Eu não quero Lula livre, só quero Haddad no segundo turno
Vamos por partes. Eu não quero Lula livre por achar que ele está no lugar que merece, mas porque a descrença do povo brasileiro na política está grande. Infelizmente, acreditam veemente no golpe jurídico-parlamentar-midiático acontecido em 2016, soltar Lula só vai dar margem para seus algozes praticarem o discurso populista e aumentarem ainda mais a crise antidemocrática instaurada em nosso país.
É verdade que Luis Inácio tem potencial para ganhar as eleições ainda no primeiro turno e mandar para a vala todo o mal, mas imagine o caos que causaria o maior líder político recente que o Brasil teve saindo do sistema carcerário e caminhando as rampas do Planalto rumo à presidência.
Enfim, não importa se os maiores nomes da diplomacia são a favor de Lula solto, nem a ONU, nem o Papa, nem a mãe Joana será capaz de mudar a cabeça do amiguinho que assistiu ao show de sensacionalismo patrocinado pela Rede Globo e adquiriu cegamente a ideia do antipetismo. Aliás, acredito que tenha uma pessoa capaz de mudar isso.
Passado a régua no primeiro item, vamos ao segundo. Bato na tecla há tempos de que Lula seria impugnado e não estaria nas urnas em Outubro. Entretanto, o PT segue firme e forte na sua estratégia de levar o nome do velho barbudo aliado ao de Fernando Haddad, o que deixa explícito a artimanha do partido na transferência de votos de um para o outro.
Não é só isso, o novo candidato segue na corrida contra o tempo e realiza seu 'tour político' no Nordeste, tal qual local onde Lula é considerado imbatível pelos seus adversários, mas que ninguém conhece Fernando Hadadd. Na última semana de Agosto, o ex-prefeito de São Paulo passou por seis dos nove Estados do Nordeste. Não importa qual seja o candidato que substitua Lula, o que conta é a força do ‘lulismo’. Vão votar em quem Lula apoiar, essa é a aposta do PT. [Em qualquer Estado do Nordeste, Lula tem pelo menos 50% das intenções de voto]
Aliada ao pluripartidarismo – existência de vários partidos num sistema político –, sem Lula no cenário há uma completa dissipação da esquerda brasileira. Ele é o maior nome da vertente não só no Brasil, mas na política mundial, contudo se faz uma dispersão dos votos ao encarar Boulos, Ciro Gomes e Haddad como opção nas eleições.
A segmentação da esquerda faz com que os já consolidados Geraldo Alckmin (PSDB) e o candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL) saem à frente dos demais, como mostram as pesquisas. Apesar de Geraldo e Bolsonaro disputarem a mesma população de votos, ambos já tem sua bancada fiel e que pouco deve variar até 7 de Outubro. Marina aparece em terceiro lugar para só então dar lugar ao Haddad, em quarto. Quem perde não é o Haddad nem PT, é o Brasil com dois candidatos tão despreparados prestes a disputar o segundo turno.
Haddad pode ser bom (para o PT e para o Brasil)
Fernando Haddad é o candidato 'pouco petista' que sofre com a imagem desgastada do partido. Aos 55 anos – novo em comparação aos adversários –, já foi Ministro da Educação de 2005 a 2012 e prefeito da capital paulista de 2013 a 2017. É acadêmico, doutor em Filosofia, entusiasta do marxismo, possui vários diplomas e uma visão aberta às pautas do dia a dia. Mas tudo isso é amassado e esquecido por via da crise econômica, avalanche da Lava Jato e demandas frustradas.
Haddad não é e nem deve ser considerado o novo Lula. Ao lado de sua vice Manuela d'Ávila, 37 anos, é considerado a renovação da esquerda brasileira após anos de batalhas entre os dinossauros da política. O chamado 'petismo-raiz' ficou para trás e uma nova cara seria dada ao PT. É necessário que as velhas tutelas sejam quebradas e alguém com pulso escute as exigências atuais da sociedade.
Quando deixou a prefeitura de São Paulo, reservou críticas à imprensa. “O meu governo é em grande medida desconhecido. Se a imprensa não cumprir seu papel, não vai ser o cidadão que vai correr atrás da informação", relatou ao jornal Valor Econômico, em referência às principais medidas adotadas por ele, como mobilidade urbana; a redução das velocidades nas marginais Pinheiros e Tietê (apontada como responsável por redução de mortes em acidentes); fechamento da avenida Paulista e outras vias aos domingos; a proposta de construção de casas populares; e a gestão da crise dos moradores de rua.
O desafio é grande e a proposta do PT é de alto risco, podendo colocar em cheque não só a candidatura de Haddad, mas também o poder nas mãos de quem tem potencial para causar danos irreparáveis ao governo e à sociedade brasileira. Rajada de fé para Outubro e que até lá as contas sejam acertadas.