O dia 20 de novembro não é sobre a ‘paciência negra’

Gabriele Roza
Nov 18, 2019 · 5 min read

A narrativa sobre o que é ou sobre o que sentimos no Dia da Consciência Negra precisa ser preservada.

Nunca vi tantas pessoas irritadas com a comemoração da sua própria existência, cultura e povo. Nos últimos dias, vi muitos comentários de pessoas negras (incluindo de amigos próximos) dizendo cansadas do dia da consciência negra. Não tiro a razão de ninguém. De fato, os brancos não têm limites, não é mesmo? Mas esse texto não é sobre eles e também não é para eles. Escrevi para os meus amigos negros. Se você é branco, não precisa passar para o próximo parágrafo.

Vamos a história…

O Dia Nacional da Consciência Negra foi oficializado em 2011 e remete ao dia em que Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, foi morto, em 1695. A celebração do dia começou mesmo em 1971 quando um grupo de amigos negros universitários de Porto Alegre questionou a legitimidade da data do 13 de maio para o povo negro. O grupo sentiu a necessidade de levantar uma outra data que de fato representasse os negros no Brasil.

Zumbi. Foto reprodução.

‘‘Esse foi o momento mais glorioso da história do povo negro no Brasil e, infelizmente, nossa historiografia o diminui no tempo e até na apresentação dos fatos principais”, disse o poeta Oliveira Silveira [um dos integrantes do grupo] ao Jornal do Brasil.

“Quando eles propõem essa data, mais do que uma alternativa, estão propondo a ideia de liberdade conquistada″, explicou o pesquisador Deivison Campos para a reportagem da Folha de S. Paulo.

Anos depois da primeira comemoração, atos lembrando de personalidades negras passaram a ocorrer em todo o Brasil. Em 1978, o Movimento Negro Unificado lançou um manifesto adotando a data como nacional e, em 2003, o dia foi incluído ao calendário escolar pela Lei 10639.

Manifestação do Movimento Negro Unificado, 1978.

Todo esse contexto para dizer que o Brasil precisou de 316 anos para reconhecer a data nacionalmente. O dia é fruto de reivindicação de um símbolo histórico, de luta e resistência do povo negro no Brasil, Zumbi dos Palmares. A data não é sobre a nossa paciência com branco, que precisamos ter em boa parte do nosso tempo, a data é sobre nós. Qual é a mensagem que estamos passando em dizer “mês da paciência negra” ou “esse mês to zero paciente’’? Por que neste mês estamos produzindo mais conteúdo sobre racistas do que sobre a história do nosso povo?

A contranarrativa não pode vir de nós, certo?

O problema de valorizar outras narrativas (que também são importantes) é enfraquecer o verdadeiro significado desse dia. Ficar impaciente ou passar raiva com racistas muitas vezes não é uma escolha. E sim, estamos tão cansades com tudo isso que não conseguimos simplesmente ignorar coisas que poderiam ser ignoradas. Assim, muitas vezes, usamos do deboche e da ironia para conseguir lidar com a situação.

Mas precisamos lembrar que uma das principais questões dos movimentos sociais é sobre como moldar sua própria imagem e discurso e não deixar que a imagem seja dominada e alterada por grupos dominantes. Muitos movimentos se tornaram maiores porque tiveram como grande estratégia a produção de imagens, memórias e símbolos. Um projeto de poder político também passa por criar narrativas para o mundo sobre o que a gente quer e acredita.

Se você se considera parte de um movimento (ou não), é importante entender o que foi comunicado antes de você chegar. Por que reclamar desse dia se ele foi criado para valorizar a nossa história? Será que o branco racista sem noção tá conseguindo pautar mais esse momento do que a gente? Queremos que o mês da consciência negra seja sobre ataque racista, sobre ferida e dor e não sobre autonomia e liberdade?

Conversei com meus amigos and cientistas sociais Ana Carolina Lourenço e Obalera de Deus sobre isso (pra saber se eu não tava loka) e olha o que eles falaram:

Um print que eu tirei do post de uma pessoa no Instagram. Sem fonte por motivos óbvios. #paz

De Deus: ‘‘Esse nome ‘paciência negra’ é uma auto sabotagem, é tirado toda força, toda potência e significado de luta. Isso também é resultado do processo do racismo, uma vez que esse nome tem muito a ver com a raiva e com os incômodos que o racismo provoca. É consciência negra sim e ponto. A contranarrativa não deve ser a desconstrução dessa ideia.’’

Carol: ‘‘Se o mês da consciência negra tem uma carga negativa, ela tem por falar em como a branquitude rompeu com os sonhos de liberdade da população negra, mas que foram ousados sonhos de liberdade. É Quilombo dos Palmares, a maior experiência de levante contra a colonização da América Latina.’’

"Consciência é aquele nível que você começa operar como parte de um movimento, como parte de tomadas coletivas. O problema da ‘paciência negra’ é que é sobre como você está se sentido em novembro, como você fica irritado, não sobre grupos, sobre movimento.”

Mood do dia 20

Esse texto tá ficando grande demais e tenho que terminar, mas antes disso quero ter certeza que você entendeu que neste mês precisamos usar todo espaço que temos para dizer o quanto nosso povo é brilhante. Quando você for lembrar desse dia, não quero que lembre que precisa se segurar para não bater em branco, quero que você lembre da liberdade (que como diz A. Davis é uma luta constante).

Sei que é muito difícil a gente ignorar alguns comentários nesse dia, mas se você puder fazer isso, gaste o seu tempo apresentando para sua família, amigos e vizinhos alguma personalidade negra que mudou a nossa história. Tem muita gente preta que ainda não foi reconhecida. Gaste o seu tempo com os nossos.

Grupo tocando tambor grande, em 1948. Print de foto da página @tinhaqueserpretooficial no Instagram. Tentei achar a fonte, mas não consegui.

Bora colocar Ilê Aiyê pra tocar, Dona Ivone Lara, Jorge Ben, Karol Conka, Emicida e outres mil. A Consciência Negra é sobre muita coisa, não cabe tudo neste texto, mas acredito muito que também é dia de celebrar! Dia de lembrar da história do nosso povo, fortalecer a memória de Zumbi, Dandara, Clementina, Lélia Gonzalez, Antonieta de Barros, lembrar que Machado é preto sim! Vamos aproveitar o feriado para comemorar a nossa existência, dos nossos corpos, cabelos, músicas e histórias. Vamos pro samba, baile, jazz, jongo, bora pra roda. Amanhã mais do que tudo é dia de celebrar porque ‘com uma canção também se luta, irmão’.

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