Não um paraíso tropical do Novo Mundo

Para a negra e o negro, nem tudo é samba na terra de Vera Cruz

“Redenção do Cam”, de Modesto Brocos, 1895. Museu Nacional de Belas Artes, RJ
Acastanhada. Alva-escura. Amarela-queimada. Amorenada. Branca-morena. Bem morena. Branca-suja. Bugrezinha-escura. Burro quando foge. Cabocla. Café. Crioula. Enxofrada. Escurinha. Fogoió. Meio preta. Melada. Morena-bem-chegada. Queimada de praia. Morenão. Mulata. Quase negra. Negra.

Com 136 termos semelhantes, os brasileiros definiram a cor de si mesmos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1976. Mais de uma centena de cores definidas não só pelo tom da pele, mas por condições socioeconômicas, gênero, visões positivas e negativas de uma mesma etnia, ironia e até conotações sexuais.

Para representar essa suposta variedade, em 1939, Ary Barroso, notório músico brasileiro, compôs os versos de “Aquarela do Brasil”, inicialmente gravada na voz de Francisco Alves, e posteriormente eternizada por Carmen Miranda, Caetano Veloso, Elis Regina, entre uma série de artistas brasileiros, e até Frank Sinatra, “the voice of America”. Os trechos “Brasil, meu Brasil brasileiro, Meu mulato inzoneiro, Vou cantar-te nos meus versos” viajaram o globo, levando para cada canto do mundo um ideal onde “a morena sestrosa de olhar indiscreto” samba com a “mãe preta do cerrado” e “o rei congo no congado” — terra de miscigenação, alegria e carnaval. O paraíso tropical do Novo Mundo.

Mas nem tudo é samba na terra de Vera Cruz. Por meio de uma variedade de símbolos que exaltam nossa miscigenação cultural e harmônica, o país usualmente exporta uma imagem de democracia racial brasileira. Contudo, a propagação dessa falsa alegoria contribui para apagar o racismo naturalizado em nossa sociedade, dificultando o aprofundamento de debates sobre o assunto.

Essa falta de conhecimento produz uma das situações mais controversas no país. Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo, em 1988, aponta a controvérsia com precisão: 97% dos brasileiros afirmaram não ter preconceito, embora 98% dessas mesmas pessoas conheçam alguém que tenha. Ironicamente, podemos então simplificar que “todo brasileiro parece se sentir como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”, como escreveu Lilia Schwarcz em “Nem preto nem branco, muito pelo contrário: Cor e raça na sociabilidade brasileira”.

Esse tipo de pensamento, contudo, poderia ser compreensível. Em vista do processo de branqueamento que nossa sociedade sofreu durante toda a sua história — exemplificada pelas políticas de imigração europeia e asiática patrocinadas pelo governo brasileiro para transformar a raça preta em branca, de acordo com eles, em três gerações — é difícil para o brasileiro definir sua etnia. Em meu caso, eu mesmo me considerava pardo até entrar no meio acadêmico e ter mais contato com a militância política e cultural negra. Isso porque a cor no Brasil leva em conta não só o tom de pele, mas considera também condições socioeconômicas, características históricas e culturais, e até a ocasião e o interlocutor que pergunta para o outro sua etnia — é algo pessoal, razão de orgulho para alguns e, infelizmente, vergonha para outros. Aqui, nunca fez tanto sentido o conceito de raça como construção social.

Essa diversidade e, ao mesmo tempo, a dificuldade de resgatar raízes culturais em um país em que tais raízes foram massacradas, transforma a simples pergunta “o que faz do Brasil, Brasil?” em algo difícil de ser respondido. Mas como tal resposta não nos basta, podemos ampliar nossa reflexão e ousar: O que faz do mundo, mundo? Quem constitui a nação mundial? Seria a população global apenas uma massa, sem uma cultura que nos unisse em torno de algum ideal comum? E seria o racismo um desses fatores que dificultam a formação de um conjunto?

Negra com o filho, Salvador, em 1884 (Marc Ferrez / Acervo Instituto Moreira Salles)

Então, peguei todas essas reflexões e fiz o que qualquer jovem imerso no século 21 faria: joguei na internet. A conexão em rede possui hoje uma extensão que facilita (ou deveria facilitar) o espírito democrático e o convívio de diferenças numa mesma esfera pública. Mesmo que os exemplos atuais demonstrem um aumento do conservadorismo em todo o mundo, numa época onde construir muros e levantar barreiras parecem suplantar as iniciativas de acolhimento e aceitação, essas mesmas redes representam o mundo tal qual o temos. Diverso e complexo. Multilíngue e multirracial.

Em meu Facebook, pedi para que amigos comentassem situações de racismo que viram ou vivenciaram em outros países, independentemente da raça ou da origem deles. Os relatos foram chocantes. Eles evidenciavam as diferenças estruturais entre negros e brancos na América do Sul, a pouca mistura entre intercambistas africanos e os demais estudantes nos países da Europa, e o quanto essa questão vem ganhando espaço nos debates públicos nos Estados Unidos. Um caso impulsionado tanto pela eleição de um presidente que é segregacionista em seu próprio discurso quanto pelos casos de violência e assassinatos contra negros no país. A análise da situação é dificultada quando incluímos nela exemplos de xenofobia e outras tantas formas de intolerância e discriminação. Mas, mais do que me assustar, a diversidade de comentários me provou que o diálogo sobre o tema pode apontar, entre os diferentes modos de ver, possíveis soluções e encaminhamentos sobre o assunto. O conhecimento torna-nos menos arrogantes e mais propensos a reconhecer o outro sem visões estigmatizadas ou superiores.

