O PERIGO DA FALTA DE IMAGINAÇÃO

“Imagination is more important than knowledge."- Albert Einstein

Olhe ao seu redor nesse exato momento. Onde quer que você esteja, tenho certeza absoluta de que você está na frente de diversos frutos da imaginação de alguém. Seja uma cadeira, um copo, um computador, uma mesa, um tênis. Em algum momento da história, algum ser humano imaginou como seria a vida com esses objetos. Quando pensamos nisso, falamos automaticamente sobre criatividade. Hoje, no entanto, quero destacar o que está em um lugar ainda mais primitivo, na raiz da criatividade: a imaginação.

Imaginação é a capacidade humana de representar mentalmente objetos reais ou criados. Ela envolve a habilidade de manipular essas imagens sem limites, a ponto de se distanciar de tudo aquilo que existe no mundo material. Normalmente, a imaginação parte da memória representativa que temos de objetos, fatos e conceitos que já vimos, presenciamos ou sentimos, mas vai muito além deles.

Todos nós nascemos com a imaginação muito aguçada. É natural do mundo infantil, pois nos primeiros anos de vida, ainda não possuímos as estruturas que dividem fantasia e realidade. É só observarmos qualquer criança pequena por alguns minutos para ficarmos encantados com a fertilidade de sua imaginação. Por não destinguirem perfeitamente aquilo que é real ou imaginário, elas flutuam entre essas duas instâncias o tempo todo. Quando somos bem jovens e ainda não amadurecemos algumas funções cognitivas, somos menos seletivos, cristalizados e rígidos na forma de enxergar e interpretar o mundo. E aos poucos, vamos nos distanciando da magia interna a fim de se relacionar com o mundo externo mais objetivamente.

E como seria se a gente não se afastasse tão drasticamente desse mundo fantasioso?

Sabemos da importância de nossa maturação psicólogica e chega a ser absurdo pensarmos em adultos fantasiando o tempo todo. No entanto, o ponto que eu gostaria de levantar, é que super valorizamos nossa visão lógica, racional e estratégica sobre os fatos, e nem nos damos conta de que a solução dos grandes problemas pode estar em uma de nossas habilidades naturais: na imaginação.

Sabemos dos benefícios em desenvolver as habilidades que nos permitem medir, calcular, selecionar, categorizar e assim por diante. O que talvez a gente esteja ignorando, é o perigo que corremos ao nos afastar da imaginação, dos devaneios, da fantasia. Esse perigo tem muitas justificativas, entre elas a o fato de que não existe criatividade sem imaginação. Criatividade é a imaginação colocada em prática, ou seja, qualquer ideia nasce no imaginário. Ou então o fato de que para solucionar qualquer problema, de qualquer natureza, é necessário imaginar os cenários possíveis para o desfecho que estamos vivendo.

Quanto mais desenvolvida for a imaginação de uma pessoa, maior o seu potencial de projetar contextos, objetos, cores, texturas, cenários e sensações apenas com a sua mente. Isso lhe permite testar hipóteses, descobrir novos caminhos, solucionar problemas e criar sem necessariamente sair da sua cadeira.

Pensando sob essa ótica, fica evidente que estamos menosprezando as atividades lúdicas. Qual é mesmo a importância de ouvir uma história, ler uma poesia, consumir arte, ouvir uma música, improvisar, pintar, jogar, brincar, desenhar, escrever?

Está cheio de textos, videos e palestras nos alertando sobre como a arte pode favorecer a inteligência criativa do seu filho, seu aluno, seu sobrinho. E isso é ótimo! Mas preciso acrescentar um ponto importantíssimo aqui: arte ajuda a manter a imaginação viva, e o cultivo da imaginação é imprescindível para nossa saúde emocional também. Crianças que são privadas do exercício de imaginar, podem se tornar adultos com recursos emocionais mais pobres.

É como se nossa imaginação fosse como uma pequena caixa de ferramentas que guardamos dentro da gente. Sempre que precisamos nos conectar com alguém, criar uma solução, perceber um problema, ouvir uma história, tomar uma decisão, é de lá que sai a matéria prima para começarmos. O que mantém essa caixa viva e cheia, são as experiências que vivemos todos os dias. Se não nos dedicarmos a preencher os espaços com referências ricas, estamos fadados a reproduzir respostas vazias e menos autênticas.

Por isso tudo, meu pedido é que enquanto adultos, a gente não prive as crianças de imaginarem. Que a gente não oferte brinquedos ou histórias prontas. Que a gente mantenha sempre uma abertura à percepção da criança. Que a gente pergunte “O que mais você imaginou?”. Que as nossas perguntas sejam criativas o suficiente para que a criança possa pesquisar dentro dela a resposta. Que a gente não se assuste com a não obviedade do olhar infantil. Que a gente se desacomode e continue pisando nos territórios infantils mesmo agora que já estamos crescidos. Assim, quem sabe, nossa caixinha da imaginação permaneça cheia e vire instrumento de trabalho, vire recurso para nossas relações e referência para nossas decisões.

Que enquanto adultos, a gente possa fazer a mesma gentileza a nós mesmos. A imaginação parece que “se foi” pelo simples fato de que não a exercitamos mais. Existe um mundo de possibilidades que nos convidam a pisar no território da imaginação novamente. Nós da RIA, escolhemos a improvisação aplicada como treino. Falamos em treino, porque a imaginação precisa ser praticada diariamente para ocupar espaços em nós.

Criamos ambientes seguros para que adultos possam mergulhar no mundo imaginário e da criação a partir de jogos e exercícios de improvisação teatral. É mágico ver o reencontro de cada um com essa habilidade esquecida. É como se um novo mundo se abrisse, cheio de novas hipóteses, alternativas e caminhos a percorrer. Quando nos sentimos livres assim, nasce a possibilidade de construirmos um futuro mais autêntico, um mundo construído coletivamente com a soma das sementinhas brotadas na imaginação de cada um.

Terence McKenna (um etnobotânico e místico americano) acredita que a imaginação é objetivo da história. Ele enxerga a cultura como um esforço de literalmente realizar nossos sonhos coletivos. Se for assim, espero que a gente cultive com muito carinho e responsabilidade esse hábito de imaginar. Ele pode ser muito mais importante do que a gente acredita!