Como fica a comunicação pública pós-impeachment?

No último ano da graduação, precisei viver aquele grande trauma chamado estágio obrigatório. Como talvez você saiba, o mercado de trabalho não é dos mais agradáveis ou justos na área da comunicação, então a experiência de ser uma estagiária de um novo curso de comunicação em uma cidade de pouco menos de 400 mil habitantes que sempre foi governada pela mesma família e é muito adepta da sobrinhagem já não prometia ser nada fácil.

Acabei entrando em um jornal duvidoso, que se mantinha de anúncios estranhos, pautas pagas e eventuais entrevistas com políticos locais. Entretanto, não era todo dia que choviam anunciantes, muito menos que algum bam-bam-bam resolvia aparecer na redação e falar pro meu chefe “publica minha agenda aí”. O resultado disso era a rotina de trabalho: eu passava manhãs inteiras acessando sites de agências de notícias para republicar matérias na íntegra no ~portal~ do jornal, pois não tinha permissão para escrever minhas próprias pautas.

De vez em quando, eu era diretamente orientada a entrar no site de determinado partido político e postar sobre a fala do candidato a presidência ou qualquer coisa assim. Em contrapartida, para cada publicação de um pólo político que tinha que fazer, trazia outras quatro da oposição e isso só se demonstrou um problema quando eu tive que fazer uma nota para o impresso sobre a passagem de Aécio Neves pela minha cidade. Acrescentei informações sobre outros partidos e tive um parágrafo inteiro cortado sem dó nem piedade, o que deixou minha notinha sem o menor sentido.

Nesse processo de republicar matérias de agências de notícias, criei o hábito de acessar diariamente o site da EBC e da Agência Brasil. As atualizações não eram constantes, mas as publicações eram de excelentíssima qualidade, especialmente aquelas que falavam sobre alguma festividade típica brasileira, que recuperavam algum personagem interessante da nossa história ou falavam um pouco sobre as diversas culturas do território nacional.

Agora, enquanto escrevo este texto, é assim que estão as páginas iniciais da EBC e da Agência Brasil: parecem meras assessorias de imprensa do governo, formais, conservadoras e pouco atrativas.

Além disso, acredito que não é novidade para ninguém falar que a Rede Globo (e demais meios de comunicação que compõem uma elite simbólica) esteve o tempo todo fazendo o trabalho de instigar os cidadãos contra a presidenta eleita democraticamente deixando todo mundo aterrorizado com o cenário político e econômico.

Obviamente, meu objetivo aqui não é acadêmico e eu também não pretendo fazer desse texto uma carteirada, trata-se apenas das minhas impressões enquanto comunicóloga e alguém que está tão preocupada quanto perdida com os próximos passos que o Brasil vai dar. De qualquer forma, acho interessante compartilhar um trecho do livro Opinião Pública, do teórico e pai do conceito Walter Lippmann:

“Na primeira fase, o líder vocaliza a opinião frequente da massa. Ele identifica a si próprio com as atitudes familiares de sua audiência, alguma vezes contando uma boa estória, algumas vezes brandindo seu patriotismo, frequentemente afligindo uma mágoa. Ao descobrir que ele é digno de confiança, o pulular para cá e para lá da multidão pode se voltar para ele. Espera-se dele então que apresente um plano de campanha. Mas ele não descobrirá aquele plano nos slogans que expressam os sentimentos da massa. O plano nem mesmo será sempre indicado por eles. Onde a incidência da política é distante, tudo o que é essencial é que o programa seja verbal e emocionalmente conectado no início com o que foi expresso na multidão. Homens de confiança num papel familiar subscrevendo os símbolos aceitos podem percorrer um muito longo caminho em suas iniciativas sem explicar a substância de seus programas.”
“[…] Eles pegam se não a massa em sua totalidade, pelo menos os subordinados da hierarquia de sua confiança para lhes preparar para o que poderá acontecer, e fazê-los sentir que eles desejaram livremente o resultado.”

Qualquer semelhança com a nossa realidade atual é mera coincidência, afinal, o texto é de 1922. Contudo, é possível listar diferentes situações em que os passos descritos por Lippmann foram postos em prática nesse processo de impeachment, por exemplo:

Enfim, a lista é longa e eu poderia ficar até o final do mandato do cara brincando desse jogo.

Via: EBC

Voltando à EBC, devo assumir que comunicação pública não esteve entre os meus maiores interesses durante a faculdade, mas é impossível não notar as mudanças que o setor da comunicação vem sofrendo desde que o impeachment começou a ser desenhado.

