A menina
A menina está sentada, escrevendo uma carta de amor, às três horas da tarde, tomando um café que aos poucos esfria na sua frente. Não, não é isso.
A menina está sentada escrevendo uma carta de despedida. Talvez esteja partindo, talvez esteja morrendo. Talvez se mate logo que sair desse café. Bonita, a menina. Não, acho que não é isso também. O olhar fixo no porto não se perde ao longe, mas parece tentar guardar o movimento sereno das águas com o pouco vento que as agita. Há algo de urgente e de dor no jeito que seus olhos se comprimem e formam rugas nos cantos, mas de uma beleza tão simples, tão sutil que começo eu a observá-la melhor, tentando guardá-la em minha memória. Será possível saber que vai morrer e insistir em carregar a beleza dos pequenos gestos? Nas mãos entrelaçadas sobre a mesa, na boca enviesada pro lado, nos cílios que batem delicadamente quase com um cuidado exagerado. Será que perto do fim a beleza prevalece de forma tão disfarçada sobre a dor?
Não, espere, talvez ela não esteja morrendo. Talvez esteja partindo. A menina sentada, escrevendo uma carta de despedida antes de partir, de viajar para longe. Isso. Há sempre a esperança que um lugar novo traz, de ar novo, terra nova, gente nova. A dor, que talvez sinta, está camuflada na alegria contida que a esperança traz. E se nada for novo? Será, menina. Será.
Quando ela terminar essa xícara de café talvez vá direto para sua casa, para seu quarto, arrumar o resto de suas malas, olhar algumas fotografias, pensar em alguns amigos que ficarão, pensar na pessoa que receberá essa carta que escreve agora. E depois partirá. Ar novo, terra nova, gente nova. Talvez esteja dentro do ônibus, quando enfim a pessoa, talvez um rapaz bonito de tez morena e cabelos cacheados, talvez uma moça de longos cabelos coloridos, lê a carta que foi escrita nessa mesa de frente pro porto, às três da tarde, enquanto uma xícara de café esfriava. Talvez não seja lida, por raiva pela partida, por mágoa. Não, não, ela será lida, deve ser lida. Cartas de despedida sempre devem ser lidas.
E só no final do dia, quando a menina já tiver chegado, tiver começado a organizar suas coisas no seu novo quarto, nova casa, nova vida, é que sentirá a dor escondida atrás dos seus gestos. Sentirá as lágrimas da pessoa que ficou, da pessoa que recebeu a carta. Então chorará e por alguns minutos ficará tão fria quanto o café que está agora na sua frente. Mas depois tudo ficará bem, sempre fica, certo?
Ela levanta. Levanta, pega a bolsa pendurada na cadeira, coloca sobre o ombro e sai. Talvez agora vá embora, entre no ônibus com toda sua esperança de ar novo, terra nova, gente nova, vida nova. Não, não é isso também.