Suicídio e a Igreja:

Introdução a Prevenção

[TW] SUICÍDIO, AUTO-MUTILAÇÃO, DEPRESSÃO.

Versão reduzida: http://bibotalk.com/blog/como-a-igreja-pode-previnir-o-suicidio/

Nossos jovens estão morrendo, aqueles que nasceram na época que a Igreja mais precisa de verdadeiros cristãos. A Igreja está ruindo de dentro para fora e a doença que nos ataca está sendo menosprezada. Uma pergunta nos é posta: como transformaremos o mundo se nossos jovens estão tirando suas vidas?

Introdução

Existe no meio cristão alguns assuntos que são velados, dados por resolvidos. Problemas emocionais e de cunho psicológico se enquadram neste grupo. Por vezes cristãos com problemas emocionais são tidos como menos espirituais que pessoas sãs, isso cria um ambiente hostil ao tratamento desse tipo de perturbação. Meu primeiro objetivo aqui é vencer essa barreira, pois devemos entender que cristãos apesar de terem em Cristo a verdadeira paz, não estão livres de mazelas e sofrimentos.

Para vencermos um problema é necessário que o identifiquemos e o enfrentemos, contudo, não é essa atitude que a igreja tem tomado. Vemos por vezes cristãos que procuram ajuda em suas comunidades locais não encontrando nenhum apoio efetivo, em alguns casos são até mesmo discriminados.

Nesse estudo, trarei um enfoque especial ao comportamento suicida, que dentre os transtornos de caráter psicológicos, acredito ser o mais grave e que tem sido por muitas vezes negligenciado, hora por preconceito, hora por descuido.

Trarei nesse texto um breve estudo bíblico sobre o suicídio, mostrando que o fato de um cristão chegar a tão triste fim não significa que ele não seja um eleito ou que tenha de alguma forma perdido sua salvação.

O suicídio no meio cristão é real e precisa urgentemente de ser debatido e enfrentado.

Quando o tema suicídio é colocado em pauta é comum que apenas o ato de auto-extermínio seja abordado, porém, o comportamento suicida engloba mais fatores que apenas a auto-execução. Gostaria de apresentar tudo aquilo que engloba o comportamento suicida para que a prevenção seja direcionada não apenas a um de seus aspectos, mas a todos.

Falarei também sobre alguns tabus sociais envolvendo o tema, como o fato da morte auto-infligida ser ou não considerada um crime.

Teremos também uma breve explicação sobre a influência da mídia e de filmes nas taxas de suicídio, relacionado a alguns eventos históricos, estudos e casos mais recentes sobre divulgação inapropriada do tema.

Por fim gostaria também de tratar brevemente sobre grupos de risco, comportamentos que devem chamar nossa atenção e o que devemos fazer se nos depararmos com alguém que apresente qualquer comportamento suicida.

Meu maior objetivo com esse trabalho é chamar a atenção da comunidade cristã sobre a existência do suicídio no meio evangélico e na importância do reconhecimento e enfrentamento dessa questão.

Comportamento suicida: definição

Comportamento suicida pode ser descrito em quatro aspectos distintos. Primeiramente temos a ideação. O indivíduo que possui esse comportamento arquiteta formas de tirar sua própria vida, sem necessariamente colocar em prática seus planos. Temos também a tentativa de suicídio, que é quando a pessoa intenta contra sua própria vida, mesmo que isso não leve ao óbito [4]. Existe uma preocupação entre os especialistas de conseguir distinguir esses dois grupos de maneira clara [5], pois, idealizadores e executores precisam de tratamentos específicos, mesmo que em aspectos gerais as pessoas que tentam tirar a sua vida planejam isso previamente.

“Desta maneira, a maior dificuldade, sem dúvida, é predizer quais sujeitos, potencialmente suicidas, vão transformar suas fantasias e/ou ideações em atos concretos.” [28]

Outro comportamento definido como suicida é o suicídio propriamente dito que é quanto a pessoa tem êxito em terminar com sua vida. Para que se classifique um óbito como suicídio é necessário que a intencionalidade de tirar a própria vida seja atestada de algum modo, logo, mortes auto-causadas acidentais não são classificadas como auto-extermínio.

