A herança do meu quintal

Eu amo, dos meus cigarros, a fumaça

mas eles envenenam meus olhos

e me cegam com mentira e trapaça.

Fui amaldiçoado com uma herança

que é uma casa de família

no jardim tem um boeiro que se mantém lá — quem diria?

Não sei mais como lidar com o bueiro

já de mim se foi, toda esperança.

Como ignorar o que é iminente e derradeiro?

Maldito bueiro!

Não é de todo problema… o bueiro, o poema

mas sim a criatura que habita suas profundezas

ancorada na tampa de ferro

isolada pela segurança e incerteza.

Uma torrente de baratas

asquerosas baratas

vis baratas

que escalam o ralo da pia:

se eu não as matasse, certamente

uma delas me mataria.

É preciso alimentar o bueiro

abrindo sua boca de ferro quente

a cada quinze dias

com uma mistura perigosa e eficiente:

veneno.

Envenenar as baratas pra que confinem

e morram sufocadas

Isoladas como quem não pode decidir

para onde escapar, quando não há pra onde ir.

Essa semana foi o dia

de cumprir, eficiente, o ritual

e meu olhar de pausa e descanso não se aguentou frente a tão espetacular cena

de um drama minúsculo, infinitesimal.

Abrir a tampa, segurar a garra

o cheio que exala é forte e quase me sufoca, o vapor me maltrata

o cheiro que exala é forte

quase me esgota

[O peso da tampa ameaça minha mão vacilante

Revela o buraco escuro: destampada].

Que mal cheiro, que vil empreitada!

Necessidade maldita.

não consigo ver nada mais

que um exército e uma massa

de baratas e criaturas infinitas

elas me encaram quietas

esperando o dia que vou me juntar

pra quietude sombria do seu lar

Jogo o veneno e tampo!

Enquanto é tempo, enquanto não surte efeito o encanto, do abismo

Cantos de sereia, baratas, bichos de areia

volto a viver como mortal

Já entreguei meu sacrifício

a morte de micro máquinas asquerosas —

três dias depois algumas aparecem espalhadas pelo quintal

procuro pra ver suas chagas

Estão lá. Eu acredito, São Tomé

Tem que ver pra ter fé

Barata boa é barata morta!

A morte só é sorte e sossego se for vista

Volto a direção que estava

Pensando como seria

Não mais envenenar o bueiro

E deixar lá gerando e gerando

As baratas que vão se multiplicar e crescer e engordar

Até abrirem a tampa do céu

E fazerem chover veneno pro carrasco que vira réu.

Não tenho repulsa que já tive

Que será isso?

Falta de contato

Preciso me jogar no buraco

Mas só na imaginação

Uma possibilidade sem realização

Envenenar pra garantir

A manutenção

Dessa herança maldita

Que fura a pintura

Do meu quintal.

    fragmentos fraturados

    Written by

    exagerado, inexato e tolo.