Como o beijo que mais desejei se tornou um retrato fiel do preterimento

“A explosão não vai acontecer hoje. Ainda é muito cedo… ou tarde
demais.
Não venho armado de verdades decisivas.
Minha consciência não é dotada de fulgurâncias essenciais.
Entretanto, com toda a serenidade, penso que é bom que certas coisas
sejam ditas.
Essas coisas, vou dizê-las, não gritá-las. Pois há muito tempo que o
grito não faz mais parte de minha vida.
Faz tanto tempo…
Por que escrever esta obra? Ninguém a solicitou.
E muito menos aqueles a quem ela se destina.
E então? Então, calmamente, respondo que há imbecis demais neste
mundo. E já que o digo, vou tentar prová-lo.” (FANON, 2008)

Eu o conheço desde 2012. Talvez 2011, mas 2012 é certeza, quer dizer, tem ao menos 5 anos que o conheço e o amo mais que tudo e sempre. Ele sabe disso. ÓBVIO que sabe que o amo como amigo, que o admiro, que desejo que ele seja feliz, isso nunca o fiz em segredo, mas a parte de que desde as primeiras vezes que o vi já estava apaixonada (TAMBÉM NÉ, ARMARIA É LINDO DEMAIS GENTE), isso ele soube tem pouco tempo. E isso acontece com bastante frequência, não costumo falar pras pessoas que tenho “affair” ou crush nelas, afinal de contas normalmente isso estragaria a amizade, daí vou dando preferência para as amizades e normalmente não me arrependo. Mas o mundão é bola que gira e gira nossas cabeças, corpos, destinos e corações e na última vez que o encontrei enfim ficamos (Eu digo: glória… glória!). Queria dar maiores detalhes, mas para além dos conhaques com mel e limão, me lembro de bem pouca coisa. Agora veja que ironia do destino, (porque sim, tenho certeza que em outra dimensão tem quem se divirta com uns causos da minha vida e se acaba com gargalhadas intergaláticas, só pode) você gostar da pessoa desde sempre e quando você fica com ela não lembra de quase nada. É, camarada, a vida não é docinho, não. Daí vem a parte mais legal ~legal~: nos encontramos e ficamos, pois eu estava de passagem por SP e ele estava com viagem marcada pra outro estado, viagem essa que talvez não tivesse/ tenha volta, era um encontro-despedida. Outra trollagem, óbvio.

Me lembro que por conta desse encontro ganhei um livro, alguns flashs de lembrança bem boas e a sensação de que “ALELUIA, DESENCANTOU, CARALHA, UHU, VALEU MUNDO, FEZ UMA PRA DEUSA VER!” mas isso durou por pouco tempo. Essa sensação de felicidade era grande, mas era como se uma tristeza estivesse agarrada no calcanhar e que não conseguia muito bem definir o porquê. Mas nóis é boa em ser ruim e uma hora as coisas se evidenciam: Minha felicidade estava estampada na cara e no corpo, mas minha tristeza de que tenha que ter demorado tanto pra esse lance acontecer era latente — 5 anos jovem? 5 anos para perceber que eu era uma ~possibilidade~ de afeto, acho tempo demais. Ficar com a pessoa dois dias antes dela fazer a viagem da vida dela, buscando a si e sua história e saber que provavelmente não a encontraria mais é uma sensação bem ruim, a cabeça viaja sem passagem de volta por todos os momentos que poderiam ter sido vividos juntos, todos os beijos, abraços, passeios, enfim, uma sensação de poder e impotência na mesma proporção.

Ah tah, tudo muito interessante mas e aí? Qual o retrato do preterimento? Pra minha pessoa, enquanto mulher negra e gorda, não basta ser “legal” (me acho bem chata na real, mas tento ser honesta o que pode ser lido como “legal”), “inteligente”, “articulada”, “amiga”, “parceira”, “preocupada”. Nada adianta ser tudo isso, pois para a maior parte das pessoas existe um fosso afetivo que nos separa: chego a ser amiga, companheira de luta, mana, camarada, mas afeto? Aí é demais. E ainda penso que essa barreira por vezes pode ser intransponível, pois se uma outra mulher se aproximar de uma pessoa que eu tenha interesse e que seja mais chata, menos articulada, menos solidária, com um jeitinho bem insuportaviane, com visões políticas bem divergentes consegue ter acesso ao afeto desde que seja mais magra, mais branca. Tipo, dilemas da vida que eu “Só registrei, né, não era de lá.”

“Nenhuma chance me é oferecida. Sou sobredeterminado pelo exterior. Não sou escravo da “ideia” que os outros fazem de mim, mas da minha aparição.” (FANON, 2008).

