O mundo está legal

João Francisco dos Santos, o transformista Madame Satã, sob a ótica de um fotógrafo não creditado.

Madame Satã nasceu da malandragem carioca e por ela foi transformado. Antigo escravo em época de abolição assinada, trocado por uma égua pela mãe que desejava um futuro decente que não poderia proporcionar ao filho, encontrou na Lapa a arte e a alegria, a dor e o sofrimento, o preconceito e a libertação. Um fato sobre sua pessoa: gay, pobre, negro.

Madame Satã, Grupo dos Dez. Foto de Guto Muniz

Conheci essa peça numa peça que tive o prazer de assistir. Madame Satã, performado em teatro, poesia e musical pelo Grupo dos Dez, trouxe a verdade crua sobre o que está acontecendo no mundo atual, com uma dureza capaz de pressionar até o coração mais frio. Foi confuso segurar as lágrimas que não deveriam ser poupadas, rir diante de uma ironia política e proposital, ou abraçar o conforto da poltrona que ora parecia me acolher, ora parecia me engolir. Levaram para o palco a discussão de temas sempre tão presentes na minha timeline e no meio onde estudo e trabalho. Machismo? Cenas fortes do pior desprezo com prostitutas, abusadas carnal e psicologicamente. Racismo? Escravidão comprovada após 1900, e a problematização das cotas raciais entre aplausos de ofensa. Homofobia reinterpretada numa tragédia real, que deu à João Francisco dos Santos o primeiro mandato de prisão. Toda e qualquer forma de opressão sendo exposta ali, a alguns palmos de distância, repercutindo na arte a violência do mundo histórico e jornalístico.

E você ainda vem me falar que o mundo está chato?

Quero, então, exemplificar. Primeiramente pela persuasão, já que cada um tem o direito de possuir a própria opinião, e ainda permanecer com ela após severas argumentações e contra-argumentações. Certo. O que não é permitido é ferir o outro com o pensamento carregado de preconceito, sem antes conhecer ou entender alguma das causas que o próximo vivencia. Desconstrução começa a partir de si.

Avançando alguns anos no tempo histórico, e alguns dias na minha rotina, posso sutilmente citar o Oscar 2016 como um exemplo. Em tempos de crítica e crise na produção hollywoodiana, a falta de indicação de atores e atrizes negros a serem premiados confirma mais uma vez a questão da falta de oportunidade no meio artístico, e o preconceito da Academia em levar costumes tão ultrapassados e indefensáveis no momento de fazer sua escolha. Chris Rock foi prático em sua apresentação, usando e abusando da cômoda liberdade que lhe foi concedida para fazer duras e ácidas críticas ao modelo recorrente na sociedade norte-americana. Fugindo um pouco do exemplo, mas complicando ainda mais o assunto, fiquei atordoado ao saber que um partido neonazista dos EUA declarou seu apoio a Donald Trump, sob a alegação de que ele tornaria a “América mais branca”. Outro foi um antigo líder da Ku Klux Klan, cujo forte candidato a ser presidenciável ainda não rejeitou a colaboração. (Por isso, mais músicas como Formation podem e devem criticar a opressão racista em vigência lá, ou mesmo aqui).

Print do discurso de apresentação de Chris Rock, legendado pela página Fã Depressão.

Além de plataforma contra o racismo, o Oscar também teve seu momento de glória com a apresentação de Lady Gaga. “Till it happens to you”, precedida por um imponente discurso do vice-presidente norte-americano, Joe Biden, denunciou o abuso sexual com a presença das próprias e dos próprios sobreviventes, num dar de mãos que significou muito além do “ok, vamos superar essa” à uma união do espírito em processo. Isso para não falar do discurso engajado e ambientalista de DiCaprio, para não fugir ao foco de um texto que até agora só tem lidado com injustiças sociais — não que encaixar ambientalismo nessa discussão requeira muito esforço.

Logo, o mundo está mesmo chato?

Aproximando mais a discussão para solo brasileiro, mineiro, belo horizontino e universitário, presenciei mais uma agressão machista através do facebook de uma amiga. E o que mais me surpreendeu foi esse tipo de atitude partir do anonimato virtual, e do total desrespeito já até esperado daqueles que permanecem e persistem e insistem em tratar a mulher como mero objeto de prazer ou subordinação. E isso, como homem, me irrita; pois tenho que sofrer a vergonha desses do qual compartilho o gênero.

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
 — dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Com licença poética, de Adélia Prado. Peço também a licença para te citar.

Ao mesmo tempo, esse post me animou devido a sua repercussão. 7.162 visualizações não é para poucos.

Não estamos sozinhos. Não somos os únicos que pensamos assim.

Termino minha parca análise voltando a Satã. Num determinado ponto da peça, após magnífica apresentação musical, a plateia, certamente, aplaudiu. E aplaudiu muito. Só que alguns atores saíram do meio dela, aproveitando o momento de delírio para causar um leve desconforto irônico. Uma gritou: vamos aplaudir o fim das cotas raciais. Aplausos. Outra: mal ligo para a situação. Odeio crise. Vou para Miami. Aplausos. Mais uma: batendo suas mãos enquanto faltam as panelas. Risos. Um resumo de um momento que tentei reproduzir aqui com a ignorância da minha memória fraca diz respeito a o quanto somos induzidos a aplaudir o ridículo. A aplaudir alguns, a humilhar outros, a assassinar terceiros. Questionamento e autocrítica constantes, é o que peço.

O mundo está legal. E os pecadores bradam.

Satã é mais um anjo que o inferno acolheu (bis)
A Lapa é um mundo que jamais ele esqueceu.
Samba Enredo da Lins Imperial, em 1990, que homenageia Madame Satã.

Chato mesmo é você.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Gabriel Araújo’s story.