“Faça a América grande novamente”, frase de efeito da campanha de Donald Trump, evidencia como o uso político da nostalgia é um trunfo que se usado de forma inteligente pode se sustentar sobre si mesmo.

Saudosismo juvenil em tempos de barbárie

Sábado, enquanto conversava com um amigo sobre política, abrimos o facebook para ver algumas coisas, e me deparei com uma opinião extremamente simplista para um tema sério: porque há tantos jovens “saudosistas”. A resposta de uma das pessoas culpava a falta de vontade desta geração (a qual a pessoa provavelmente pertence), chamando-a de “mimada” para assumir responsabilidades. Confesso que o tema me inquietou, e na solitária volta para casa me fez refletir muito.

Evidentemente este é um tema absurdamente complexo, e seria ingênuo da minha parte, depois de tantos anos na História, buscar “a causa” do problema. Pensei, no entanto, em me aprofundar em uma reflexão que até pincelei neste texto, de forma brevíssima. O ponto que aos meus olhos parece nevrálgico para se explicar a situação, o que muitos chamam de “falta de identidade”, se apresenta como uma alternativa igualmente simplista para explicar a ausência de atividade política dos jovens. Usa-se ela para traduzir tudo e a partir daí se entender o mundo. Mas não me parece nem científico ou tampouco reflexivo soltar essa ideia sem que se busque entender o que está por trás de tal fenômeno e infelizmente, me parece que poucos tem tido esse tipo de preocupação em fazê-lo, mesmo que de forma grosseira e superficial.

O lugar nenhum como lugar comum

Uma forma clara de entender como se comporta social e politicamente a juventude de uma época é buscando suas expressões culturais. Desde o samba dos anos 30 até o pós-punk pessimista dos anos 80, todos trazem em seu âmago reflexos das situações cotidianas vividas por esses jovens, a relação com a política deles e a dos “mais velhos”. Exemplos não faltam. Um filme em particular, junto com suas subsequentes séries, captam com maestria essa relação aos olhares mais perspicazes, pois age de forma sutil mas bastante interligada com os momentos retratados: This is England. A produção inglesa, que retrata o período entre 1983 e 1990 na vida de um grupo de jovens, chega em sua ultima produção, This is England 90', retratando a saída de Margareth Tatcher em meio completa decadência pessimista da juventude que despontava: odiavam a ex-primeira ministra mas viam-se completamente impotentes de fazer algo a respeito. A falta de bons empregos levava à necessidade de se viver com amigos em pequenos apartamentos, onde as drogas afastavam sonhos e expectativas, moldaram a cena cultural inglesa da época, com o surgimento de bandas de cadência mais lenta e grave, como The La’s e Happy Mondays, sobretudo no movimento musical conhecido como “Madchester”.

“There She Goes”, maior sucesso do La’s

Este cenário que poderia ser comparado com o momento atual, se não fosse por uma crucial diferença, que retorna ao questionamento inicial do texto. Diferentemente dos nossos dias, naquele momento havia um sentimento de pertencimento. Não havia nostalgia para além do saudável. Não havia, como nos dias de hoje, uma ávida busca pelo passado, que pode ser refletida na constante busca pelo “retrô”, sem que se crie algo novo ou se abrace o que é produzido — até mesmo por um motivo óbvio: nada de novo surge que não venha absurdamente enlatado.

Mas não há cenários sem exceções. Um em especial me intriga: a produção cultural LGBT moderna (que aqui em alguns momentos aglutinarei para fim de análises). A popularização da cultura drag queen, o surgimento de “artistas pop” praticamente desconhecidos para além de seu nicho, e mais que isso, a possibilidade, caso se deseje, do estabelecimento de círculos sociais inteiramente inseridos neste meio cultural, torna esse grupo perfeito para o entendimento do que acontece com esta nova geração, seja por quem está dentro, seja por quem está fora dele.

Antes, cabe uma pequena passagem justificativa. Alguns, de forma severa, podem atribuir à esse movimento um caráter integralmente artificial e midiático, forçado pela indústria cultural. Não consigo crer que isto seja verdade. Obviamente, há uma série de apropriações e plastificações do que surge dentro deste meio, mas boa parte do que vem saindo a tona de forma cada vez mais forte, tem origem muito anterior, de forma muito espontânea. A cultura drag queen e seus ídolos, como RuPaul, estão na ativa desde os tempos de maior “clandestinidade”, tal qual elementos da cultura trans brasileira como o vocabulário de origem nagô iniciado com as travestis marginalizadas mas que alcançou um público muito mais vasto.

