Desconstruir

Talvez a palavra do século XXI seja “desconstruído”.

Grosso modo, desconstruir significa confundir dois conceitos. É uma atividade imaginativa, ou no máximo discursiva, que busca confundir conceitos tradicionais, por eles serem muito “metafísicos” ou “binários”.

Por exemplo, confundir os gêneros — e daí surgir os machos desconstruídxs, homens ainda machistas mas de saia. Ou confundir os gêneros literários, que se tornam fragmentados experimentos sem nome. Ou, ainda em última análise, confundir a realidade com a ficção. Derrida, um nietzscheano convicto, disse que realidade é discurso. Ou seja, ele desconstruiu o Real. Tudo se torna uma narrativa do leitor, interpretação subjetiva.

O engraçado é como os teóricos da desconstrução não compreendem que os conceitos tem a ver com a existência da realidade objetiva. Na real, eles negam o pensamento racional e objetivo, que busca a verdade e a realidade, identificando tudo como “metafísico”. No fim, positivam o pensamento sem hierarquias, sem origem, infinito, sem verdadeiro ou falso — um mundo perfeito e desconstruído, criado na imaginação.

A arte e a política são os que mais sofrem com isso, se tornam mais deformados. Por um lado, temos a militância pós-moderna, desconstruída, que parece ter superado as relações de trabalho e classe: trabalhador e patrão podem conversar. E, de quebra, superaram todas as contradições de opressões, se desconstruíram culturalmente. Não é por acaso que o PT e sua juventude abandonou o marxismo e elegeu a pós-modernidade como filosofia.

Por outro lado, temos uma arte pós-moderna, desconstruída, que inventa um mundo de afetos e firulas, focados na dita “autoficção”, mas que nunca dizem um piu sobre o capital. Ficam presos nas suas próprias perspectivas. Pra fechar com chave de ouro, o mundo da indústria e do mercado da arte se torna algo a se valorizar, porque é assim que as coisas são. Não existem mais críticas econômicas, ou verdadeiramente políticas. Até comer banana se torna ato político.

Dia desses uma professora disse que “quanto mais poetizada a vida, mais politizada a vida”. É como se arte fosse igual a política. Isso é desconstruir: ao invés de relacionar arte e política, se identifica os dois conceitos. E, obviamente, confunde a mente pra caralho.

O pós-estruturalismo (de onde vem a palavra “desconstrução”) e outras teorias niilistas são teorias com muitas contradições. Talvez a mais engraçada de todas seja dizer que a “nova esquerda” traz novas perspectivas, dilui as fronteiras modernas do pensamento. Isso porque, pra além das aparências dos discursos, a nova esquerda desconstruída não passa de um filosofia velha: o idealismo.