Precisamos falar sobre autoajuda

Qual é a primeira reação que você tem quando alguém te indica um livro de autoajuda?

Até uns 6 anos atrás, a minha reação era um misto de desdém e impaciência. Livro de autoajuda era, na melhor das hipóteses, material de segunda.

Meu preconceito sobre o tema havia nascido ainda adolescente — período da vida em que já tinha intenso hábito de leitura — sem nenhum argumento lógico válido. Pensava assim simplesmente porque pessoas ao meu redor falavam que “livros de autoajuda não prestam”. Sem refletir, passei a adotar esse discurso e repeti-lo à exaustão.

Isso, é claro, não me impedia de ler um ou outro livro de autoajuda escondido. Li vários. Quando descoberto, me comportava com um certo grau de desdém e superioridade para prontamente me justificar: “apenas folheando essa besteira”. Já publicamente, eu lia clássicos de literatura, filosofia ou, no campo profissional, grandes manuais de gestão e negócios.

Mas como falei, minha percepção mudou. E a mudança foi maior do que a simples adoção de livros de autoajuda (hoje chamados de desenvolvimento pessoal) como leitura obrigatória. Na verdade, passei a evitar opiniões absolutas e genéricas, como a que eu tinha sobre esse tipo de leitura.

Como pode uma categoria inteira de livros não ter algo de bom ou relevante? Quer dizer então que dos milhões de livros de autoajuda publicados anualmente ao redor do mundo, nenhum é ótimo ou bom? Todos essas centenas de milhares de pesquisadores, escritores e pensadores não teriam, nunca, algo de relevante para contribuir?

Acho difícil. Muito difícil.

Assim como na literatura nacional e internacional, na filosofia e na gestão, só para ficar nos meus exemplos principais, temos livros de todas as qualidades e tipos, logo, sem muito esforço, concluo na seção de autoajuda também teremos de tudo: do péssimo ou excepcional.

“Ah, mas muitos deles têm o título apelativo”. Respondo: e o conteúdo? “Há muita coisa que realmente não presta”. Respondo: todos elas? “Muito” tem em todas as áreas da vida. Assim como há muita coisa ruim, há muita coisa boa na seção de autoajuda.

E para ir mais longe, quero dizer que precisamos desses livros. Precisamos dos bons livros de autoajuda!

Quantas pessoas você conhece que não têm, por exemplo, capacidade de auto-organização? Quantos são os conhecidos de você que não cuidam das finanças pessoais? E mais: você poderia apontar agora, um amigo ou amiga que não sabe se comunicar, ou cuidar da própria saúde (ou da própria família) ou lidar com as próprias emoções? Tem algum familiar que não consegue ir a um evento sem criar constrangimento?

Os bons livros de autoajuda ensinam a viver. Eles falam daquilo que está muito presente em nosso cotidiano: felicidade, rotina, finanças pessoais, frustrações, comunicação, relacionamentos, organização, emoções, família e por aí vai. Na verdade, costumam abordar, de forma simples, clara e didática, aquilo que a ciência clássica esnoba e vira a cara: o cotidiano das pessoas comuns. Os bons livros de autoajuda tratam do básico em nossas vidas: daquilo que por vezes deixamos de lado para buscar o sofisticado.

Não adianta ser pós-doutor e não falar com os filhos. Não há sentido em ser um profissional referência se você está coberto dívidas. Não pode ter uma vida plena aquele que lidera centenas de pessoas, mas não tem controle de si próprio.

Livro de autoajuda é bom? Depende. Vamos ver o conteúdo?