Por fim temos aquilo que é chamado pela literatura de parassuicídio, que é um comportamento que não tem o objetivo de dar cabo à própria vida, contudo a coloca em risco intencionalmente.

Sobre o parassuicídio discutirei apenas o que é chamado por non-suicidal self-injury (NSSI), em tradução livre: feridas auto-causadas sem intenção suicida. No Brasil esse comportamento é comumente chamado de automutilação, contudo, é importante lembrar que essa prática abrange mais do que apenas se cortar, mesmo que esse seja o tipo mais comum de automutilação entre mulheres. Embora esse comportamento não tenha o objetivo de auto-extermínio ele é considerado suicida, pois é uma forma de atentar contra a própria vida, ainda que isso não seja uma vontade latente do praticante. Vale se atentar que vontade latente e intencionalidade são conceitos diferentes, assim caso uma pessoa venha a morrer durante a prática de automutilação esse óbito será classificado como suicídio.

Cada tipo de comportamento suicida merece atenção especial e, de forma alguma deve ser deixado de lado por ser um menos letal que outro. A importância da distinção tem como objetivo o direcionamento do tratamento, não a negligência de um frente a comportamentos mais letais.

Epidemiologia

De acordo com a Organização Mundial da Saúde a cada 40 segundos uma pessoa tira a sua vida, cerca de 1 milhão de pessoas tiram a suas vidas todos os anos e o número de suicídios aumentou 60% nos últimos 45 anos [22]. Estima-se que o número de tentativas seja pelo menos 10 vezes maior que o número de suicídios consumados [22], [20].

Em aspectos gerais mulheres tentam tirar sua vida mais que homens, mas o número de homens que efetivamente terminaram com suas vidas chega a ser até três vezes maior [19], isso se dá ao fato de que os métodos escolhidos por homens tendem a ser mais letais do que os meios comumente escolhidos por mulheres [25], [18].

Depressão é um fator que deve ser observado, o número de pessoas com esse quadro que terminam com suas vidas é consideravelmente alto e essas pessoas representam a maior parcela de suicidas [26]. Depressivos merecem atenção especial quanto a esse assunto, mas existem também outros preditores de uma tentativa futura de suicídio como uma tentativa de suicídio não fatal, outras patologias psíquicas como ansiedade, bipolaridade, esquizofrenia ou transtorno de borderline, o abuso de álcool e em especial diversos desses fatores em conjunto [25].

É importante frisar que indivíduos mentalmente saudáveis também cometem suicídio. Fatores externos, como pressão social ou não aceitação de traços de personalidade também são relacionados ao desencadeamento de comportamentos suicidas. Temos nesses grupos homens na transição da juventude para a vida adulta que perdem sua referência de masculinidade ou falharam em algo que criam ser fundamental em suas vidas [6].

O número de suicídios entre a população homossexual também é proporcionalmente maior que entre heterossexuais [7], especialmente quando tratamos de jovens homossexuais que frequentam a igreja [21].

Religiosidade, de um modo geral, pode ser considerado um fator de proteção, porém estudos mais recentes mostram dois problemas que devem chamar a atenção da igreja protestante. O primeiro é que existe uma forte relação entre suicídio de jovens homossexuais e a religiosidade do indivíduo e de seus pais [21]. Outro fator é que o protestantismo não tem servido como fator de proteção nem mesmo em aspectos gerais, estudos mostram que o número de pessoas que tentam suicídio e se declaram evangélicos é proporcionalmente igual ao número de suicídios no grupo que declara não seguir nenhuma religião [27].

Em 2016 foram registrados cerca de 11 mil suicídios no Brasil [24]. A faixa etária com o maior número absoluto é a de 30 a 39 anos [24], contudo quando o número de suicídios é relacionado ao número total de óbitos encontramos uma proporção maior entre jovens de 20 a 29 anos [24], onde 4% das mortes foram registradas como sendo auto-causadas e intencionais. O auto-extermínio é a terceira maior causa de mortes não naturais no país entre os jovens, ficando atrás apenas dos acidentes automobilísticos e violência [22]. A região sudeste foi a que registrou maior número de casos, com 4 mil notificações [24].

