você acha que tou falando de black mirror?, ou, o que você tá fazendo com sua raiva?
Artimanhas do poder. High-cracking. Reflexões soltas de mim pra mim enquanto frito no mestrado.
1. Sobre os tipos de gente
Tem gente que consegue ver que o mundo tá ao contrário;
tem gente que nem reparou.
(pode ser porque o “poder”, intencionalmente, articuladamente, interfere nessa gente e a impeça de ver. pode ser porque seja uma gente tão cheia de privilégio, que nem consegue ver o que tá acontecendo, protegida no seu retiro.
2. Será que você consegue ver que o mundo tá ao contrário?
Você acha que tou falando de Stranger Things? Ou de Handmaid’s Tale? De bora ocupar a cidade? Bora fazer seminário acadêmico sobre violências institucionais?
Você realmente consegue saber o que tá acontecendo? Sentir?
Quais representações sobre o que tá rolando você tem acessado? Você acha que tou falando de Orange is the new black? Você acha que tou falando de A 13ª Emenda?
3. O que bate aí, quando sente o mundo virado?
Você fica com raiva? Você acha o racismo insuportável, consegue sentir no seu corpo branco toda a culpa e responsabilidade sobre o que está acontecendo no mundo, há séculos?

Você já conseguiu ultrapassar as lições que aprendeu nas aulas de história do ensino médio do colégio particular que só se preocupavam em doutrinar, recontando os massacres brancos e colonizadores sobre as experiências-diversas no mundo?
Você já percebeu que aquela moça que trabalhava na sua casa enquanto você crescia era uma empregada doméstica sob um regime racista-patriarcal que calculadamente pós-fake-abolição reservou os mesmos trabalhos para as mesmas pessoas em falsas condições de oportunidade de acesso ao mundo (normativo-branco-heterossexual-masculinista-cristão)?
Mas, tá.
Você pegou toda essa viagem e ficou com o que? Raiva?
O que você faz com a sua raiva?
Você assiste Ted Talks no YouTube para saber o que pode ou não falar?
Você vai fazer mestrado com bolsa com verba pública ocupando essa vaga, esse lugar de poder-branco-hegemônico, pra pesquisar assuntos e analisar políticas públicas e entrevistar essa galera?
Mas, tá. Vai fazer o que com isso?
As pessoas continuam lá presas, cê lembra disso? Quando você vai lá na baladinha-queer do momento apoiar a cena cultural autêntica de beagá nova capital hispter do brasil ai amo benfs, será que você lembra que o cara que tá no viaduto a 50 metros tem uma vida real? Ou vc só pensa nisso quando assiste àquele documentário no palacio das artes feito pela galera massa?
O que você tá fazendo com a sua raiva?
Você tá realmente com raiva?
(você que tá lendo isso aqui chapado, depois de ter fumado seu prensado pra relaxar a cabeça depois de tanto trampar com coisas dificeis que estão te matando aos poucos… pelo menos as vezes você lembra de onde tá vindo seu beck? você pensa no boy que trouxe o bagulho pra você na porta de casa, que ele corre grande o risco de ser pego, de morrer, de ter que matar…? E que ele é só a ponta de um esquema muito bem bolado, puxado pelos boy mimado herdeiro do mundo? Do tipo de galera que tem helicoptero tombado e aeroporto particular em fazenda de família? E que esses mesmos boy compraram toda a política institucional, desde guerra às drogas até incentivo aos manicômios-prisões evangelizantes chamados “comunidades terapêuticas”?)
(além disso, o próprio poder, esperto que só, já é capaz de orquestrar nossos modos de subjetivação, e encontrou na melancolia-depressão sua melhor aliada. o contato com o pensamento crítico parece trazer consigo um <trojan> que entra, se instala e te infecta toda… a culpa, a impotência, o sufoco, a raiva… a visão da vida fora da bolha…)
4. Qual a resposta então, ô sabichão?
Como, onde, e será que a gente consegue gastar nossas viagens em outros rolês? Mais produtivos? Qual o melhor uso de todo esse high que as representações midiáticas das experiências-diversas nos causa? Sim, também tô falando de Paris is Burning, Rupaul’s Drag Race e Orphan Black.
