Invisível


Introspecção; uma mente em conflito numa sociedade adversa.

Como as pessoas são pequenas! Não apenas em tamanho, mas em arrogância. Nos sorrisos cheios de deboche, é palpável a vanglória por uma posição tão incerta e frágil; ostentam-na com orgulho, vestem-na, usam-na para esconder o caráter tão desprezível que lhes reveste a alma. 
 
Este ambiente hostil não me é familiar. Não existo aqui senão de forma física; a sensibilidade parte, escapa para um envoltório inabalável do qual eu não posso sair. Por fora, torno-me uma mísera casca — um corpo desperto, porém inconsciente. 
 
Observo. 
 
Eles não sabem. Sou, para eles, exatamente aquilo que aparento: alguém alheio aos arredores, aos murmúrios, aos gestos perversos. 
Parte de mim deseja ser. A ingenuidade é uma dádiva quando serve de escudo contra as ruindades do ser humano. 
 
Mas, quando se é invisível, se tem a vantagem de poder contemplar. 
 
Ao ver, de fora, como um intruso, conhecemos as pessoas de verdade; medimos-lhe a estupidez e a prepotência. 
 
Afinal, o que leva uma criatura a se por na posição de predador, e a forçar outros à condição de presa? Seria a ideia natural de superioridade, ou simplesmente sorte?
 
Não há, no entanto, sorte que possa ser atribuída a esta relação nociva. Nenhum lucro ou espólio — apenas alívio por não ser o alvo. 
 
Como podemos nos autoproclamar raça mais inteligente, se somos a única tola o bastante para impor uma relação da qual nenhuma das partes se beneficia? Que proveitos há em nos destruirmos com o veneno das almas uns dos outros? 
 
Sei que o fazem pela sobrevivência. Mas, se a sociedade requer que pisemos em outras pessoas para nos sentirmos melhor, é porque falhamos. Não só como um grupo, mas como indivíduo. 
Falhamos a partir do momento em que isso se tornou comum, a partir do momento em que a primeira pessoa aceitou isso como normal; falhamos, e continuamos a falhar a cada vez que esse comportamento é aplaudido como excelso.
 
Estes espinhos que vêm constantemente em minha direção, na forma de escárnio e maldade, fazem-me sangrar o âmago, matam-me aos poucos. Não mais ouço o que dizem, o que fazem — ou apenas evito assimilar, mesmo que não me tenham ficado abafados os ouvidos nem baços os olhos. 
 
Estas pessoas foram sempre o caçador, e nunca a caça — não estiveram nesta jaula invisível da qual não consigo sair. Não sabem o que é se sentir preso dentro da própria consciência; o quão fatigante é tentar, vezes seguidas, escapar desta masmorra feita de fel, tanto alheio quanto próprio. 
Não preciso de mais ninguém a apontar e depreciar, quando já me é suficientemente letal e viciosa a auto-reprovação. 
 
Ainda assim, noto-lhes no riso o desprezo. Sinto a ojeriza nas palavras cruéis que finjo desconhecer. São demasiado imaturos sequer para saberem o quão mortíferos podem ser os próprios falares; desconhecem o poder destruidor do que fazem. 
Tiveram sempre a capacidade de inserção, e estranham aquilo que não lhes é igual.
 
Não pedi para me importar, mas me importo. Não pretendia que isso me magoasse, mas magoa. Não queria ser assim — não queria ser — , mas é desta forma que me encontro, incapaz de me tornar algo qualquer. Incompetente no quesito existir. 
 
Esta vivência parte-me por dentro, destrói o pouco que resta de mim e da minha sanidade; não sei quando começou, mas sei que não irá terminar. Não há sensibilidade que resista à perversidade do ser humano. 
 
Isto faz de mim uma criatura apática. Entra em conflito com o escasso sentimento, a parca emoção que ainda resiste, tentando sobreviver à guerra diária que é o receio e a solitude. Não me afetasse isso tanto, não teria eu esta angústia na garganta, esta dor que tenta verter pelas janelas do meu corpo. 
 
Como militante enfraquecido, paro.
Nenhum ser humano foi feito para aguentar este conflito silencioso, e ainda assim somos forçados a fazê-lo; nós, as presas, os alvos da sociedade. Carregamos cruzes cujo peso nos ultrapassa, até que, exaustos, caímos. Cedemos. 
 
Declaro abertamente a minha descrença na raça humana. Num breve momento de valentia, abandono o campo de batalha: sou soldado desertor!


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