Primeiro, vamos começar entendendo o que é (ou deveria ser) a comunicação pública: segundo a professora Heloiza Helena Gomes de Matos, da USP, essa modalidade da comunicação deve ser sobretudo democrática e, nos nossos meios de comunicação, funcionar como um espaço público que fomente o debate político, prezando inclusive pela pluralidade de opiniões.

Matos acrescenta ainda: “a comunicação política vai além da comunicação governamental, comunicação eleitoral ou marketing político. Por outro lado, a comunicação pública se articula com a comunicação política na esfera pública, como local de interação social de todos os agentes e interesses envolvidos. […] A questão central é saber, nesta esfera de relações, o que se busca e o que se é obtido: o poder está sempre em jogo, mas só os temas e interesses comuns dizem respeito à comunicação pública.”

Ora, toda essa conceituação seria linda e maravilhosa, mas sabemos que no exercício da nossa democracia não é isso que tem acontecido. Cerca de um mês depois de ter assumido o governo provisoriamente, Temer começou a ameaçar que os serviços da EBC seriam reduzidos, justificando-se a partir de dados orçamentários — sendo que essa era a maior limitação que a empresa enfrentava ao colocar projetos em prática. Além disso, o presidente Ricardo Melo também estava com os dias contados, o que desencadeou uma briga no Supremo Tribunal Federal.

A partir do momento em que a EBC passa a ter ligação mais íntima com o governo, torna-se impossível fazer uma comunicação desvincilhada da gestão. Assim, matérias sobre o aniversário de Carolina Maria de Jesus, sobre o impacto positivo do Bolsa Família na vida de mulheres do sertão brasileiro ou os cortes de programas como o Ciência Sem Fronteiras passam a dar lugar a manchetes como “Saúde libera R$ 513 milhões para santas casas e hospitais filantrópicos” e “Favorável ao impeachment de Dilma, Cristovam Buarque é hostilizado no Senado”.

É claro que as boas ações do novo presidente devem sim ser publicizadas. No entanto, não é aceitável que façamos vista grossa também aos retrocessos, que não são poucos e ainda devem ser muitos. Falo isso agora porque ontem (31/08) eu esperei ansiosamente para ouvir A Voz do Brasil, que é em parte produzida pela EBC, e me senti nauseada ao ouvir Temer falando que não é golpista porque não feriu a Constituição e que agora vai investir pesadamente em publicidade para que o cidadão brasileiro entenda a necessidade da reforma da previdência.

Isto Não É Um Cachimbo

Sim, meu torcer de nariz se deve à minha antipatia ao novo presidente e mais ainda ao circo que nos trouxe até aqui, mas a tristeza só despertou quando ouvi uma repórter (não me lembro de seu nome e, conhecendo as estruturas da comunicação, também não a culpo) falando animadamente sobre as conquistas de Temer durante seu governo provisório. De que valem meia dúzia de conquistas se a lista de direitos perdidos é muito maior?

Já faz alguns meses que eu perdi a mania de colocar um CD ou um pen-drive para tocar quando começa A Voz do Brasil e eu estou presa no trânsito e foi assim que eu senti a primeira mudança na comunicação pública com essa crise política. Até a abertura do processo de impeachment, o tratamento dado à Dilma era de presidenta e a situação era sempre vista de diferentes ângulos, dando-se voz a deputados e senadores de diferentes partidos. A neutralidade jornalística é sim uma falácia, mas o que tínhamos talvez fosse algo próximo desse ideal, as matérias e notas sempre terminavam com um tom de “e agora? Tire suas próprias conclusões”.

No primeiro mês de Temer no governo provisório, esse ainda era o “vice-presidente em exercício” ou “presidente interino” e Dilma continuava sendo nossa “presidenta afastada”. Entretanto, assim que as ameaças à EBC começaram, o que passei a ouvir foi “o presidente Michel Temer” e “a presidente afastada Dilma Rousseff”. Percebe o quanto isso é simbólico?

Por fim, deixo você com esse grande ué: o governo não precisava cortar gastos e ia começar pela comunicação pública? Mas Temer não quer maior publicidade para o seu programa de governo? Então como assim “Temer pode dar verba publicitária do governo a sites evangélicos”? Se você entendeu, por favor me explica!


Para ler sobre o golpe do ponto de vista da história, recomendo o texto “Fragmento de quê?”, da Vanessa Bittencourt.