Dia de quem cuida de mim

Esse foi o primeiro de muitos em que tudo correu bem. Quem me conhece sabe que o segundo domingo de agosto, dia dos pais, nunca foi fácil. Era acompanhado de choros e muita vergonha da minha parte. Pois é, vergonha. De algo que aconteceu antes mesmo de eu entender o que essa data representava.

Nenhuma criança escolhe não ter o pai por perto e eu também não escolhi. Acho que a vergonha começou aí. Lembro de algumas vezes, na época de escola, em que eu levantava a mão e perguntava se o presente de dia dos pais poderia ser para o meu avô ou para a minha mãe. Raras as vezes que o ‘sim’ seguia a minha pergunta. ‘Ué, mas o que aconteceu com o seu pai?’. Acho que faltava sensibilidade de algumas professoras ao perguntar isso, sabe? Não era algo que eu queria responder na frente de toda a turma. Algumas deixavam, outras não. Fiz alguns presentes que nunca foram entregues a ele. Minha mãe sempre foi sensacional o bastante para aceitar todos.

Acredito que nem todos os homens nasceram para serem pais, assim como nem todas as mulheres nasceram para serem mães. Porém, não podemos negar que essa situação é mais fácil para o homem. Tive essa certeza em um dia desses, quando conheci o namorado da minha prima (por parte de pai). O namorado dela conheceu o primo gente boa, que assa carne, é torcedor fanático do Grêmio e pai amoroso de dois meninos. Acredito que também conheceu alguma história contada e remontada com o meu nome, mas tudo bem. O namorado, simpático e ingênuo, comentou o quão legal ele era. Fato, ele é sim. Não posso negar que é verdade a descrição dele mas, na minha visão de ‘filha’, ele recebe outros adjetivos e isso fora comentado para os dois. Minha prima tentou remendar e usou um ‘tadinho, Gabi’. Não sei se foi pela ingenuidade do namorado ou para amenizar o abandono paterno que o primo dela cometeu. O fato é que isso acontece e muito. E não só comigo.

Por esses e outros motivos o dia dos pais nunca foi um bom dia para mim. Sempre foi terrível. Eu sentia a culpa e a vergonha por não ser boa o suficiente para receber o amor do meu pai. Bobagem minha e hoje eu vejo isso. Sabe por quê? Amor nunca me faltou e eu brinco que sempre recebi demais. Tive um ensinamento sensacional sobre respeito e humildade e sou eternamente grata à mulher que me criou, minha mãe. Ela é, sem dúvidas, meu exemplo. Sei que aprendeu junto comigo a ser mãe e a ser pai. Se não é fácil desempenhar um papel, ela fez e faz os dois. Resolvi de uns tempos pra cá presentear quem me criou: minha mãe e meu avô. Foi uma forma que eu encontrei de agradecer aos dois por assumirem um papel que não deveria ser deles. Seguindo nessa linha, eu poderia presentear minha avó e minhas tias também, mas o salário de estagiária não permite muitas regalias. Fiquei só com os dois mesmo (e marquei para sempre meu avô e minha mãe na minha pele).

Dia dos pais era foda pra mim e hoje foi um domingo feliz com a minha família. O que pode parecer pouca coisa para uns, me fez perceber como a evolução acontece e tudo melhora e se encaixa. Hoje foi o dia de celebrar quem sempre cuidou e cuida de mim com muito amor. ❤