Despejos modernos

A banda de punk rock paulistana Flicts tem em meu bairro, minha rua, uma música de idéias nostálgicas (e aqui cabe notar que esta é uma banda de esquerda progressista, o que conflita com a ideia de que nostalgia e conservadorismo estão sempre unidos), que acidentalmente ou não acaba por nos dar um bom indício para entender essa ideia de não pertencimento:

O campo, a quadra, o bar da esquina
Hoje não existem mais
Hoje só ouço o silêncio
A falta que você me faz

Desde a segunda metade dos anos 2000, com o acelerado crescimento urbanístico e posterior bancarrota imobiliária mundial, a especulação sobre este mercado se tornou absurdamente feroz. Dos altíssimos preços cobrados nas principais capitais brasileira até o descaso nada acidental que provocou o incêndio na Grenfell Tower, em Londres, tudo contribui para uma ocupação realmente humana cada vez menor dos espaços urbanos. Esta área gradativamente foi sendo mais usada para fins comerciais, que quando não é estritamente não-residencial, visa a alocação de muitas pessoas em poucos metros quadrados, num efeito de concentração não mais apenas de renda, mas de espaço físico.

Durante os anos 1970, o bairro novaiorquino do Bronx irrompeu em incêndios criminosos, movidos pela especulação imobiliária de seus proprietários. Atualmente, a mesma especulação imobiliária atrelada à desigualdade social leva a uma diminuição de tais espaços.

Este confinamento se reflete diretamente na impossibilidade de gerar cultura. Se antes mesmo os movimentos de caráter extremamente marginal como o punk ou o hip hop tinham algum espaço para florescer, hoje em dia é extremamente difícil, em uma economia mundial frágil somada a uma diminuição do espaço disponibilizado, unir pessoas cada vez mais isoladas. Não existem espaços de encontro, e os que se formam geralmente são inusitados ou substancialmente com fins políticos, o que mata qualquer caráter de espontaneidade quase que inerente à juventude até então.

Na contramão desta tendência, temos o florescimento da expressão LGBT. E não é nada complexo entender a força desta movimentação, ao ponto dela parecer enfrentar menos barreiras físicas. Poucos nichos foram tão marginalizados dentro da indústria cultural como o LGBT, por diversos motivos. Enquanto o movimento negro norte-americano conseguiu se organizar tanto politico quanto culturalmente desde o começo do século passado, gays, lésbicas e transexuais não conseguiram uma coesão e pressão política satisfatórios pelo menos até o fim dos anos 70. Na grande mídia, apenas nos anos 80 foi possível ver a androginia atingir um status de culto pop, com artistas como Prince, Rick James e Culture Club atingindo sucesso mundial.

Nos últimos tempos porém a luta LGBT conseguiu uma explosão exponencial. Eventos como a Parada, antes um ato que beirava a extrema coragem e rebeldia envolvidas pelo risco de se existir como marcha, hoje reúnem milhões de pessoas, tendo se convertido de resistência para orgulho. Estas diferenças mostram como o próprio movimento se lê. Enquanto para a maioria das pessoas a redução dos espaços físicos significou um estrangulamento cultural, o simples fato de poder sair na rua sem a mesma quantidade de riscos envolvidos a três décadas atrás representou para esta nova juventude LGBT uma realidade que não se resume apenas ao medo e à melancolia. Ela efetivamente pode ocupar mais espaços que antes. É simples de compreender, portanto, porque algumas pessoas reproduzem em suas falas a ideia de que gays estariam tomando dominando os locais antes pertencentes aos heterossexuais. De um ponto de vista relativo, um lado ganha enquanto o outro perde território na dinâmica urbana. Obviamente esta lógica não faz sentido quando se analisa os dados de forma concreta, mas pode-se entender sua fácil deglutição quando não se quer ou mesmo não se tem tempo para refletir mais a respeito do tema. Cabe lembrar que cada vez menos se tem tempo livre na atual dinâmica da cidade e do trabalho, sendo o momento para reflexão um privilégio cada vez mais raro.

