Web Summit 2019 — Pequenas observações
Essa é uma análise de como foi participar do evento, e ser do voluntariado na Web Summit de 2019.

Do começo: ser voluntária
Eu apliquei no processo em fevereiro de 2019, e recebi o resultado positivo em agosto. No e-mail de agosto, fui requerida para submeter alguns dados, como proficiência em inglês e disponibilidade para trabalhar no aeroporto. Respondi, submeti e aguardei até setembro, quando então me disseram que eu estaria no grupo do aeroporto e me pedindo para escolher uma função e um horário. Havia uma lista de funções diferentes, sem explicar o trabalho de nenhuma delas. Escolhi “Support”, mas só fui descobrir na hora o que era exatamente o trabalho.
Na minha cabeça, suporte significava ajudar os que chegavam ao aeroporto. Mas, na teoria, era para ajudar os outros voluntários. E, na prática… não fazer muita coisa. O meu primeiro dia de trabalho foi um sábado, de 10h às 19h, e havia muito mais voluntários do que trabalho em si. Depois de passar as primeiras 2 horas sentadas dentro do lounge designado aos voluntários, decidi ir para fora da área e me oferecer em outros trabalhos. Fui, então, colocada para andar pelo aeroporto à procura de participantes do evento, indicando o local de inscrição. Então ficou mais interessante. Conheci diferentes pessoas, percebi a diferença das nacionalidades (poucos lusófonos), e esbarrei em pessoas conhecidas que, sem saber, estavam indo para o evento participar.
O segundo dia de trabalho, a segunda-feira, foi bem mais intenso. Fui colocada para o local de registro dos participantes, e fiquei praticamente todas as 8 horas de pé lá, dando bom dia/boa tarde/boa noite e ensinando a mexer no aplicativo. Nessas muitas horas de trabalho com público, passei por situações inusitadas como: uma família que perdeu o vôo e queria a minha ajuda, uma pessoa aleatoriamente pedindo para eu rotear meu 4G, etc.
A melhor de todas foi dentro do registro para o evento. Um senhor de idade veio me pedir ajuda, pois não estava entendendo o que era necessário fazer para conseguir retirar seu crachá para o evento. Eu fui buscar no e-mail dele o código de registro, e enquanto isso perguntei de onde ele vinha, puxando conversa. Ele vinha da Grécia, e me recomendou ir visitar, já que eu disse nunca ter ido. Estava animado para vir a Portugal, e ia falar no evento sobre refugiados. Eu disse que meu projeto final na faculdade foi sobre refúgio, ele se mostrou interessado, e, passados 20 minutos de conversa, finalmente consigo baixar o aplicativo do evento e entrar na conta dele:
George Papandreou, ex-Primeiro-Ministro da Grécia.
…Ah. Bacana, seu George! Poxa, parabéns aí pelo cargo. Sorri de vergonha, mas ele estava absolutamente confortável de não ter sido reconhecido. Mostrei a ele onde era o local de táxis, ele me deu tchauzinho e me convidou para vê-lo no debate sobre refugiados e tecnologia. Claro que fui, né? Prestigiar meu grande amigo.
Para finalizar sobre a parte de voluntário, foi uma boa experiência, mas não pretendo repeti-la. Conheci pessoas do mundo inteiro e sei que vai ficar bem bonito no currículo, então para mim, valeu a pena.
O evento
A minha experiência com o evento começou de forma bastante caótica. Eu estava bastante perto da Altice Arena, então chegar lá seria teoricamente rápido, mas aparentemente não houve mudanças relevantes nas linhas de autocarro. Não adicionaram onde era necessário adicionar. Isso significa que o autocarro que peguei estava absolutamente abarrotado de pessoas, inclusive depois do meu ponto, ele praticamente não parou mais. As idosas que estavam comigo estavam voando de um lado para o outro, porque não conseguiam se segurar. Ainda bem que elas estavam se divertindo e achando engraçado, porque eu fiquei bastante nervosa com a situação. O motorista estava tendo o pior dia do ano. Nem olhava para ver se as pessoas estavam bem, queria mais era que o dia acabasse e a galera fosse embora.
Chegando lá, tive a sorte de entrar separadamente, pois era voluntária e a entrada era por trás. Na principal, um empurra-empurra gigante. Não havia qualquer demarcação de fila, parecia uma manada! Entrei no outro portão e em cinco minutos já estava na área do evento. E aí começou a brincadeira!
Comecei indo à área de Future Societies, um lugar para falar de… futuro. Cheguei à palestra da Shell, mostrando sobre os futuros possíveis da tecnologia. Achei medíocre, medíocre… O futuro era lindo, obviamente, tudo dava certo, a tecnologia salva a nossa vida e somos todos felizes e em um grande senso de comunidade. Fiquei tão chateada com a forma que foi feita a palestra que sequer vou me dar ao trabalho de aprofundar aqui. Vamos para onde interessa.
50 anos da Internet

