O curioso caso das pessoas que não “enxergam” faces

O ato de enxergar parece ser um dos mais simples e intrínsecos no desenvolvimento da espécie humana, ele é sim primordial, auxilia na percepção do mundo, é um dos primeiros circuitos a amadurecerem logo após o nosso nascimento, porém nem de longe é uma tarefa simples e demanda ação de várias redes neurais integradas na imensidão do córtex cerebral para que o processo ocorra normalmente.

Diferente do que pensa o senso comum, às imagens que nosso cérebro interpreta não são analisadas imediatamente em uma única área encefálica responsável por tudo, apesar de ser verdade que o lobo occipital, mas precisamente em uma pequena região chamada sulco calcarino, recebe primariamente as informações oriundas da retina, no processamento da imagem, os dados são fraccionados em diversos circuitos secundários, responsáveis por reconhecer características como: formato, contorno, sombra, cores e movimentos.

(áreas cerebrais ativadas durante a visualização de diversos elementos)

As faces que enxergamos também possuem uma rede própria de neurônios conectados que são responsáveis exclusivamente pelo seu reconhecimento, o seu local segundo pesquisadores se encontra no giro fusiforme ou área occipito-temporal, pessoas com lesão nessas áreas secundárias não irão possuir cegueira (ela ocorre em casos de lesão no sulco calcarino) e sim agnosia visual que é a dificuldade de compreender o que se enxerga.

Dentro das mais diversas agnosias visuais destaca-se a prosopagnosia, que é a perca parcial ou completa do reconhecimento de faces, cujo caso mais célebre inspirou o livro do grande neurologista inglês Oliver Sacks: “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” (recomendo para qualquer pessoa que goste de antropologia e neurociências), que relata o caso de um grande professor universitário e musicista que é diagnosticado com um tumor no giro fusiforme.

(giro fusiforme ativo na percepção de faces)

A prosopagnosia nem sempre é oriunda de lesões ou tumores, cerca de 2% da população mundial sofre do distúrbio em decorrência de mutação genética, que é perceptível logo na primeira infância: as crianças tem dificuldade em reconhecer o rosto dos pais e familiares próximos e o déficit demanda muita habilidade do profissional de saúde para a sua percepção e orientação na adaptação da família a realidade da criança.

Isso significa que essas pessoas nunca poderão reconhecer sozinhas outras na vida? Não! (a explicação vem logo a seguir).

Porque reconhecemos esses rostos mesmos que a imagem não esteja totalmente focada?

Nós reconhecemos essas faces devido a características únicas como um bigode, uma pose, corte de cabelo que se consolidaram no nosso cérebro como pertencentes a essas pessoas devido à repetição, da mesma forma, pessoas com prosopagnosia podem realizar o reconhecimento de indivíduos através de outras qualidades tais qual: a tonalidade de voz, perfume, combinação de roupas e etc.

Com a prosopagnosia, o portador do déficit enfrentará muitos obstáculos que podem ser superados com carinho, um pouco de entendimento (sobre) e empatia, principalmente dos familiares e pessoas inseridas no circulo social, por isso é necessário compreender que definimos o mundo de maneiras diferentes e que todas elas fazem parte da somatória de probabilidades que dá origem a nossa realidade.

(caso possuam a inabilidade e queiram relatar suas experiências ou ajudar os pesquisadores a buscarem uma forma de cura, acessem aqui e colaborem).

(caso queiram saber mais casos e histórias, leiam essa matéria aqui)