estrela polar.

definição geográfica: Estrela Polar tem esse nome porque é a única que permanece sempre fixa no firmamento num ponto coincidente com a projeção do eixo da terra, na realidade a Estrela Polar faz parte de uma série de outras estrelas de magnitude moderada, que devido a precessão do equinócio, periodicamente intercalam de lugar nesse ponto e que, por apresentar-se sempre fixa no correr dos anos, é natural ser utilizada como referencial na orientação dos seres vivos sobre a superfície terrestre.” (sic.).

Para meus amigos, Julia, Soraya, Américo, Sarah, Matheus, Ruy, Jordana, Mariana e outros que não lembrarei o nome, mas recordo sempre o sentimento.

nadando na cama.

constantemente oscilo entre dois polos (como toda conjuntura filosófica e científica ocidental): o da extrema solidão, e o da abundância de companhias. 
agora, por exemplo, sento nessa cadeira, observo o café fumegar e escrevo sozinho. me deleito com essa sensação. mas, também recordo da tristeza que é, em algumas noites, voltar-me ao travesseiro, depois de abraços, risadas, cigarros, e estar só eu. só eu existindo. 
fraco e desprotegido. 
eu, os objetos, o mundo enorme, a vastidão do quarto. as estrelas sob o teto cinza. 
geralmente essa sensação me causa desconforto, pois sempre odiei a solidão. quando criança, ansiava por um irmão da mesma idade (meu irmão tem 13 anos a mais do que eu, enquanto eu brincava de casinha, ele já constituía relacionamentos sérios). queria brincar com amigos, estar com outras crianças — mas novamente, eramos apenas eu e o macaquinho, um ursinho de pelúcia que carinhosamente apelidei de macaquinho por ser um macaco (nunca tive, como podem perceber, grandes capacidades de atribuir significados profundos e complexos). 
no entanto, no mesmo cenário que visualizo essas memórias e me encontro no travesseiro, ou enquanto escrevo (afinal, tudo acontece ao mesmo tempo, sendo o tempo uma constante e nao uma linha reta) me sinto feliz pela ilusão da solidão. 
a solidão é uma ilusão da pele. da carne. o limite da carne é uma ilusão. 
os estados que tem limite. municípios. e gente lá tem limite? tem nada! gente não acaba. se derrama, é feito de matéria fluída. 
isso me conforta. talvez seja mais uma história que invento pra dormir. 
mas é algo a se levar a sério (afinal, nem os municípios tem fim, porque os territórios são nada menos que linhas imaginárias, como a linha da vida, e as linhas que compõe esse texto): o limite do outro é meu começo. 
partilho conexões e divido minhas palavras. elas não pertencem a mim, nem minhas ideias, nem minha literatura, nem mesmo essas porcas e pobres metáforas que insisto em dar vida. 
a vida só é vivida quando se preenche de relações os vazios das linhas. as linhas são linhas de relações. 
estamos sempre tecendo. tecendo. tecendo. como uma aranha, as relações, as teias, os conjuntos, são nosso construto mas também nos constroem. mas, ao contrário desse espécime araquinídeo, nem sempre tentamos capturar uma mosca pro jantar (ou tentamos). as teias são muitas. 
eu existo em tantas pessoas quanto posso dar conta, e a ilusão da pele, o sofrimento angustiante de me achar sozinho, só reforça isso. afinal, são polos, certo? 
e os polos servem a esse fim. não pra me esqueçamos deles. ou os reneguemos. mas pra lembrar. lembrar que a solidão é apenas um momento de apreciar a ausência dos outros, e que, mesmo pensando sobre estar sozinho, ainda sinto-me atravessado por outros. a conexão é mais que a empatia. a conexão é extensão de habilidades, no literal sentido da palavra. não vivo no outro porque posso, ou porque escolho, mas vivo no outro porque preciso. por que meus olhos, cobertos de egoísmo e vaidade, nem sempre podem ver a paisagem.

paisagem…

as estrelas sob o teto de concreto, distantes umas das outras, dizem nada menos que isso. sempre juntas. sempre distantes.às vezes mortas, brilhando com força de anos-luz pra chegar à terra e nos lembrar que o importante não é ser a maior e a melhor estrela, mas estar na hora e no tempo certos, sozinho ou numa constelação pra enfeitar o céu da noite. 
as relações são minha constelação. elas me recordam o caminho de volta, quando, em alto mar, já me perdi entre profundas águas. 
e eu nado, nado de volta, seguindo seu brilho incessante. mesmo que distantes, elas me guiam, e a água nunca esteve tão amena.