A carteirinha de nerd não me serve mais

Olá,

Me chamo Gabriel Caetano; Tenho 28 anos, sou publicitário, cronista de cinema e há oito anos deixei de ser nerd. Sou jovem e muito do que vou escrever a seguir pode parecer distante, mas a verdade é que os anos 90 e a primeira década de 2000 foram logo ali. Escrevo porque poucas coisas me deixam mais chateado que a injustiça. Injustiça de não poder ser quem você é, muitas vezes, não poder nem tentar ser a pessoa que você deseja, seja por falta de incentivo ou porque um outro sem o mínimo de empatia não liga para isso e fará de tudo para lhe deixar no chão. Falarei de machismo nerd. Pode ser que no fim das contas saia tudo meio Dado Dolabella (mais feminista que eu?), mas não tem importância. A maioria das pessoas com quem convivo são mulheres — em minha casa são duas. Algumas delas foram fundamentais para minha educação, gente que admiro e por quem tenho um carinho imenso. Quero que sejam felizes, e sobre qualquer coisa, que façam aquilo que tiverem vontade. Sempre. Nas redes sociais é costumeiro ver garotas serem agredidas ou violentadas simplesmente por… serem garotas. E por se interessarem por vídeo games, quadrinhos, cinema, música ou qualquer outra célula do universo nerd. Agressão e violência são ações mais abrangentes que as pessoas imaginam e sim, podem ocorrer virtualmente. O texto é extenso e peço um pouco de paciência, minha história é chata, mas prometo que tudo fará sentido.

Então…

Descobri que era nerd ainda criança, por volta de quando tinha 7 anos. Na verdade um pouco mais tarde, mas já sabia que não era como os colegas que dividiam comigo a classe escolar (então… Era bem parecido com alguns sim, mas éramos, cada nerd à sua maneira, discrepantíssimos do resto da turma). Eram aqueles velhos interesses: vídeo games, histórias em quadrinhos, várias horas gastas na frente da TV entre desenhos animados, filmes, séries e novelas.

(Clichê) Na minha época não era fácil ser nerd, não estou falando de qualquer birra com a popularização da cultura ou nenhum outro modismo (/Clichê) — (Classe média sofre) menino do interior, numa época que internet e TV por assinatura eram artigos de luxo das crianças ricas, tinha meus melhores minutos da semana quando todo fim de semana o meu pai me dava, após muito custo e choro, exatos cinco reais para gastar na banca de revistas com algo relacionado a Nintendo e/ou animações japonesas: as revistas Herói e Ultra Jovem eram minhas favoritas. Lia repetidas vezes até chegar o próximo sábado. Era todo dinheiro que via, sempre gastava assim. Quando cresci um pouco, troquei a Nintendo e os animes pelo Heavy Metal, Magic the Gathering e outras manias tipicamente adolescentes. Enfim, o que quero dizer é: enquanto outros rapazes da minha idade se divertiam beijando várias bocas, só pensava em solos de guitarra e joguinhos (/Classe média sofre).

Éramos um grupo de poucos, mas nos conhecíamos todos. Trocávamos revistas, CDs, cartas colecionáveis e à medida que o tempo passava, a cidade crescia e o Brasil alavancava economicamente. Nosso acesso ao mundo lá fora que era quase nulo, agora era considerável. Também tínhamos idade para viajar de ônibus e organizar excursões para passear nas cidades vizinhas e até na capital por conta própria. Mesmo assim, havia preconceito por toda parte, família, escola, etecetera. Se fosse pego comentando Guerra nas Estrelas, Senhor dos Anéis ou Arquivo X (desde sempre minha favorita) em qualquer canto, era julgado como se fosse transmitir lepra. Nisso, o mundo hoje é muito melhor — celebremos. Mas o resto era todo igual ao que temos por aí: culto à ficção-científica, à fantasia, tecnologia e assim em diante…

Quando Nelson Rodrigues disse “Jovens, envelheçam!”, não poderia ser mais preciso. Comportamento adolescente é algo malíssimo. Tudo que você deseja é participar, pertencer a algum grupo. Não pode ser qualquer turma, precisa ser razoavelmente popular e para isso, pode ser que gente disposta a uma boa e duradoura amizade se decepcione ou se machuque. Desse período vem as maiores frustrações da minha vida, sei que pisei na bola com muita gente legal, para alguns não sei se um pedido de desculpas ameniza o que fiz, mas saibam todos: lembro de cada vacilo e me arrependo de todos eles. Se por um lado, apanhava de um ou outro bully, descontava a frustração em outras pessoas.