Fragmentação involuntária

Asimov em 1988

O escrito Isaac Azimov em 1988 comentava com muita empolgação sobre um futuro de aprendizado livre de amarras, onde o estudante poderia conduzir não só o que iria aprender, mas como iria aprender. O mesmo aconteceu com a cultura, o que acabou tendo efeitos que mudaram a nossa forma tanto de consumir arte, quanto de entender e reproduzir estas expressões em seu nicho. Com as transformações na transmissão da informação, somadas ao acesso à cada vez maior de informação, a tendência que se apresenta é não só da extrema subdivisão em nichos cada vez mais específicos (o que gera “cenas” reduzidas a poucas pessoas e que raramente se expandem, seja o Stoner Rock ou o Vaporwave), mas também leva pessoas a consumirem uma quantidade gradativamente maior de coisas ao mesmo tempo. Mesmo que como meme ou piada, certos grupos antes completamente não associáveis agora apresentam taxas de intersecção. Um metaleiro do sul do Brasil ouve um funk feito em uma favela paulistana, ri e compartilha adiante com os amigos.

Nesta contramão, novamente, está a cultura pop LGBT. Diferente de outras, que sempre puderam de alguma forma se expressar e ter seus espaços de nicho, ela teve não apenas que se manter totalmente à parte do grande público, mas quando conseguiu alguma forma de ascensão para um número maior de pessoas, foi justamente na diluição silenciosa em outros espaços, seja com a já mencionada androginia; com as roupas BSDM no heavy metal usadas por Rob Halford, o vocalista (que depois viria a se assumir homossexual) da banda Judas Priest; ou mesmo sob a representatividade de artistas como Fred Mercury. Mas a riqueza de produções gerada dentro das boates gays, ou mesmo dentro da resistência e existência política desta população, sempre esteve altamente restrita, à ponto de não haverem nem tantos registros disponíveis delas no período da primeira metade do último século.

RuPaul Drag Race atingiu em sua última temporada recordes absolutos — e a tendência para a próxima temporada é de crescimento.

Este cenário mudou drasticamente a partir dos anos 80, em decorrência de alguns sucessos retumbantes da militância LGBT. Inicialmente com a aceitação cada vez maior na mídia de uma verdadeira constelação de cantoras e cantores de agora reconhecido sucesso entre o público gay (e posteriormente seu equivalente entre o meio lésbico), o processo migrou para o surgimento de séries de tv e filmes focados em casais e grupos LGBT. Hoje, no até então auge desta tendência que não parece estar perdendo fôlego, chegamos ao momento em que as drag queens começam a se tornar tão populares, que após 8 temporadas o reality show RuPaul Drag Race passou de uma premiação de 20 mil dólares à melhor transformista da temporada para um valor cinco vezes maior, além de premiações pelos patrocinadores e todo o reconhecimento que um dos líderes de audiência não só nos Estados Unidos mas nas redes sociais em todo mundo pode proporcionar.

Ressignificações

Ainda há dentro de outras minorias quem se sinta mais livre neste século, de forma semelhante aos LGBT. Novas expressões de linguagem são criadas, mostrando nos memes o verdadeiro caminho da arte e cultura em tempos digitais. Mas de uma forma geral esta expansão não passa de um placebo virtual dentro de uma realidade onde estas pessoas são cada vez mais marginalizadas e perseguidas. O crescimento galopante da desigualdade (destrinchado sobretudo pelo economista francês Thomas Pikkety), junto à escalada de quase duas décadas da especulação imobiliária refletem em um esmagamento muito grande não apenas destas populações como de outras que antes eram menos marginalizadas, incluindo a população branca de classe média. Imaginar espaços livres, abandonados ou de valor imobiliário baixo se mostra quase como uma utopia nos grandes complexos urbanos(cidades de maior porte e as cidades-dormitório a elas atreladas) em 2017.

É muito difícil portanto que se renovem as expressões culturais e consequentemente se fuja do saudosismo tão erroneamente execrado pelos acadêmicos. Enquanto o espectro da extrema-direita se aproveita desta busca pelo passado para colar nele a idéia de um retorno ao conservadorismo (que não exatamente existiu da forma como colocada), a esquerda em geral tende unicamente à criticá-lo sem apresentar uma contraproposta. Existe quem tente usar das mesmas armas para exaltar o anticapitalismo, como é o caso da Ostalgie, fenômeno saudosista presente no leste alemão, ex-comunista. Mas não me parece ser este o real caminho, ao menos nas regiões do mundo onde especulação imobiliária vem se acirrando.O caminho mais fortuito para as esquerdas me parece ser o incentivo à ocupação dos locais, e a retomada da rebeldia e coragem anteriormente perdida. Caso contrário, o esmagamento levará a todos fatalmente para um colapso onde as garantias de direitos que a esquerda tanto defende se moldam tal qual os espaços de ir e vir, diminuindo de forma acelerada, desde os LGBT até atingir os trabalhadores como um todo.

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