Gabriel Ferracini
Sep 3, 2018 · 4 min read

Eu não quero Lula livre, só quero Haddad no segundo turno

Vamos por partes. Eu não quero Lula livre por achar que ele está no lugar que merece, mas porque a descrença do povo brasileiro na política está grande. Infelizmente, acreditam veemente no golpe jurídico-parlamentar-midiático acontecido em 2016, soltar Lula só vai dar margem para seus algozes praticarem o discurso populista e aumentarem ainda mais a crise antidemocrática instaurada em nosso país.

É verdade que Luis Inácio tem potencial para ganhar as eleições ainda no primeiro turno e mandar para a vala todo o mal, mas imagine o caos que causaria o maior líder político recente que o Brasil teve saindo do sistema carcerário e caminhando as rampas do Planalto rumo à presidência.

Enfim, não importa se os maiores nomes da diplomacia são a favor de Lula solto, nem a ONU, nem o Papa, nem a mãe Joana será capaz de mudar a cabeça do amiguinho que assistiu ao show de sensacionalismo patrocinado pela Rede Globo e adquiriu cegamente a ideia do antipetismo. Aliás, acredito que tenha uma pessoa capaz de mudar isso.

Passado a régua no primeiro item, vamos ao segundo. Bato na tecla há tempos de que Lula seria impugnado e não estaria nas urnas em Outubro. Entretanto, o PT segue firme e forte na sua estratégia de levar o nome do velho barbudo aliado ao de Fernando Haddad, o que deixa explícito a artimanha do partido na transferência de votos de um para o outro.

Não é só isso, o novo candidato segue na corrida contra o tempo e realiza seu 'tour político' no Nordeste, tal qual local onde Lula é considerado imbatível pelos seus adversários, mas que ninguém conhece Fernando Hadadd. Na última semana de Agosto, o ex-prefeito de São Paulo passou por seis dos nove Estados do Nordeste. Não importa qual seja o candidato que substitua Lula, o que conta é a força do ‘lulismo’. Vão votar em quem Lula apoiar, essa é a aposta do PT. [Em qualquer Estado do Nordeste, Lula tem pelo menos 50% das intenções de voto]

Aliada ao pluripartidarismo – existência de vários partidos num sistema político –, sem Lula no cenário há uma completa dissipação da esquerda brasileira. Ele é o maior nome da vertente não só no Brasil, mas na política mundial, contudo se faz uma dispersão dos votos ao encarar Boulos, Ciro Gomes e Haddad como opção nas eleições.

A segmentação da esquerda faz com que os já consolidados Geraldo Alckmin (PSDB) e o candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL) saem à frente dos demais, como mostram as pesquisas. Apesar de Geraldo e Bolsonaro disputarem a mesma população de votos, ambos já tem sua bancada fiel e que pouco deve variar até 7 de Outubro. Marina aparece em terceiro lugar para só então dar lugar ao Haddad, em quarto. Quem perde não é o Haddad nem PT, é o Brasil com dois candidatos tão despreparados prestes a disputar o segundo turno.

Haddad pode ser bom (para o PT e para o Brasil)

Fernando Haddad é o candidato 'pouco petista' que sofre com a imagem desgastada do partido. Aos 55 anos – novo em comparação aos adversários –, já foi Ministro da Educação de 2005 a 2012 e prefeito da capital paulista de 2013 a 2017. É acadêmico, doutor em Filosofia, entusiasta do marxismo, possui vários diplomas e uma visão aberta às pautas do dia a dia. Mas tudo isso é amassado e esquecido por via da crise econômica, avalanche da Lava Jato e demandas frustradas.

Haddad não é e nem deve ser considerado o novo Lula. Ao lado de sua vice Manuela d'Ávila, 37 anos, é considerado a renovação da esquerda brasileira após anos de batalhas entre os dinossauros da política. O chamado 'petismo-raiz' ficou para trás e uma nova cara seria dada ao PT. É necessário que as velhas tutelas sejam quebradas e alguém com pulso escute as exigências atuais da sociedade.

Quando deixou a prefeitura de São Paulo, reservou críticas à imprensa. “O meu governo é em grande medida desconhecido. Se a imprensa não cumprir seu papel, não vai ser o cidadão que vai correr atrás da informação", relatou ao jornal Valor Econômico, em referência às principais medidas adotadas por ele, como mobilidade urbana; a redução das velocidades nas marginais Pinheiros e Tietê (apontada como responsável por redução de mortes em acidentes); fechamento da avenida Paulista e outras vias aos domingos; a proposta de construção de casas populares; e a gestão da crise dos moradores de rua.

O desafio é grande e a proposta do PT é de alto risco, podendo colocar em cheque não só a candidatura de Haddad, mas também o poder nas mãos de quem tem potencial para causar danos irreparáveis ao governo e à sociedade brasileira. Rajada de fé para Outubro e que até lá as contas sejam acertadas.

    Gabriel Ferracini

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    Jornalismo USC

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