Cresci um pouco mais e quando chegou a hora de começar uma vida social interiorana — o que queria mesmo era não ter que ligar para isso, meus amigos insistiram. Tinha que acompanhá-los e fazer o que todos faziam. Frequentar festas, beber cerveja… Se poderia renunciar? Claro que poderia. Mas lembra do que disse antes sobre pertencimento? Também queria estar junto deles e dou muito valor para a amizade, até hoje é assim. Seguindo história, nunca tive o menor jeito com flerte ou traquejo social para xavecar uma menina, mas tinha algumas amigas. Era questão de tempo até que todos estivessem namorando, e logo todos estavam mesmo. Comecei a me pressionar para arranjar uma garota para mim também. Detalhe: no fundo do coração não queria namorada coisa nenhuma, só aproveitar a idade que tinha. Acabei desperdiçando ela assim. Se eu era um cara legal, por que não conseguia me relacionar com ninguém? Deveria ser simples como dois mais dois são quatro. Infelizmente a vida não trabalha assim e perdendo a razão também comecei a ver as meninas que antes eram minhas amigas como o oposto do espectro. Namoricos da juventude não duram mais que um verão, tá, é verdade que alguns resistem, mas a maioria não suporta o frio e rigidez do inverno, as feridas que causamos nas pessoas podem durar uma vida.

Mais uma vez: se você está lendo isso e te fiz algo que tenha lhe magoado, peço desculpas. Fui eu mesmo. Assumo essa responsabilidade.

Fiquei irracionalmente cego por algum tempo, cerca de um ano e foi um período nefasto onde TODOS meus amigos eram virtuais. Ainda hoje acho super saudável e divertido conhecer gente nova pela internet, mas naquela época só conseguia me relacionar assim. Se as mulheres não tinham o mínimo interesse por mim é porque elas me odiavam, esse tipo de pensamento tóxico consome a cabeça de muita gente trancada em quartos abafados que vivem virando madrugadas abastecidas por League of Legends (Ultima Online em meu tempo), Doritos e Coca-Cola. Isso durou até 2008, meu primeiro ano de faculdade, então quem me conheceu nessa época vai se lembrar mais ou menos como foi.

Para mim, como sujeito em constante formação é incompreensível que nerds sejam tão machistas e reproduzam tanto machismo. Quando um nerd apanha na escola, é consequência de machismo, quando um nerd escolhe passar uma noite jogando RPG com os amigos ao invés de ir para a balada sertaneja e é motivo de chachota por isso, também é consequência do machismo. Na sociedade patriarcal, homens oprimem mulheres e homens oprimem outros homens porque não seguem o padrão masculino tão conhecido: do macho forte, destemido, que nunca chora e não cogita e nem admite, em hipótese alguma… o fracasso. Tenho para mim, que o medo do fracasso e a rejeição sejam a raiz de todo esse mal. Como o homem nerd não sabe lidar com isso, passa adiante a frustração ofendendo o sexo oposto. Leia a última frase de novo e repare bem se não é o comportamento mais característico da quinta série possível. Não é?

Em primeiro lugar: como criança ou adolescente não precisamos agradar ninguém. Me faltou orientação. Me faltou compreensão. Depois, nada, em nenhum momento da vida justifica maltratar outra pessoa. Se hoje ser nerd parece cool, isso não lhe garante o direito de ofender ninguém. Você não é especial porque conhece todas as raças e povos de Jornada nas Estrelas, você não é especial porque conhece aquela banda da Dinamarca que ninguém mais ouviu falar, você não é especial por causa de uma ou outra nota na escola, você não é especial porque ao contrário do que os youtubers e podcasters do nicho prometem você não será o próximo Bill Gates só porque manja de programação.

Foi quando me bateu o estalo.

Não era mais nerd, aquilo já não me atraia mais. Conheci gente que sofre todos os dias lutando contra esse mal e gente que é agredida por ele, mas se cala porque não tem forças para combatê-lo. Sofri muito por reprimir minhas vontades, também não quero que outras pessoas abram mão das dores e delícias de ostentar uma personalidade, de fazerem o que tiverem vontade e sobretudo: que saibam que rótulos não importam e que maneiro mesmo é ser você mesmo independente do que os outros pensem. Estereótipos limitam e podemos sempre sermos pessoas melhores, fazer o bem e sermos reconhecidos por isso. Entendam “fazer o bem” como simplesmente, fazer algo que você gosta, sem compromisso com o que vão pensar. Quando você abre mão desse tipo de paixão, é quando começa a morrer por dentro. Se uma garota demonstrou ter o mesmo interesse que você, não julgue, só compartilhe. O mundo não é uma competição, e somar é sempre melhor que subtrair.

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