Elogio ao mar

O mar cheira a nostalgia. Era onde costumava pescar com o pai. Também se lembrava de uma pequena casa localizada numa praia deserta a alguns quilômetros de onde morava com a família. A casa era toda de madeira e ficava na areia da praia, seu maior divertimento quando criança era brincar debaixo da casa, até um dia em que deu de cara com um sem número de baratas que viviam ali debaixo. Podia-se ouvir o mar ao dormir, o vai-e-vem das ondas totalmente alheio a qualquer perturbação humana. A natureza em seu melhor estado. O vento também soprava forte na velha casinha de madeira, trazendo os grãos mais fininhos de areia e umidade vinda do mar, com o cheiro que sempre o fascinou. Foi nessa época que começou a gostar do cheiro do mar.

Os finais de semana na casa da praia eram plenos de mar e areia. Pescarias durante o dia, conversas na frente do casebre pela noite. Sempre acompanhado daquele cheiro da água do mar, do sal. Esse cheiro lembrava férias, final de semana. Era tão inocente na sua pouca idade que mal ficou sabendo de dois casos que aconteceram na vizinhança da sua casinha de madeira: o primeiro foi o roubo do carro do pai numa madrugada; o outro foi o assassinato de um vizinho enterrado, depois, no próprio quintal. Mas esses fatídicos episódios jamais se transformaram em lembranças ruins para o menino. O que ele lembrava mesmo era do cheiro do mar.

O mar tem cheiro de passado. Depois que o pai morreu, nunca mais foi pescar. Mas nunca o deixou de a-mar. O mar tem cheiro de esperança. O mar representa o desafio. Nunca consegue pensar no mar e não pensar imediatamente nos navegadores do passado, na sua coragem, sem entrar no mérito dessas viagens. Aqueles homens arriscaram suas vidas, abandonaram suas famílias. Muitos, muitos morreram. Tudo isso com um único desafio: decifrar esse grande enigma que é o mar, os oceanos, essa massa infinita de água, tão atrativa e tão perigosa. Ele entende esses homens pois sente o mesmo chamado. O mar é um convite: venha conhecer o novo, veja a quantos mundos e quantas civilizações diferentes eu posso te levar. O mar é sedução. Ele gosta de nadar no mar, mas tem medo das ondas muito grandes. Mas nada o empolga mais do que ver o mar bravio, batendo na arrebentação, arrancando toneladas de sedimentos e levando de volta para o fundo, como quem toma de volta o que é seu por direito. E bate, com força, como quem grita. Mostra seu poder. Mostra quem é que manda de verdade. Não somos nós, humanos: o mar é implacável.

Foto: Gabriel Simões

Ninguém domina o mar. Nem mesmo os navios mais modernos. Até esses temem passar em determinadas regiões dos oceanos. O mar não poupa ninguém. Ele exige respeito, senão ele te traga. Ouse lá desafiar o mar. Muitos e muitos navios estão no fundo dos oceanos para provar a força das águas. O mar afunda eles, traga eles para dentro de si e os exibe como troféus. Ele intimida. Não mexa comigo ou te tomo para mim. Pior ainda quando o mar e o céu agem em conluio, não existe força no mundo capaz de resistir a tal consórcio. Mas houve e há, até hoje, quem desafie. E a sala de troféus do fundo dos oceanos está sempre se completando com mais uma ou outra peça.

Mas foi no mar que surgiu a vida primeiro. O mar é um celeiro, não haveria vida na terra se não fosse pelo mar. Talvez a sua força sirva para mostrar sua capacidade e exigir nossa gratidão. O homem depende tanto do mar e o maltrata um outro tanto. O mar devolve os maus tratos. Mas traz a esperança. Traz os peixes, mata a fome. Além disso tudo, o mar é belo. E grita com a gente, fala alto. Não existe mais belo espetáculo do que o mar agindo como sempre agiu, no seu tempo, alheio ao tempo humano. Para o mar, tempo não é dinheiro. Tempo é posto.

Foto: Gabriel Simões