Enxergo toda a confiança que contruí se desfazendo aos poucos com o passar do tempo, tudo se esvai e estou coberto de cinzas.

Sinto uma fúria tão grande que podia cavar a minha própria cova e logo após me enterrar vivo.

Mas estou no ônibus a caminho de casa, não posso demonstrar nada disso. (Ou posso?) Suprimo o incômodo com o gatilho de sempre, batendo minhas pernas repetidamente, até finalmente entrar em colapso e esmurrar com força tremenda a minha coxa.

Digo a mim mesmo para não surtar, mas a adrenalina já sob a cabeça e fica difícil conter a vontade invasiva de sumir, dar um fim a esse sensação de ter pessoas me observando e falando em meu ouvido o quão bem faço as coisas erradas.

Me convidaram para sair esta noite, decidi não recusar para meu próprio bem. No fundo estava guardando angústia o bastante para permanecer o tempo necessário em meu quarto para escrever um livro inteiro sobre o desprezo.

Cultivo amizades simples que costumam me salvar nesses momentos, não conto a eles sobre isso, pois não faria sentido contar a eles algo que quero esquecer.

Mas deixo aqui a minha gratidão, singela por me fazerem sorrir quando a primeira coisa que me vem a cabeça e desistir.


Sou o lobo entre as ovelhas

A ovelha entre lobos

Sou Rômulo, irmão de Remo

Por ele traído, infortunado

Quando cortei-lhe a cabeça

Senti meu pescoço degolado

Ele me abraçou

Penetrando as vísceras

Em busca de perdão

Anseio frívolo de um corpo nu

Despido os pecados

Jaz aqui

O traído e o traidor

Emergentes do mesmo ventre

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