‘Sócrates’ é o espelho do Brasil, e, como tal, deve ser mantido debaixo do pano
Filme foi vencedor do Spirit Awards, mas contou com baixa divulgação e exibição em pouquíssimas salas de cinema
No fim de semana anterior ao dia em que vi Sócrates, fui ao cinema assistir Coringa, o filme mais aclamado do momento. Sala lotada, diversas sessões para serem escolhidas em qualquer cinema mais próximo, opções dubladas, legendadas, em 3D. Produção hollywoodiana, ator aclamado, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, obra controversa que dividiu a crítica dos jornais e do público.
Levei alguns dias para digerir Coringa. Tentava entender o que exatamente tinha visto, qual era o propósito, o que é que tinha chacoalhado os críticos mais exigentes do mundo para aclamar tão fortemente um filme derivado dos quadrinhos, já que estes geralmente os fazem torcer o nariz. Cheguei à conclusão que não era um filme essencialmente sobre violência, como eu pensei que seria, e como li em muitos lugares; os sentimentos predominantes eram tristeza, solidão e abandono. Revolta.
Assistir Sócrates exigiu certo jogo de cintura. Apenas dois cinemas de São Paulo estavam exibindo o longa. Um horário no Espaço Itaú de Cinema, dois no PlayArte Center3 (Bristol); ambos na região da Avenida Paulista. Um filme sobre um jovem pobre, negro e gay não estava sendo exibido nas salas de cinema populares, onde há mais chances do público alvo se identificar de alguma forma com o que vê na tela. Estava sendo exibido para a elite.
Recentemente, sessões foram adicionadas no Centro Cultural Vergueiro.
O longa é uma produção independente de cerca de uma hora de duração, filmada em Santos, no litoral Paulista. A obra foi realizada em parceria com o Instituto Querô, uma ONG que utiliza o audiovisual como ferramenta de inclusão social de jovens de 16 a 25 anos em situação de risco. Não conta com a presença de atores aclamados; apenas estes jovens.
Sócrates, de 15 anos, recebeu esse nome da mãe em homenagem ao jogador do Corinthians — nada tem a ver com o famoso filósofo grego. Quando a mãe morre, o garoto se vê sozinho no mundo, tentando lidar com o luto enquanto procura emprego, tenta não ser despejado do apartamento onde mora e foge da possibilidade de ser mandado para um abrigo.
O jovem é menor de idade, e é aí que reside o maior de seus problemas. Não consegue trabalho, não tem dinheiro para pagar o aluguel ou sequer comer, e não tem uma boa relação com o pai, de quem ele e a mãe fugiram. Sem família, sem dinheiro e sem ter para onde ir, o garoto é levado de um lugar a outro durante a extensão do filme, e nós o acompanhamos em suas tragédias, tristezas e frustrações.
Sócrates, também, é um filme sobre tristeza, solidão e abandono. Mas é infinitamente mais visceral porque a história retratada na tela é reflexo da realidade de milhares de jovens brasileiros vivendo em condições precárias, lidando com as infinitas complicações causadas por sua situação social sem receber apoio do Estado. Sócrates é todo jovem negro abandonado pelo sistema.
Ao longo da trama, o rapaz é confrontado com questões como a prostituição e a necessidade de revirar o lixo para encontrar o que comer, mas um ponto positivo no roteiro é fugir daquilo que o cinema brasileiro já retratou tantas vezes antes: Sócrates não pega em armas e não se volta para o tráfico. A possibilidade sequer é mencionada. Seu luto é solitário, sua angústia é solitária, e a violência física não é utilizada como um modo de externar a dor.
Em contraponto, o aclamado filme hollywoodiano se utiliza de toda a raiva e frustração do personagem Arthur Fleck para dar à luz o mais polêmico vilão dos quadrinhos. O Coringa — também vítima da negligência do sistema americano — inflige sua dor nos outros. E o objeto catalizador de tudo é uma arma.
Sócrates foi vencedor do Spirit Awards, a premiação considerada o Oscar dos filmes independentes. É uma obra sincera, crua e emocionante, e só o fato de estar em cartaz durante o atual governo é subversivo por si só, mas sua exibição não contou com divulgação alguma. Ele não vai chegar ao público para o qual foi feito, o público que seria profundamente tocado por se ver representado na tela do cinema. A sala de cinema em que eu o assisti não deveria ter mais de 20 pessoas; todas de classe média alta.
Os problemas sociais encontrados nos Estados Unidos são bem diferentes dos brasileiros, apesar de sua representação cinematográfica ser capaz de enganar o telespectador menos informado. Assistir ambos os filmes em seguida um do outro fez com que eu questionasse profundamente o que há de tão fascinante em assistir um homem branco, uma vítima da negligência do Estado americano, lidar de forma violenta com sua condição social, sendo que parece tão pouco interessante voltar os olhos para a mesma situação descrita em circunstâncias brasileiras, onde um jovem negro ainda mais encurralado pelo sistema não sente a necessidade de matar ninguém no processo.
Quando Arthur Fleck pegou em armas e fez vítimas que pouco ou nada tinham a ver com a frustração que ele sentia, não houve indignação por parte dos espectadores; é possível que alguns até vejam o personagem como herói. Se a linha narrativa de Sócrates levasse à construção de um personagem violento como o Coringa, o filme provavelmente teria mais visibilidade midiática. De repente ele se tornaria o menino negro que virou bandido. E esse tipo de bandido não é visto como herói. É visto melhor como morto.
