V de Vingança — Sobre revolução, justiça e anarquia

Gabriel Caetano
Nov 5 · 5 min read

Hoje é dia de festa na Inglaterra e também nos outros países que um dia já fizeram parte do império britânico. Toda noite de cinco novembro, pessoas se reúnem em parques para assistirem a um show de fogos de artifício e queimarem bonecos de palha em representação de Guy Fawkes numa fogueira. Comemora-se o fracasso de uma conspiração e o triunfo do coroa. Uma malhação piromaníaca de Judas à inglesa.

Mas quem é Guy Fawkes? Pode ser que você não se lembre do nome, mas sua face com certeza é familiar.

“São 21h e esta é a Voz do Destino, transmitindo em ondas médias de 275 e 285 Mhz. Cinco de Novembro de 1997…”

Num dia como hoje em 1605, o soldado católico Guy Fawkes junto de doze companheiros munidos de oitocentos quilos de Pólvora tentou explodir o parlamento inglês e matar o rei protestante Jaime I, sua família e todos os parlamentares. Não deu certo. O grupo foi pego, preso e torturado durante quatro dias até serem mortos na forca. O evento passou a ser chamado de a Conspiração da Pólvora, e seu principal momento, a descoberta, foi pintada pelo inglês Henry Perronet Briggs.

A partir de então, a data foi instituída na Inglaterra como como uma festividade que celebra a sobrevivência do rei e condena a traição. A traição contra o estado. É claro que os conspiradores não se consideravam traidores, é só mais uma vez, a história sendo escrita pelos vencedores. Acontece.

A Inglaterra do início do século XVII era governada por um rei protestante que reprimia os direitos civis e políticos de todos os que não o fossem. Puritanos e católicos acabavam marginalizados e escarmentados. Guy, católico desde os 16 anos partiu para a rebelião contra o estado opressor. Deu no que deu e o resto é a história que conhecemos.

Hoje, é comum vermos a reprodução do rosto do traidor em máscaras e camisetas em função de confronto contra a ordem e o estado. Sobretudo o estado. Mas se a representação de Guy Fawkes é malhada todos os anos em praça pública… Como chegou o momento em seu ato é celebrado?

O responsável por fazer dessa figura a metonímia popular da anarquia é Alan Moore. Inglês de Northhampton, uma cidade industrial situada entre Londes e Birmingham no interior da Inglaterra… Moore sempre se definiu como um anarquista, sua obra corrobora com isso. Trabalhava na Warrior quando, junto do ilustrador David Lloyd, começou a escrever V de Vingança.

O quadrinho é uma aterradora história sobre a perda da liberdade e cidadania em um mundo totalitário bem plausível. Mais que Farenheit 451, 1984 ou Admirável Mundo Novo (leiam os três)… Eram os anos 80 da Inglaterra de Margareth Thatcher e suas políticas de ultradireita, foi um período de descontentamento geral que estava literalmente massacrando as classes mais pobres de toda a Bretanha. Imagine só o efeito disso numa cidade industrial, com altíssimo desemprego e hiperinflação.

Foi uma década sem perspectiva no país. O que se temia naquele momento, era que o país caminhasse para um estado totalitário e repressor. Quer saber mais sobre a Inglaterra de Thatcher? Recomendo esse excelente artigo escrito pelo Tim Vickery (da BBC), jornalista inglês que até pouco tempo residia no Brasil.

“Vi veri veniversum vivus vici”: Pelo poder da verdade, eu, enquanto vivo, conquistei o universo.

Sem entrar em maiores detalhes do roteiro, foi assim que Alan Moore e David Lloyd imaginaram sua Inglaterra distópica: uma autocracia cheia de proibições e vigilância onde faltam dignidade e direitos básicos. Nessa Inglaterra posterior a um desastre nuclear, surge V, o protagonista que usando uma máscara do conspirador Guy Fawkes se rebela contra o estado e explode o parlamento britânico logo em suas primeiras páginas de história.

Apenas não se confundam, V e Guy Fawkes são personagens distintos.

V acredita que uma sociedade melhor só surgirá a partir do momento em que rompermos com tudo o que temos, vivemos e acreditamos para então criar algo novo. Em um dos muitos momentos icônicos da história, ele encara uma estátua de representação da justiça e como numa ópera, declara o amor que já sentiu por ela… até ser traído por suas falsas promessas. Essas promessas seriam a utopia que enxergamos num horizonte que nunca chega*.

Após a adaptação do gibi para o cinema, o personagem ganhou alguma popularidade e a máscara também. Num novo momento mundial, a história de V de Vingança passaria a captar novamente o espírito do tempo e conversar com a insatisfação das pessoas perante o alguns acontecimentos ao redor do mundo. Foi quando no começo desse década explodiu o Occupy Wall Street, um movimento que, resumidamente falando protestava contra a situação e as políticas econômicas dos Estados Unidos em reconstrução de sua crise imobiliária. Então, a mesma máscara passa a integrar aqueles protestos. Exatamente a mesma máscara criada por Moore e Lloyd.

Occupy Wall Street, em 2011

Eu, que vos escrevo, faço uma leitura de que hoje o momento é diferente daquele em que Alan Moore escreveu V de Vingança. E tudo o que passou, sob meu ponto de vista, prova que as instituições precisam ser fortalecidas. Mas não, de jeito nenhum, podemos nos eximir da responsabilidade pelo mundo que está sendo construído. Se temos os políticos que temos, é porque foram eleitos por nós e se eles fazem absurdos abusando do poder do estado, é porque permanecemos inertes, quando o povo é também é um poder.

No 5 de novembro, muitas pessoas celebram a captura de Guy Fawkes, outras, comigo incluso, celebram sua rebeldia e coragem… Mas também celebro Alan Moore. Que foi quem ressignificou essa história e botou muita gente pra pensar sobre política e sobre o mundo, assim como também celebro a esperança de que um mundo mais livre, fraterno e igualitário parte de atitudes, mesmo as pequenas e mesmo que você não seja anarquista ou revolucionário. Somos todos agentes transformadores e está na hora de catalisarmos isso para que a justiça cumpra suas promessas.

Edit: algumas semanas após publicado o texto, encontrei esse vídeo onde o autor, Alan Moore, descreve alguns insights do processo criativo para construir sua Inglaterra totalitária.

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*Citação ao autor uruguaio Eduardo Galeano.

Esse texto foi escrito ao som de Spinning Away, do Brian Eno e do John Cale (que não por acaso é uma das músicas favoritas do Alan Moore) em looping eterno.

Gabriel Caetano

Written by

30 anos. Comunicador no sentido lato. Publicidade, arte e cultura pop — com um pouquinho de política e América-MG.

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