Os números apresentados aqui são os dados oficiais encontrados no DATASUS [24], mas o número elevado de subnotificações e sub-registros faz com que esses dados não sejam um reflexo fiel da realidade. Estima-se que o número de suicídios possa ser até quatro vezes maior que os dados oficiais [25]. Isso pode ser explicado pela dificuldade de se determinar a causa de morte como suicídio, do tabu existente sobre o assunto ou até mesmo pelo grande número de óbitos que não são informados no Brasil. É comum também os casos de suicídio que são registrados como óbito por afogamento, acidente automobilístico, disparo por arma de fogo, ingestão de produtos nocivos ou ainda como causa indeterminada [28], o que faz com que esses casos não entrem em estudos estatísticos sobre o tema [25].

Quando pensamos em feridas auto-causadas sem intenção suicida (NSSI) os números se tornam ainda mais assustadores, estudos recentes mostram que cerca de 38% dos jovens adultos praticam ou já praticaram automutilação [10]. Engana-se quem acha que esse tipo de prática é comum apenas entre mulheres, na verdade não existe uma diferença significativa entre a ocorrência desse comportamento entre homens e mulheres, o que muda significativamente entre os sexos é apenas idade média de início e o tipo de ferida que é infligida [10].

Aspectos legais: suicídio é um crime?

Quando pensamos nos aspectos legais sobre o suicídio, a melhor forma de examinarmos esse evento social é fazendo uma breve progressão histórica. Podemos notar na Europa uma forte influência do catolicismo no pensamento popular, sendo assim, o suicídio era uma atitude vista como execrável e reprovável. Os suicidas não tinham direito a velório e seus corpos eram por vezes enterrados de noite ao lado das encruzilhadas. Na França, o corpo de quem tirava a sua própria vida era arrastado pelas ruas e depois pendurado em forcas. Além disso, a lei francesa do século XVII exigia que se jogasse o corpo do suicida no esgoto ou na lixeira da cidade [2].

Não era apenas a cultura europeia que possuía repulsa a suicidas, entre os judeus era proibido que se professasse orações fúnebres para qualquer pessoa que cometesse suicídio e o corpo era enterrado em uma área isolada do cemitério. Na lei islâmica o suicídio é considerado um crime pior que o homicídio [2].

A mudança da forma de ver e se entender o suicídio é extremamente recente, até 1963 o suicídio era considerado crime na Inglaterra e no País de Gales, na Irlanda esse entendimento se manteve até 1993 [2].

No Brasil, o suicídio nunca foi criminalizado, em 1830 o Código Criminal do Império do Brasil condenava o auxílio ao suicídio, com pena de prisão de dois a seis anos [2].

Na legislação penal brasileira vigente, de 1940, o suicídio ou a tentativa seguem não sendo considerados crimes, contudo, o induzimento ao suicídio pode conduzir à pena de reclusão de dois a seis anos se o suicídio se consuma ou reclusão de um a três anos se a tentativa de suicídio resultar em lesão corporal grave [2].

Devemos nos atentar para o fato que caso a pessoa cause danos a propriedade de terceiros ou a outras pessoas, ou ainda, ameaçar continuamente tirar a própria vida causando desordem, todos esses são crimes e passíveis de punição.

O Estado brasileiro entende que alguém que intenta contra sua própria vida precisa de tratamento clínico, não punição.

Efeito Werther

Uma dos primeiros registros de suicídios em massa relacionados com a mídia foi em 1774 o escritor alemão Johan Wolfgang von Goethe publicou o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, onde o personagem principal, Werther, se mata depois de um amor não correspondido. Após a publicação dessa obra ocorreu uma onda de suicídios pela Europa. Não existem estudos conclusivos quanto a esse evento histórico especificamente, contudo estudos mostram que a divulgação de suicídios aumenta o número de ocorrências em meses posteriores [11]. A esse fenômeno de imitação suicida se foi dado o nome de Efeito Werther, em referência ao evento do século 18.

Em 1974, foi feita uma pesquisa sobre o efeito da divulgação de casos de suicídio de pessoas famosas e o aumento de taxas logo após. O objetivo desse estudo era atestar que o aumento de suicídios era consequência direta da publicação. O estudo concluiu que pessoas são suscetíveis a influência desse tipo de publicação, inclusive quando não encontram sentido na vida, essas pessoas vêem no suicídio uma solução, ainda mais depois que alguém com relevância midiática tirou sua vida [11].

