Bordado

No chão os cascalhos falam sob os pés de Benício. Ao seu lado as casas observam silenciosas o homem andar com seu passo torto e irregular. Na número oito, com a tinta branca descascando, as cortinas escancaradas revelam o interior em escuridão solene. Benício sente calafrios crescerem e morrerem feito onda, como se segredos fossem sussurrados em sua alma quando olha além do jardim esquecido.

Os olhos míopes já procuram, no primeiro andar, sentada em frente a maior janela, a mulher de cabelos grisalhos e desgrenhados, concentrada no bordado que carrega no colo. Não que haja qualquer expectativa de trocarem um olhar ou um gesto, mas sente algo doído vendo a pequena roupa de batizado sendo bordada com agilidade, de novo, de novo e de novo. Todos os dias é possível ver o bordado avançar, desaparecer e se refazer, enquanto as mãos que o criam definham em dedicada insensatez.