Venezuelano Deboas

Se não me engano era meu segundo dia de trabalho cuidando do transporte da imprensa no centro do Rio de Janeiro. Um dia antes da abertura das olimpíadas. Era noite, por volta das 22 horas.

Primeiro desce do ônibus uma jornalista brasileira, mas de outro estado — não me lembro qual — perguntando se eu sabia de algum lugar legal para comer por ali. Fiquei na dúvida se indicava a Lapa ou alguma praça ali perto (ambos desertos e perigosos para uma turista ir sozinha no meio da noite). Chega então o Newton — até hoje não sei ao certo o nome dele — o supervisor da noite/madrugada.

Newton é um cara intrigante, gosta bastante de dar uma voada no trabalho pra “ir tomar um sundae” e se envolve até demais com cada caso que surge pra resolver. Dessa vez não foi diferente. Como de costume, ele se ofereceu pra levar a moça até a Praça Tiradentes onde — segundo ele — ficava “uma garotada jovem e descontraída… a galera toda”.

Só que, a um dia da abertura dos jogos olímpicos, não parava de chegar gente. Enquanto eu tentava conversar com a jornalista, Marcão me traz um gringo venezuelano que queria ajuda. Meu espanhol é zero, mas a gente se vira porque os compadres entendem português tanto quanto a gente entende espanhol; mas o buraco é mais embaixo. O companheiro de América queria ir pro Santo Cristo naquela hora da noite sem pagar taxi porque “era muito caro”.

Marcão me ajudou no portunhol e explicamos pra ele que era melhor ir no outro dia mais cedo. O gringo concordou e pediu ajuda pra achar o hotel. Tudo tranquilo até eu descobrir que ele não tinha feito reserva em lugar nenhum em pela Olimpíada, no Rio de Janeiro, 10 horas da noite. Enquanto eu, a jornalista e o Marcão ficávamos embasbacados com a tranquilidade do Hermano em dizer que não queria ficar ali perto porque só tinha hotel caro, chega o Newton — após o seu sorvete da noite — e tranquilamente leva a jornalista na praça pra comer e volta pra levar o gringo em um hostel de um conhecido dele.

Depois ele contou que, havia dois dias, outro venezuelano tinha passado ali com exatamente a mesma história e ele levou o gringo nesse hostel que ficava a alguns quarteirões do nosso ponto de trabalho.

Deu minha hora e fui pra casa sem entender como tem gente nesse mundo que consegue viver tão tranquilamente a ponto de chegar no país dos outros sem saber nem onde vai dormir e ter uma calma que chega a dar raiva.

z