Em 2000 a Organização Mundial da Saúde publicou um manual direcionado a profissionais da mídia com o objetivo de instruir jornalistas sobre a publicação de casos de tentativa e suicídio completo [9]. O objetivo deste manual era instruir os profissionais a quando e como publicar esse tipo de notícia, com o objetivo de diminuir a ocorrência de casos de imitação em massa.

Existe ainda uma discussão sobre o impacto que a ficção tem em eventos imitativos desse tipo. Estudos têm apontado que um dos fatores importantes para que esse tipo de efeito aconteça é a identificação do observador com o modelo. Quanto maior o número de características coincidentes maior a chance de uma ação por imitação [1].

No começo de 2017, foi lançada pela Netflix a série ficcional 13 Reasons Why, que trata sobre o suicídio de uma jovem, Hannah Baker, de 17 anos. A série se passa após a sua morte, mostrando como a cidade onde ela morava reagiu a isso. Apesar de ter trazido a temática ao debate público, a série desrespeita diversas recomendações da Organização Mundial da Saúde, dentre elas: dramatizar explicitamente a cena de suicídio apresentando inclusive o método utilizado, apresentar culpados para o incidente e coloca o suicídio como uma forma de resolver os problemas sociais da personagem [9].

Entre 31 de março de 2017 e 18 de abril de 2017 houve um acréscimo de pesquisas relacionadas a suicídio no Google de aproximadamente 1 milhão e 200 mil pesquisas. Dependendo do dia o número de pesquisas aumentou de 15% a 44%. Dentre as frases que aumentaram significativamente encontram-se “How to kill yourself (Como se matar)” e “How to commit suicide (Como cometer suicídio)”. A frase “How to slit your wrists (Como cortar seus pulsos)” teve um pico de popularidade entre 9 e 15 de abril, pouco tempo depois do lançamento da série [20].

Contudo, foram apresentados também números positivos após o lançamento da série. Estudos mostram que o número de e-mails recebidos pelo Centro de Valorização à Vida (CVV) aumentou 445% e o número médio de visitantes diários únicos ao site da instituição subiu 170% [8].

Ainda não existem estudos quantitativos que apontam um número consistente no aumento de casos de suicídio após o lançamento da série, contudo, estudos mostram que o impacto da mídia é real.

Uma reflexão bíblica

Fazer uma análise bíblica sobre suicídio é uma tarefa um tanto quanto custosa e subjetiva. Dentro da igreja existem opiniões diversas sobre o assunto, visto que a bíblia não traz nenhuma passagem conclusiva sobre o tema. Apresentarei aqui aquilo que julgo ser uma visão mais próxima possível da verdade bíblica.

Quando pensamos no suicídio em relação ao pensamento cristão, especialmente o reformado, nos deparamos com uma pergunta: “o cristão que tira sua própria vida vai para o céu?” A questão está completamente fundamentada na salvação do povo de Deus. Tudo depende então de como a salvação é alcançada e se o fato de tirar a própria vida nos faz de algum modo não sermos mais dignos da salvação que nos foi dada.

Paulo trata em sua carta aos efésios é da graça de Deus e como ela foi derramada sobre nós. Nesse texto o apóstolo ressalta por diversas vezes como a graça da salvação é unilateral, sendo apenas Deus o agente de restauração de nossas vidas, deixando a nós apenas o papel de alvos de tão grande graça. Paulo diz em sua carta aos efésios “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie.” [14], quando ele diz isso ele nos mostra como o homem não age nem mesmo em sua própria salvação. Poderia então um pecado como o suicídio fazer com que perdêssemos o direito de tamanha graça?

“Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: ‘Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro’. Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” [16]

Quando pensamos na salvação dos cristãos estamos falando sobre o mérito de Cristo, sobre o poder de Jesus de perdoar nossos pecados, tanto aqueles que nem mesmo tínhamos cometido quando ele morreu na cruz, em sua oração sacerdotal Cristo ora em favor de nós, seu povo que ainda não tinha nascido [15]. Ora, seria um pecado que leva o cristão a sua morte terrena algo imperdoável? De modo algum, não existe nada que pode nos separar do amor de Cristo, nem mesmo um pecado que nos leve a morte [3].