Compartilho um exemplo. O primeiro grande encontro do século para debater sobre o tema: a III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada em setembro de 2001 em Durban, África do Sul, país vitimado por décadas sob o regime do apartheid. Realizar a Conferência de Durban no início do século 21 representava um compromisso de repensar sobre as práticas do racismo mundial, tão constante em praticamente toda a história da humanidade, para definir metas e políticas em um futuro menos desigual e mais inclusivo. Embora conflituosa e com dificuldades na formulação conjunta de seu texto final, a Conferência possibilitou o diálogo em instância global, convidando 173 países a buscar soluções localmente, por meio de políticas públicas e de reparação; e mundialmente, construindo a Declaração e Programa de Ação de Durban.

Dessa vitória para as minorias, gostaria de destacar o artigo 7, que diz, com todas as letras, que “toda doutrina de superioridade racial é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa, devendo ser rechaçada juntamente com as teorias que procuram determinar a existência de raças humanas separadas”. Retomo os exemplos de meu país para justificar a importância dessa citação.

Macunaíma, um clássico do modernismo nacional escrito por Mário de Andrade em 1928, resgata uma das histórias que povoaram o imaginário do brasileiro do século passado no intuito de ironizar as diferenças raciais do país. Numa cova que parecia a marca de um pé de gigante, o herói Macunaíma foi banhar-se em águas límpidas e encantadas. Quando ele saiu do banho, saiu de sua pele a negritude, e o protagonista emergiu branco, loiro e de olhos azuis. Surpreso, Jiguê, seu irmão, quis o mesmo destino. Mas como a água já estava preta como a cor original do irmão, mesmo esfregando bastante, só conseguiu ficar do tom do bronze. Por fim, Maanape, outro irmão, desejando-se embranquecer, correu para o fundo da cova, mas só conseguiu molhar as palmas dos pés e das mãos — em seu desespero, Jiguê teria borrifado toda a água para fora do buraco. Assim saíram os três irmãos: um branco, um moreno e um negro, aptos a constituírem toda a sociedade brasileira.

É curioso notar que essa história, que ganhou diferentes versões na tradição oral muito mesmo antes de Mário de Andrade escrevê-la, assimila dádiva ao branqueamento. Imagino que se os darwinistas sociais multiplicassem um pouco dessa água para gerar um dilúvio mundial no século XIX, assim o fariam. Lavar o negro da sociedade significaria um entrave a menos para o imperialismo cultural, político e econômico; já que as práticas dessa raça eram consideradas primitivas, selvagens e heréticas.

Principalmente em vista desse percurso histórico, a declaração da Conferência de Durban se torna tão importante. Mesmo que as doutrinas de superioridade racial se tornassem desacreditadas com o tempo, suas consequências foram e são nefastas para toda e qualquer comunidade negra no planeta. Dados comprovam mais que argumentos:

Estima-se que 3,6 milhões de pessoas foram trazidos compulsoriamente da África para as Américas, escravizados durante mais de três séculos, até o último país a decretar o fim da escravidão, o meu, condenar esse tipo de sistema. Das 56.000 pessoas assassinadas no Brasil em 2012, 77% eram negras. Dos 2,3 milhões de pessoas em situação de prisão nos Estados Unidos, 40% são negros — apesar de eles representarem apenas 12% da população do país (segundo dados exibidos no documentário “A 13ª Emenda”, dirigido por Ava DuVernay). Por isso, quem sabe, pais negros norte-americanos treinam seus filhos em casa cotidianamente para se renderem em qualquer tipo de abordagem policial, e evitarem movimentos bruscos que colocam em risco a sua liberdade e a própria vida. Descendo o continente, na América Latina, os afrodescendentes representam os 50% mais pobres do continente — na Colômbia, esse número sobe para 80%.

Mas, onde sobra argumento, sobra também resistência. Nesse ano, a Acadêmicos da Tatuapé venceu o carnaval paulista ao cantar o amor pela mãe África, sambando na simetria de uma bateria que honra “a força de um filho guerreiro, herança de luta e dor, [que] abraça a liberdade [e] a igualdade em comunhão”. Com objetivo semelhante, a União da Ilha valorizou as tradições da Angola no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, coração do carnaval na cidade maravilhosa. A valorização cultural ultrapassa línguas e domina a arte, seja nos versos de Joe Arroyo, que quer “contarle mi hermano un pedacito de la historia negra, de la historia nuestra, caballero” na salsa Rebelión (No le pegue a la negra); como no poderoso álbum Lemonade, de Beyoncé, que clama por uma “Formação” da comunidade negra dos Estados Unidos para alcançar a liberdade que, por sua vez, é proposta nos versos de “Letter to the Free”, do rapper Commom.

Babás negras/ crianças brancas, de Richard Sandler. SoHo, NYC, 1982

Para finalizar, complemento com uma crítica feita pelo jornalista do The New York Times, Bob Herbert, à época da realização da Conferência de Durban. Ele escreveu: “Não se pode lançar uma luta global contra o racismo a partir de uma base de má fé e hipocrisia”.

Exercer a cidadania global significa reconhecer as diferenças fundamentais entre as diferentes sociedades que compõem o mundo e ir além dessas distinções para promover a justiça, o bem-estar social e a igualdade. Significa compreender como cada povo é culturalmente distinto e respeitar suas particularidades dentro de um conjunto que exalta o coletivo de uma nação. E para isso, é necessário ouvir suas histórias, suas experiências, seus modos de ver o mundo; com paciência, identificação e empatia. Possibilitar a troca dos diferentes modos de viver a vida pode ser a chave de sucesso para um futuro, quem sabe, simplesmente mais humano.

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