Mudando de assunto pra adentrá-lo ainda mais, lendo o livro de Frantz Fanon “Peles Negras, Máscaras Brancas” é possível entender como é esquizofrênica a construção da psique do sujeito negro na diáspora/ pós colonialismo, onde o padrão é branco e o corpo negro (ele se refere aos homens negros) passam por diversas armadilhas ao tentar ser reconhecido enquanto ser humano, enquanto gente. Sua cor o precede. Independente se for médico, professor, dentista, auxiliar de escritório, advogado, o corpo negro sempre tem que ser justificado. “ — Chegue mais, quero lhe apresentar a meu colega negro… Aimé Césaire, homem negro, professor da Universidade… Marian Anderson, a maior cantora negra… Dr. Cobb, o descobridor dos glóbulos brancos, é um negro… Ei, cumprimente aqui meu amigo martinicano (mas cuidado, ele é muito susceptível)…
A vergonha. A vergonha e o desprezo de si. A náusea. Quando me amam,
dizem que o fazem apesar da minha cor. Quando me detestam, acrescentam
que não é pela minha cor… Aqui ou ali, sou prisioneiro do círculo infernal.” (FANON, 2008. P. 109).

Fanon vem falar da questão das pessoas negras/ homens negros terem de ser justificadas a todo momento. Trago para minha trajetória enquanto mulher negra e gorda, periférica e feminist, que esta sobredeterminação também pode ser apreendida, afinal de contas não importa os valores e qualificações, não importa a força e trajetória, o que me precede é um corpo negro e gordo e isto limita de antemão, e muitas vezes anula, qualquer possibilidade de afeto e funciona como um bisturi a cortar o que as pessoas podem sentir por mim ou não. Beira a insanidade. Nesse site- medium trarei diversas histórias que comprovarão que existe um limite que mesmo que eu quisesse transpor, me vejo limitada. Poderia ser aceita com limitações enquanto mulher, poderia ser aceita com muitas limitações sendo mulher negra, agora sendo mulher negra gorda, daí já são outros 500. Fanon trará em sua obra as alternativas de que o homem negro pode recorrer para que seja reconhecido como ser humano ou como recorre à “máscaras brancas” em sua socialização e ainda assim não deixa de ser lido como o “negro”. Percebo na sociedade continuamente que o discurso do emagrecimento vinculado à saúde é uma coisa muito louca, um valor que as pessoas defendem e reiteram desde a mais tenra idade (emagrecimento como valor já foi tema de outro texto) mas falam pouco sobre as situações de violência e constrangimento que a gordofobia causa nas pessoas, vários traumas, constrangimentos, prejudicando sua saúde mental e auto estima (que foda-se, né? saúde mental nem é tão saúde assim) mas isso é tema pra outro texto. Colocar meu corpo gordo como doente, que tem que ser punido pela falta de “amor”” pra ver se eu aprendo e emagreço para poder acessar o “mundo mágico do afeto” é só mais uma face das crueldades que temos que lidar em sociedade, mas certamente recorrer às “máscaras magras” seria e é uma opção tão efetiva quanto as máscaras brancas — dietas e cirurgias prometem às pessoas que elas acessarão enfim um lugar ao sol, um lugar onde se pode comer sem que as pessoas policiem seus alimentos, que seus trejeitos não sejam lidos como piadas prontas, que seu jeito de lidar com o corpo não seja lido como fracasso ou falta de força de vontade. Tenta-dor.

Sou uma pessoa gorda desde criança, nunca fui e nunca serei magra. Mesmo que emagrecesse, as marcas do meu corpo permaneceriam como gritos de um não pertencimento na sociedade magrocêntrica. Magrocêntrica e racista. Muitas vezes vendendo a ideia que ser magro e branco realmente se alcança a ternura da humanidade. Diria que estamos fadados ao fracasso, mas não seria tão pessimista assim e também não consigo ser otimista também- paradoxos.

Penso que ainda é um rascunho de ideias, projeções e articulações de um diálogo com um autor que veio trazer uma narrativa muito rica (e dura) sobre suas vivências e as vivências que ele presenciou e fazer essa conversa também com minhas vivências acredito que só tende a enriquecer. Para além de diminuir a sensação de que estou ficando louca e vendo coisas onde não tem, sensação essa que me acompanha em diversos momentos. Apenas reforçando que não estou aqui colocando que a gordofobia é equivalente à questão racial, vamos poupar a desonestidade epistemológica ae pessoal #pas #sqn . Estou evidenciando através de um diálogo possível sobre a “coincidência” da maneira como os corpos podem ser limitados e subjulgados antes mesmo de se apresentarem enquanto sujeitos.

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