Contudo, não podemos nos esquecer que o suicídio é sim um pecado. Um assassinato, independente de contra quem seja vai de encontro ao sexto mandamento [15], como podemos explicar então um cristão que escolha terminar sua vida de modo tão trágico? Temos de pensar que um cristão não está livre de pecar, mesmo que esse pecado seja tão crítico como o suicídio.

“Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados.” [13]

O cristão tem certeza de sua salvação não por causa de seus méritos ou de sua capacidade de não pecar, mas na certeza de que Jesus intercede por nós.

Mesmo que encontremos na bíblia inúmeras passagens que atestam para o fato de que nenhum pecado pode nos separar de Deus ou que nenhum pecado pode fazer com que percamos aquilo que nos foi dado por graça, diversas igrejas evangélicas pregam abertamente a doutrina de que o suicídio é um pecado sem perdão, isso é extremamente perigoso.

Meu objetivo com esse breve estudo é dar alguma, mesmo que breve, base bíblica que nos mostre que um cristão pode, infelizmente, terminar com sua vida. Esconder esse fato não é protetivo, muito pelo contrário. Em igrejas onde o suicídio é visto como um pecado imperdoável, é comum que as pessoas não encontrem assistência para a superação de suas ideações, o que aumenta significativamente as chances de alguém praticar o autoextermínio.

O papel da igreja na prevenção

Quando pensamos em prevenção do suicídio, devemos ter em mente um trabalho conjunto entre comunidade e acompanhamento clínico especializado. Em alguns casos esse acompanhamento poderá se resumir a psicoterapia, em outros haverá também a necessidade de acompanhamento psiquiátrico. Mas qual o papel da igreja, como comunidade?

Falei brevemente sobre fatores de risco quando falava sobre epidemiologia. Existe no oposto do mesmo espectro o que chamamos de fatores de proteção que são atitudes ou características intrínsecas que diminuem de maneira passiva ou ativa a ocorrência de comportamentos suicidas.

Pensando em fatores de proteção, podemos, em uma primeira análise, pensar nos opostos dos fatores de risco, sendo assim, podemos definir, por exemplo, a heterossexualidade como um fator de proteção, ou ainda, o consumo moderado ou abstenção de álcool.

Mas existem também fatores de proteção ligados a capacidade social de uma pessoa. Quando pessoas com dificuldades de socialização entram em movimentos sociais, sejam políticos, religiosos ou de qualquer outra natureza, a probabilidade que essas pessoas tirem suas próprias vidas cai consideravelmente [11]. Por vezes o que afasta um idealista da tentativa é a exposição a rotas de fuga para seus problemas, o que muitas vezes acontece por meio de amigos ou parentes.

A capacidade de lidar com situações de crise e se reestruturar emocionalmente, aquilo que é chamado pela psicologia como resiliência é um importante fator de proteção [12]. Muitas vezes a impulsividade causada por momentos de crise levam idealizadores a concretizar suas fantasias suicidas, sendo pessoas que acabaram de passar por momentos traumáticos um grupo que merece atenção da comunidade. Podemos pensar como traumas: perda de entes próximos ou amigos; término de relacionamentos amorosos ou de amizades e eventos que violem a dignidade ou individualidade como coações verbais e/ou agressões morais e/ou físicas. Contudo, não devemos deixar de considerar que eventos traumáticos podem ser subjetivos, onde, determinados acontecimentos impactem de modo negativo certos indivíduos, enquanto outros não.

É comum o pensamento de que quem quer tirar a sua vida não dá sinais sobre isso, essa ideia não passa de uma mentira. Pessoas que planejam se suicidar apresentam diversos sinais. Fique atento a sinais como:

  • Ameaçar, falar ou brincar sobre suicídio;
  • Preocupações com a morte ou com morrer; desfazer-se de objetos pessoais, despedir-se de pessoas;
  • Mudança brusca de comportamento;
  • Descuido repentino com a higiene pessoal;
  • Distanciamento dos amigos e da família;
  • Sinais de depressão: choro constante, mudança nos hábitos alimentares e transtornos do sono; pouca disposição e baixa energia para atividades usuais; pouca capacidade de concentração;
  • Abuso de álcool e drogas;
  • Envolvimento em situações de risco, ilegais, fugas de casa, promiscuidade sexual, impulsividade, rebeldia e comportamentos destrutivos;
  • Perdas recentes e/ou sucessivas de pessoas queridas;
  • Tentativa de suicídio anterior;
  • Sentimentos excessivos de culpa, desamparo, desesperança e baixa auto-estima [23].

