• Da Gabi aos 7 para Gabi de agora! Não se cale!

    Começou na pré-escola, eu devia ter entre 7 e 8 anos, quando eu entrei numa escolinha nova e um menino, colega de classe, se sentiu no “direito” de me pentelhar. Eu me lembro direitinho de tudo que ele fazia, me chamava de magrela, puxava meu cabelo, me empurrava, fazia piadinha, tudo que me irritasse. Até que um dia eu fui de trança para escola e ele teve a brilhante ideia de puxar o meu cabelo. Eu lembro que doeu tanto, a trança enroscou na blusa dele e conforme ele andava meu cabelo continuava puxando. Fiquei tão irritada, mas tão irritada que a minha reação foi empurrá-lo e mesmo assim ele continuou. Foi nessa hora que eu dei um chute nele! Bem ali onde dói mais. Como ele reagiu? Foi chorando para professora dizendo que eu havia batido nele. Bom, a professora me chamou para conversar e eu expliquei toda a situação, inclusive já havia reclamado várias vezes anteriormente, mas nada era feito. O ponto que eu queria chegar é que tudo que eu ouvia da professora é que “Meninos são assim mesmo, fazem coisas de menino, logo ele cresce e para com isso”. Depois do chute ele realmente parou de me atormentar, mas não demorou muito para que ele encontrasse uma nova garota, como se ela estivesse sedenta para que ele a irritasse, empurrasse, puxasse seu cabelo. Enfim, já parou para pensar que se ao invés da professora simplesmente não tivesse feito nada, como realmente não fez, parasse e conversasse com ele sobre a importância de se respeitar as meninas? Que quando a brincadeira não é legal, é porque não é legal mesmo, não é simplesmente manhã, charme ou frescura. Que louco seria, não é mesmo? Quem sabe esse menino teria aprendido a lição. Quem sabe evitaria que acontecesse o mesmo com outra garota. Quem sabe evitaria ações futuras. Não sei que tipo de homem ele se tornou, mas espero que tenha sido simplesmente uma “fase de menino” e que hoje seja um adulto muito melhor comparado quando criança.
    Outro episódio aconteceu quando eu tinha 11 anos. Nessa época eu voltava todos os dias do colégio com o meu irmão, mas nesse dia eu tive que voltar sozinha. Após a aula tinha que atravessar uma passarela, bem movimenta até, mas lembro que caminhava sem ninguém a uns bons metros de mim. Um homem caminhava no sentido oposto e percebi que me encarava muito, aquele olhar que deixa qualquer um desconcertado e com medo. Quando ele cruzou comigo sussurrou uma palavra, apenas uma palavra, que eu nunca tinha ouvido. De um jeito totalmente diferente.
    Quando eu tinha 19 anos resolvi viajar sozinha para Minas Gerais, isso nunca foi um tabu para mim. Nunca deixei de ir a nenhum lugar ou fazer alguma coisa apenas por estar sozinha. Foi nessa ocasião que o homem que sentava na poltrona ao lado do avião começou a escorregar sua mão sobre a minha perna. Ele me desconsertou de uma tal maneira que eu não tive reação. Apenas levantei assustada e troquei de lugar. Sorte que o voo não estava lotado. A aeromoça ainda perguntou se havia acontecido alguma coisa, eu disse que não. Mas hoje eu teria falado, gritado, exposto e denunciado. Na hora tudo que me passou pela cabeça foi aquela garotinha de 7, 11 anos que também não tinha reação.
    Conforme uma menina cresce ela tem que aprender a conviver com diferentes formas de assédio. Na rua, na escola, no trabalho, na balada, na faculdade, na padaria comprando o pão. Resolvi escrever esse texto porque os dados de assédio sexual contra as mulheres no carnaval nesse ano subiram 88% referente ao mesmo período no ano passado. Os dados são do disque denúncia. Inclusive eu, passei por episódios inacreditáveis nesse carnaval. O pior deles foi um grupo de amigos que se sentiu no direito de agarrar, tocar e puxar a mim e as minhas amigas. Fiquei com tanta raiva, raiva deles, da maneira como eles zombavam da gente, da maneira como ele nos olhavam. O mais engraçado é que todos em volta percebem e não fazem nada. Como se um grupo de amigas que apenas quer curtir o carnaval estivesse pedindo para serem agarradas. Quando eles foram embora eu chorei tanto, mas tanto, como se tudo que estivesse guardado em mim todos esse tempo saísse em cada lágrima. Passou, e no dia seguinte eu estava lá de novo. Plena! Curtindo meu carnaval que nenhum babaca iria estragar.
    Hoje, um pouco mais madura eu entendo a importância de não se calar. Não abaixar a cabeça. Se você não gostou, FALE! Se foi assediada, DENUNCIE! Se está incomodada, faça alguma coisa que mude a situação! O que eles querem é que a gente se sinta impotente, fraca, assustada, assim eles podem continuar agindo dessa maneira sem nenhuma repressão. Faço um pedido, para que os pais dessas novas gerações ensinem aos seus filhos a importância de se respeitar ao próximo. Que as meninas cresçam sabendo que podem ser tudo que quiserem e que os meninos cresçam respeitando o espaço e lugar delas. Porque lugar de mulher é onde ela quiser!
    O feminismo é sobre a liberdade que supostamente temos, mas não temos. É sobre eu andar na rua livre sem me preocupar em ser assediada. É escolher a roupa que eu quiser e não ser julgada por isso. É poder viajar sozinha, sem medo, sem represália. É ter direitos iguais. Oportunidades iguais. É você poder ser o que quiser. Meninas passam por episódios como esses, simplesmente por serem meninas. Quanta coisa eu não teria passado se tivesse nascido homem, não é mesmo? Por isso continuo seguindo, lutando, me desconstruindo a cada dia para que as próximas garotinhas voltando para casa de uniforme não passem por isso. Nós por nós!
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