sobreposições

fui descoberto e trucidado 
pelo calor imanente 
por todas as ruas da cidade 
pequenas zonas degradantes 
casas tortas 
tijolos assimétricos 
asfalto cheio de gente

comentaram quando cheguei 
de um cadáver no beco da antiga lojinha 
é nostálgico conviver 
tão cotidianamente 
com anúncios de morte 
a morte aqui vive sucinta, com m minúsculo 
de tão banal 
a morte é uma coisa carnal

ter sentimentos da infância 
não é saudade ou mesmo saudosismo 
é estar mesmo, na infância
ora, pois, não estamos a sobrepor lugares? 
tudo é um mas não uno 
e todos os lugares se sobrepõe 
afinal, o que foi ainda é
e o que é não necessariamente foi

o canteiro que havia ali 
agora cimentado 
ainda existe 
como se piscando da forma certa 
eu observasse uma brecha 
de uma realidade paralela 
múltiplos futuros múltiplos futuros 
o passado essas palavras toscas do tempo
não podem determinar 
o inverso do relativismo nilista: 
só há tempo 
o tempo é a matéria da sobreposição
da grande colagem universal

estou colado sob minha figura infante 
que vasculha o jardim curioso
com ares de cientista 
ao se deparar com uma espécie de semente, de coisa-viva 
da qual não se sabe bem o que é 
cutuco pra lá e pra cá
com as mãos, imediado 
mas nada parece me dar bola 
sempre fui curioso 
vasculhando os interstícios da vida 
viciado, viciado, viciado nas idéias 
elas são o que vale a pena

agora vamos almoçar 
mas já se sobrepõe a noite 
e eu sei que fará calor como faz 
que fará uma pequena felicidade formigante 
dos bichos que andam sob a pele 
em momentos distintos 
sem motivo específico
como coceiras 
a curiosidade é uma coceira 
uma urticária 
e as ideias são espasmos elétricos que criam 
o atrito entre a pele 
poros

da escada ainda vejo minha vó
vestindo cobertores de costura barata 
na cadeira de balanço
rezando mil terços
na esperança de saber o dia de sua morte 
quem me dera um dia ter a sorte 
de saber o dia da minha vida 
como não sei, 
bem, 
não me contenho 
vivo como se o dia da minha vida fosse hoje.