Estes são apenas alguns dos inúmeros sinais que sujeitos em situação de risco apresentam, devemos sempre estar atentos a qualquer um deles, principalmente quando aparecem em conjunto.

Como comunidade devemos entender que apenas médicos e psicólogos têm o conhecimento técnico necessário para acompanhar adequadamente uma pessoa em um quadro crítico como esse, o que não significa que não possamos fazer nada. Existem diversas ações que estão ao alcance da comunidade que auxiliam o trabalho dos profissionais da saúde, alguns exemplos são:

  • Ouvir! Encoraje a pessoa a falar sobre seus problemas e a expressar seus sentimentos;
  • Leve a sério seus problemas e sentimentos, não banalize o sofrimento dos outros;
  • Fale direta e abertamente sobre suicídio;
  • Se você está preocupado com a segurança de alguém, não a deixe sozinha;
  • Não tenha medo de acionar serviços de emergência para a preservação da vida de alguém;
  • Vá com a pessoa a um profissional que possa oferecer ajuda especializada, como psicólogo ou psiquiatra [23].

Devemos ter a capacidade de limitar conscientemente nosso raio de ação, comportamento suicida é um assunto sério, não devemos tentar fazer mais do que sabemos ou que podemos. O encaminhamento a profissionais capacitados é fundamental.

Conclusão

Quem intenta contra sua própria vida não tem por objetivo último se matar, mas acabar com sua dor ou com o sofrimento que ele imagina causar aos outros. O autoextermínio é um meio que pessoas em estados psicológicos extremos encontram de superar seus problemas.

Quando pensamos em prevenção do suicídio, não estamos dizendo em formas de fazer com que as pessoas não morram, tendo em mente que isso é humanamente impossível. Trabalhar para que uma pessoa não termine com a sua vida significa ajudá-la a dar um sentido a sua existência, sendo este um trabalho exaustivo e incessante. Pessoas em quadros de risco merecem nossa atenção constante.

Nós, como igreja de Cristo, devemos prezar pela vida de nossos irmãos que sofrem. Espero ter conseguido, mesmo que de forma breve, elucidar a questão do suicídio, pois meu objetivo é que o problema seja exposto e tratado. O esforço de expor essa temática é nulo se o esforço de enfrentamento não for igualmente consistente.


Link para download do texto: http://bit.ly/2zBDl5E

Referências

[1] ANA FILIPA ALMEIDA. “Efeito de Werther”. Em: Analise Psicológica 1 (2000), pp. 37-51.

[2] Emanuelle Silva Araujo; Pedro Paulo Gastalho Bicalho. “Suicdio: Crime, Pecado, Estatística, Punição”. Em: Revista de Psicologia da IMED 4.2 (2012), pp. 723-734.

[3] Marcelo Crispim. Suicídio: Uma Perspectiva Pastoral Reformada. 2016.

[4] Goodfellow B.; Kolves K. & Leo D. “Contemporary Nomenclatures of Suicidal Behaviors: A Systematic Literature Review”. Em: Suicide Life Threat Behav 48 (2018), pp. 353-366.

[5] Klonsky E. D. e May A. M. “Differentiating Suicide Attempters from Suicide Ideators: A Critical Frontier for Suicidology Research.” Em: Suicide Life Threat Behav 44 (2014), pp. 1-5.

[6] Mette Lyberg Rasmussen; Hanne Haavind; Gudrun Dieserud. “Young Men, Masculinities, and Suicide”. Em: Archives of Suicide Research 22.2 (2018), pp. 327-343.

[7] Kierstan Monahan; Caroline Silva & Thomas Joiner Jr. “Sexuality and Suicidality: The Role of Thwarted Belongingness”. Tese de dout. Florida State University, 2012.

[8] Claudio Bertolli Filho; Ana Carolina Pontalti Monari. “‘13 Reasons Why’: o debate sobre o suicido a tona na mídia brasileira”. Em: Revista Pauta Geral-Estudos em Jornalismo 1.5 (2018), 1-18.

