Deitado na cama ouço me chamarem na janela, tento ignorar até outro chamado vir ainda mais forte, procurei na minha bolsa os “doces” para me ajudar a esquecer dessa loucura, eles haviam acabado.
- Eu ouço você! -
Ele fala da janela. Levanto sentando-me na cama e encarando-o por alguns minutos antes de deixa-lo entrar.
- O que quer hoje? — Perguntei
- Conversar…-
- Não é um bom dia -
- Nunca é, não é mesmo?-
Seu rosto tem uma expressão cômica mas sua voz soa de forma irônica.
- Você sabe, quero ouvir de você as histórias dessas cicatrizes -
Diz ele sentando-se na cama e atravessando meu peito com suas mãos, alcançando uma parte de mim oculta, um pássaro azul enjaulado.
- Ele parou de cantar depois do último tombo, eram quilômetros de altura e não tinha paraquedas. Sabe como concertar? -
- Não tem concerto -
- Entendo…-
Então tira do bolso uma caixa pequena com uma chave metálica na parte da frente.
- O que há nela? -
- O silêncio -
Após girar a chave algumas vezes ele a deixa em minhas mãos e vai até a janela.
- A noite não precisa ser tão longa -
Observo-o sumir na escuridão e finalmente me deixando sozinho com aquela caixa.
- Obrigado! -
