O nascimento do ser político

Cara audiência
Gentil espectador
Estamos juntos para sempre
Ou até que eu perca a liberdade. – Ibeyi, Behind the Curtain.

O nascimento de um ser político, resumido a três adjetivos tão precisos quanto possível, é — talvez por alguma ironia incomodamente tragicômica — lento, gradual e completamente inseguro. A despeito dos falhos resultados de cesarianas políticas que se multiplicam pelas câmaras governamentais afora, o verdadeiro ser político não vem ao mundo por vias artificiais, pela ação de mãos alheias. O que se pode fazer, assim como em toda gestação, é cuidar-lhe, dar-lhe alimento que gera vida, e deixar que multipliquem-se as células que, juntas, comporão o corpo através do qual o ser político navegará pelo mundo. O momento decisivo, o corte do cordão umbilical, é um de muita dor e medo, mas também de grande expectativa e de um respiro profundo, que, de tão potente, parece que poderia capturar e reter para si todo o ar do mundo, e que precede outros milhares, milhões ao longo da vida do ser político.

Meu nascimento não foi diferente.

Costumo calcular o momento da fecundação entre uma e outra aula de história e geografia do nono ano. Talvez tenha se dado ao compararmos as duas versões de Tanto Mar de Chico Buarque e as semelhanças entre as ditaduras brasileira e portuguesa; talvez ao discutirmos pela primeira vez o estabelecimento do sistema capitalista ao redor do planeta e seu contínuo remodelamento através dos séculos. No fim das contas não importa, pois, na verdade, a fecundação é ainda mais antiga. Bem antes do nono ano, ela se deu através dos dias em que pegávamos o ônibus, eu e minha mãe, até o viaduto e dali andávamos até a escola, debaixo do sol do meio dia, praticamente um atrás do outro na calçada estreita, por falta de um carro e do dinheiro para um táxi. Meu caminho era muito melhor e mais fácil do que os de outras crianças pelo Brasil, mas ainda assim a fecundação resultou do questionamento de disparidades — como estudava em colégio particular, pago a muito suor e alguns atrasos, convivia com colegas cujas mães beijavam suas testas antes de saírem dos carros parados em frente ao portão, em uma cena nada desconhecida dos que assistem a filmes estadunidenses ou novelas das nove ambientadas exclusivamente em Ipanema e no Leblon. Daí para a frente, um sem número de mitoses foi desencadeado. Ideias e mais ideias e mais ideias, perguntas e respostas e anseios e surpresas. Quando das aulas de humanidades do nono ano, já se formara o sistema nervoso central do meu ser político.

Em certo momento da gestação, as florescentes células que geram o corpo do ser político, seus órgãos vitais e os membros que o sustentarão, especializam-se para tal função. Assim foi comigo, como em todos os casos. Um ser político não necessariamente escolhe agir primariamente em função de outros seres políticos. As especializações de minhas células — as lições que a vida me proporcionou e proporciona — levaram-me a pensar o ser político como ferramenta e resultado da ação social. Os meus órgãos e membros — meus ideais e as iniciativas que os acompanham — conservam em suas ramificações, vilosidades e articulações o eco do propósito a que atendem. As células de um ser político se dedicarão primariamente às artes, à ciência, à fé ou ao seu prazer individual, entre outras especializações. As minhas, por virtude do destino, à sociedade. Para mim, essa especialização se deu ao longo do ensino médio, especialmente no último ano de escola.

Essencial para a sobrevivência do ser político é, também, o sangue de seu corpo. Inicialmente produzido pelo corpo que o gesta — a sociedade como um todo, as heranças históricas e socioculturais dos familiares e dos seres mais próximos de si, e a percepção da humanidade — o sangue passa a correr veloz e vivo pelas artérias do ser político. São as oportunidades, as alegrias e os ensinamentos do mundo exterior, resultantes das interações de outros seres com o ser político. Todavia, o mesmo sangue passa a correr viscoso e escuro pelas veias do mesmo corpo. São os obstáculos, as violências e o sofrimento que o mundo impõe ao ser político. O ciclo desse sangue é interminável, pautado sempre por suas interações com suas células e as trocas do ser político com o corpo que o gesta. Após o nascimento, esse sangue vem a depender, também, dos respiros contínuos dados pelo corpo do ser político.

Uma pontada, como um furo de agulha rompendo a fina superfície de uma bexiga, e a bolsa rasga. Não há volta; não se pode mais viver tranquilo dentro do corpo da sociedade, agora que a membrana foi permanentemente danificada. É hora de nascer. O corpo que gesta o ser político resiste em entregá-lo ao mundo, mas sabe que o corpo deste é agora grande demais para o espaço que providencia. Muita dor e risco envolvem o parto. Por fim, o ser político vem à luz já manchado do sangue que tanto o influencia, porém agora prestes a influenciá-lo também. O primeiro respiro abre, como as velas de uma nau, os pulmões do ser político, enchendo de oxigênio o sangue que nutre suas células e permite que siga vivendo e respirando, vivendo e respirando.

Hoje, e na verdade desde maio, e na verdade desde agosto do ano passado, nasci. Sinto o primeiro choro forte retumbar de mim, sinônimo de vida. Inicio a aventura pequeno e frágil, ainda sem andar, falar ou suprir sozinho minhas necessidades. Só o tempo fará com que meu ser politico cresça, e com o tempo ele aprenderá a usar seu corpo em função do que acredita. Células morrerão e serão substituídas por outras. O sangue continuará a correr.

Um dia, gerarei outro ser político, em conjunto com outros iguais a mim. Por enquanto, alimento o sangue. E uma longa caminhada se estende a minha frente.