A segunda palestra foi sobre os 50 anos da internet. Estavam presentes Lee Rainie, da Pew Research Center, e Mitchell Baker, cofundadora da Mozilla. A palavra chave dessa conversa foi, ao meu ver, “mudança”. Eles falaram bastante sobre como estamos em mudança atualmente, sem entrar muito em detalhes sobre o que isso significa. O Lee Rainie disse que acha necessária a criação de uma FDA para a internet. A FDA é um órgão responsável pela promoção e proteção da saúde pública ao controlar e supervisionar coisas como tabaco, remédios, etc. Achei bastante interessante o ponto de vista e, pensando brevemente sobre o assunto, tendo a concordar. Os dois participantes entraram em concordância sobre não ter como voltar atrás nos nossos dados vazados e disseminados, e que isso continuará acontecendo, querendo ou não. Eles acreditam no poder de regulamentação, mas que “isso não ocorra de forma isolada”. Ou seja, que a regulamentação venha acompanhada de conscientização sobre nossos direitos e deveres digitais. Sou cética sobre isso, porque não acredito que seja do interesse nem dos governos, nem das grandes empresas.
Além disso, a cofundadora da Mozilla falou um ponto importante: a inteligência artificial está na mão de poucos, e seus objetivos são comerciais. É necessário democratizar e expandir a quantidade de pessoas pensando e trabalhando com isso.
Uma frase que foi dita, e resume para mim essa conversa é: “Data is out there, what can you do with it?”
Proteger os vulneráveis: como a tecnologia pode ajudar os refugiados

É aqui que eu me encontro com meu velho amigo, George Papandreou. Ele já começou a conversa com o dedo na ferida, alegando que hoje há muito scapegoat com os refugiados (colocar a culpa neles de algo que não lhes pertence) por parte dos governos, e que o problema está no local onde o refúgio acontece.
Eles falaram que a tecnologia é a grande diferença entre ser refugiado hoje e no início do século passado, e deram alguns dados e projetos mostrando mais sobre isso: hoje, 93% dos refugiados que chegam à Grécia chegam com smartphones. A primeira coisa que fazem, como é de se esperar, é avisar a família que chegaram com vida.
Entrando na área tecnológica, foram citadas iniciativas de blockchain para ajudar na entrada dos refugiados em diferentes países. Pelo que eu entendi, a parte crucial é a de criar identidades novas totalmente digitais, através da tecnologia blockchain. Além disso, também falaram um pouco do software criado nos Estados Unidos chamado de Annie Moore, em referência à primeira irlandesa a pisar nos EUA e passar pela inspeção federal. O software tem como objetivo encontrar empregos para os refugiados, e aparentemente consegue aumentar em 20% a chance de se recolocarem.
O George Papandreou conseguiu ser bem enfático em dizer que a tecnologia não é a grande salvadora da pátria e de todos os males do mundo, e como ela é utilizada para ajudar, ela também é utilizada para o oposto. Foi citado como exemplo o governo de Myanmar, que usou o Facebook para descobrir onde estavam os rohingya e matá-los.
Finalmente eu cheguei aonde queria: Que alguém falasse sobre a tecnologia como ela é, em vez de romantizá-la a todo custo. Já não faz mais sentido a narrativa da tecnologia emancipatória da humanidade. A tecnologia é usada para o bem e para o mal, e não é ela que será a catalisadora de grandes mudanças.
Para além disso, vale a pena mencionar outros momentos: a conversa sobre a relação da tecnologia com a animação, focando na evolução da capacidade tecnológica e que isso, mesmo que seja incrível para os animadores, também aumenta a pressão do público sobre a qualidade da animação entregue.
Também assisti à Chefe de Sustentabilidade do Google, Kate Brandt, falando sobre o papel da tecnologia nas mudanças climáticas. Fiquei genuinamente aborrecida com a fala dela, porque o discurso foi todo em volta de “Por mais que as mudanças climáticas sejam desesperadoras, temos que ver como oportunidade de nos unirmos para enfrentar esse grande desafio.”
Essa frase é irresponsável e me deixa muito frustrada. Primeiro parece que a catástrofe ambiental aconteceu sem querer, que não foi uma ação contínua de destruição consciente. E, segundo, de que a Google é a empresa fofa em prol da humanidade, ignorando que ela doa para entidades climate deniers, ou seja, que dizem que aquecimento global é mentira. Até lá dentro da sede, inclusive, os funcionários já fizeram carta aberta sobre as medidas da Google para mudar o mundo não serem eficientes.
Ao meu ver, a necessidade principal é de um faro fino. Para tudo que é dito. Parar de absorver as narrativas sem uma capacidade crítica não é mais uma opção. Achar que o futuro será lindo por causa das grandes corporações também não. Nós, que somos da área tecnológica, temos o dever de refletir sobre nossas ações, e sobre as ações dos outros. Essas empresas não são capazes de mea culpa. Mas isso não significa que nós não possamos fazer esse trabalho.
Então é isso. Foram dias intensos, que me botaram para refletir sobre o meio em que eu trabalho e pesquiso. Estou mais do que aberta a continuar essa conversa, se você estiver interessado!