[9] OMS. PREVENÇÃO DO SUICÍDIO: UM MANUAL PARA PROFISSIONAIS DA MÍDIA. 2010.

[10] Margaret S. Andover; Jennifer M. Primack; Brandon E. Gibb & Carolyn M. Pepper. “An Examination of Non-Suicidal Self-Injury in Men: Do Men Differ From Women in Basic NSSI Characteristics”. Em: Archives of Suicide Research 14.1 (2010), pp. 79-88.

[11] David P. Phillips. “The Infuence of Suggestion on Suicide: Substantive and Theoretical Implications of the Werther Effect”. Em: American Sociological Review 39.3 (1974), pp. 340-354.

[12] PRISCILA REGINA DAIUTO; RENATA HURTADO VENÍCIO. “PAPEL DA RESILIÊNCIA NA PREVENÇÃO DO SUICÍDIO”. Em: Revista UNINGÁ Review 29.2 (2017), pp. 104-109.

[13] BIBLIA SAGRADA. 1 João 2. url: http://bit.ly/2BIcyGh.

[14] BIBLIA SAGRADA. Efésios 2.8–9, NVI. url: http://bit.ly/2DRLHcp.

[15] BIBLIA SAGRADA. João 17, NVI. url: http://bit.ly/2E6sjJQ.

[16] BÍBLIA SAGRADA. Romanos 8.35–39, NVI. url: http://bit.ly/2Rn9g0z.

[17] BÍBLIA SAGRADA. Êxodo 20, NVI. url: http://bit.ly/2Qumb3D.

[18] Silvia Sara Canetto; Isaac Sakinofsky. “The Gender Paradox in Suicide”. Em: Suicide and Life-Threatening Behavior 28.1 (1998).

[19] Daiane Borges Machado; Darci Neves dos Santos. “Suicídio no Brasil, de 2000 a 2012". Em: J Bras Psiquiatr 64.1 (2015), pp. 45-54.

[20] Eva Rose Schaffer. “A Review of the Werther E ect and Depictions of Suicide: 13 Reasons Why”. Em: UC Merced Undergraduate Research Journal 10.2 (2018).

[21] A.; Jacobs C.; Diamond G. M. & Diamond G. S. Shearer A.; Russon J.; Herres J.; Wong. “Religion, Sexual Orientation, and Suicide Attempts Among a Sample of Suicidal Adolescents”. Em: Suicide Life Threat Behav 48 (2018), pp. 431-437.

[22] Neury José Botega; Blanca Susana Guevara Werlang; Carlos Filinto da Silva Cais; Monica Medeiros Kother Macedo. “Prevenção do comportamento suicida”. Em: PSICO 37.3 (2006), pp. 213-220.

[23] HUTZ Claudio Simon. “Avanços em psicologia comunitária e intervenções psicossociais”. Em: Pearson, 2010, pp. 223-264.

[24] SUS. Estatísticas Vitais — MORTALIDADE GERAL. 2016. url: http://bit.ly/2rcl5vh.

[25] Calixto Filho M; Zerbini T. “Epidemiologia do suicídio no Brasil entre os anos de 2000 e 2010". Em: Saúde, Ética & Justiça 21.2 (2016), pp. 45-51.

[26] Eduardo Chachamovich; Sabrina Stefanello; Neury Botega; Gustavo Turecki. “Quais são os recentes achados clínicos sobre a associação entre depressão e suicídio?” Em: Revista Brasileira de Psiquiatria 31.S1 (2009), S18-S25 (ver p. 5).

[27] Merike Sisask; Airi Varnik; Kairi K[otilde]lves; Jose M. Bertolote; Jafar Bolhari; Neury J. Botega; Alexandra Fleischmann; Lakshmi Vijayakumar & Danuta Wasserman. “Is Religiosity a Protective Factor Against Attempted Suicide: A Cross-Cultural Case-Control Study”. Em: Archives of Suicide Research 14.1 (2010), pp. 44-55.

[28] Blanca Susana Guevara Werlang. “Proposta de Entrevista Semi-estruturada para autopsia psicológica em casos de suicídio”. Tese de dout. UNICAMP, 2000.