sobre privacidade, o assunto foi Deep Web. Tudo começou com uma explicação sobre Surface Web, Deep Web e Dark Web. Vale a pena pesquisar sobre o assunto (não conseguirei explicar tudo por aqui — porque ficaria longo e porque não tenho conhecimento suficiente). Para dar uma ideia bem superficial e imprecisa: Surface Web é tudo que é aberto e rastreável (ex: YouTube e Twitter), Deep Web é tudo aquilo que é fechado mas ainda rastreável (ex: Facebook) e Dark Web é não rastreável. Dado interessante: 93% das pessoas compartilham "darkly". Por exemplo: copiar e colar um link para compartilhar é dark sharing (você não consegue mais monitorar o tráfego).

"Tudo o que você publica na internet estará no Google para sempre". Dark social e dark sharing são uma resposta natural ao oversharing da surface web e também à característica extremamente privada (no sentido de dominada por empresas) que a social web tem assumido.

Três principais pontos dessa palestra: Qual a linha entre privacidade e comodidade? // Dark Social e sua relação com marcas // Tecnologia tem se desenvolvido rapidamente e falta educação sobre segurança e privacidade.

Pra fechar, compartilho com vocês algumas perguntas que ficaram na minha cabeça (ainda sem resposta): a tendência é que cada vez seja mais difícil para as marcas fazerem targeted marketing (que já é bem "polêmico" ;). Novas redes não-rastreáveis já são super populares, como por exemplo o Whatsapp e o Snapchat (100milhões de usuários diários e a rede social que mais cresce sua base por dia). Como isso muda como trabalhamos com data analytics? Minha impressão é de que isso pode impactar radicalmente a forma como as marcas se posicionarão online. O que acham? :)