O Rio de Janeiro que se quer negar

Gabriele Roza
Jul 30, 2016 · 5 min read

Em 2016, ainda não é permitido pobres em locais que há infraestrutura básica de moradia na cidade olímpica

As casas amarelas chamam meus olhos. As casas da cidade se diferem na cor, na arquitetura, na construção. Podem ser barrocas, modernistas ou contemporâneas, todas são belas, dizem que há beleza na dor. No Santa Marta, a primeira casa que chama meus olhos é a casa amarela de costas para o Redentor: grande, alta e amarela.

Subindo a favela, as casas ficam menos modernas e mais início do século XX, quando os descendentes de negros escravizados ocuparam as favelas e construíram casas de pau-a-pique próximas da vida na cidade. Ainda existem casas de pau-a-pique no Santa Marta. Foi essa casa que chamou meus olhos dessa vez: de madeira e terra, pequena e escura. As primeiras casas ainda estão lá. As verdadeiras casas brasileiras ainda habitam a cidade. O passado ainda não se foi, ele ainda mora aqui.


Logo cedo, os moradoras do Santa Marta já começam a subir e descer a favela. Alguns descem e pegam o ônibus para trabalhar, outros trabalham dentro da favela mesmo — seja o pedreiro ou o peixeiro. Os pais, que levam os filhos para a escola, são os que aparecem pontualmente às 7h. A escola fica logo ali e o trabalho também, parece que os motivos da habitação nas favelas do Rio de Janeiro continuam vivos até hoje. O que importa, é estar perto da cidade, porque é na cidade que as coisas acontecem.


O processo começou em 1500: Europeus tomam a terra de índios e, para construir essa terra em seus moldes, escravizam negros africanos; após a abolição da escravatura, negros são despejados pelas ruas da cidade e vão ocupar os espaços abandonados no Centro do Rio, onde se conseguia trabalhar e sobreviver; esse espaço é valorizado e os negros expulsos sobem os morros. Hoje, índios ainda lutam pelo direito de morar em uma terra que inicialmente era deles e foi roubada e descendentes de africanos escravizados ainda sofrem com o risco de serem removidos do local que foram trazidos a força. Nada mudou.

‘‘O que temos são populações expulsas de uma área em que existe uma habitação com dignidade’’, diz Sandra Maria Souza, liderança e moradora da Vila Autódromo, em palestra de abertura da exposição O Rio que se Queria Negar. ‘‘Deixam essa população pobre habitar apenas as áreas em que não existe moradia com dignidade, nas áreas abandonadas pelo poder público. Toda vez que uma região é valorizada, quando infraestrutura, saneamento básico e transporte chegam no local, essa população é expulsa, removida. Áreas específicas são abandonadas pelo poder público. O governo insiste em manter a área de moradia popular abandonada’’, completa.

A exposição O Rio que se Queria Negar — As favelas do Rio de Janeiro no Acervo de Anthony Leeds vai até o dia 1 de outubro no Museu da Vida, na Fiocruz.

Nos anos 60, a Vila Autódromo, localizada na Barra da Tijuca, onde Sandra mora, nasceu como uma vila de pescadores, em uma época que a zona oeste do Rio era praticamente deserta, com vasta vegetação. A partir dos anos 90, a comunidade passou a receber ameaças de ser removida devido a sua posição geográfica, alvo do setor imobiliário. Os olhos do capital viram para a região, grandes condomínios, shoppings center e vias aparecerem e a Barra da Tijuca começa a ser projetada. Sandra explica que a Vila Autódromo é perseguida pelo processo de remoção há 30 anos, desde que a Barra da Tijuca expandiu e iniciou as grandes construções, e os motivos para as remoções variaram ao longo dos anos.

‘‘Hoje a cidade é reformulada e projetada visando um grande espetáculo, fazem obras imensas que servem para aniquilar nossa história. Temos um Museu do Amanhã que destrói a história do passado de um povo. As grandes construções hoje visam o futuro, um espetáculo para impressionar o mundo, mas não olham as necessidades do povo brasileiro. Agora o grande pretexto para as remoções é a Olimpíada. Em nome da Olimpíada se diz construir uma cidade, construir pra quem e destruir pra quem? Grandes obras, grandes museus que não tem o objetivo, que deveria ser o principal, de preservação da história.’’

Apesar dos problemas enfrentados ao longo desses anos, a Vila Autódromo tornou-se símbolo de resistência. Vinte famílias — viviam até o início de 2014 aproximadamente 600 famílias — continuam no local, resistindo às pressões e agressões do poder público.

A Vila Autódromo entra na história de comunidade que conseguiu resistir ao processo de remoção olímpica. ‘‘As 20 representam infinitas famílias que já foram removidas na nossa cidade ao longo da história. Essas 20 representam uma infinidade de famílias removidas no mundo inteiro pelo processo de remoção olímpica. A remoção faz parte de higienização social, onde não é permitido pobres no entorno da cidade olímpica, não é permitido pobres em locais valorizados na cidade. É esse processo de disputa de terras que o capitalismo instaura no mundo inteiro, e por isso, é uma vitória a resistência dessas 20 famílias.’’


No Santa Marta, uma favela na Zona Sul do Rio, as casas que ficam na entrada da favela são as casas amarelas. Já no alto do morro, existem ainda casas de madeira e terra. As diferenças nas habitações estão presentes em um mesmo território dentro da cidade. Deve ser mais fácil fechar os olhos para habitações que estão mais distante do ‘‘asfalto’’.

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