Geração Pós-7x1

Talvez esse seja um dos piores legados deixados pelo 7x1: tomou as redes sociais uma crença de que o apocalíptico placar era fruto do comportamento dos jogadores. Nenhum bom boêmio declarado? Amizade com David Brasil, e não com Eri Johnson? Nosso tesão pelo maniqueísmo, para nos mantermos na ilusão de estar sempre do lado correto, nos fez acreditar que o desequilíbrio emocional de Thiago Silva fosse pior que os gritos de Edmundo na final de 98.

Voilá. As necessárias críticas estruturais à gestão do nosso futebol, à cultura elitista das novas arenas deram espaço, de maneira despretensiosa, a uma lógica de que o futebol brasileiro parou no tempo pois os jogadores não se comportam como outrora. Reitero que isso aconteceu de maneira orgânica e despretensiosa. O que começou como uma brincadeira, uma ode às cenas lamentáveis, um suspiro contra o “politicamente correto” (sic), fomentou uma legião de seguidores, em sua maioria adolescentes e novos adultos, que estão exatamente no período de construção de seus valores morais, senso crítico e posicionamento ideológico.

Milhares de jovens acreditando que a irresponsabilidade, a malandragem, e o famoso jeitinho, são os ingredientes para negar a geração 7x1. Adicione nesta mistura a problemática relação entre as propagandas de bebidas alcóolicas e o esporte. Não se esqueça da hipermasculinização em que estamos inseridos, na qual merece palmas aquele que mais bebe e transa com mais parceiras. Pronto, esta é a geração pós-7x1.

Neste último mês o maior canal de Esportes do mundo, a ESPN, adicionou à sua linha editorial o famoso “decreto”, momento em que se autoriza fazer o que qualquer cidadão “normal” deveria fazer no fim de semana: ficar bêbado e transar. Sim, um canal que teve seu início como resistência crítica a tudo que é imposto e seguido cegamente percebeu que existia uma demanda para este modelo de jornalismo humorístico e irresponsável. Sim, existe essa demanda. A cultura do álcool ganhou mais força e consumidores cada vez mais jovens.

Não me leve a mal ou me pinte de hipócrita. Eu já quebrei um dente bêbado, e tantas outras cagadas. A minha adolescência também foi dentro desta cultura do álcool em que estamos inseridos. O principal patrocinador da Associação Atlética da minha faculdade também era uma marca de cerveja e eu bati carteira em todas as festas open bar que eles ofereciam. As piadas passam, as consequências não.

Prefiro Adrianos a Ronaldos, sem dúvidas, mas em algum momento discutimos o abandono psicológico em que vivem nossos atletas, agora diariamente exaltados por sua boemia desvairada? Adriano foi vencido pelo alcoolismo e a depressão após a morte de seu pai, Garrincha morreu abandonado de cirrose aos 49 anos, Edmundo estava embriagado quando matou 3 pessoas ao volante.

A geração pós-7x1 voltou a abraçar essa cultura como se fosse levá-la diretamente a 2002, ao corta-luz de Rivaldo, à finalização precisa do Fenômeno. Não. Se não trouxermos isso ao debate, esse cenário tende a se perpetuar. As propagandas de bebidas alcóolicas são cada vez mais constantes nos eventos esportivos, o esporte universitário é retroalimentado por álcool e a ESPN reverbera esta cultura às sextas-feiras.

Não quero a proibição do consumo de álcool, assim como não quero a proibição do consumo de qualquer outra droga. No entanto, me insurjo contra a glamorização do consumo de álcool, contra a irresponsabilidade de propaganda desta cultura e sua associação com o esporte, sem qualquer tipo de regulamentação. A esperança de que a geração pós-7x1 seria marcada por um senso crítico vivo e questionador diminui cada vez mais.