O passeio em duas partes

Parte 1 — “Se Deus fosse bom.”

Nicolas passeava com Medus, seu dobermann, aproximadamente as vinte três e doze. Fazia isso por obrigação, meio que moral — era crueldade deixar um cão tão enérgico quanto Medus em casa o dia inteiro, mas as vezes ele merecia. Nem se deu o trabalho de se arrumar, colocou seu shortinho que terminava nas coxas e que deixava o volume de seu pênis visível aos olhos, vestiu sua camisa Previna-se contra a aids que ganhou do posto de saúde e foi para a rua com o cão.

Ele morde? Perguntou a mais bela moça que Nico já viu. Cabelinho ondulado, visual humaninhas e uma bunda estonteante. Morde não, respondeu Nico. Então a musa fez carícias ao cão, virou-se ao dono e perguntou Qual o nome? Nico, respondeu Nicolas. Você é um cachorrão muito bonito Nico — disse a moça para Medus. Essa falha de comunicação que não durou mais que dois minutos, se estendeu por uma eternidade para Nicolas.

Por que essas merdas acontecem? Se Deus fosse bom não permitia isso. Nico estava revoltado, mas só por dentro. Eu saio todo fudido, com essa porra de short vexatório e me aparece a mais bela mulher do mundo, e eu tô segurando um saquinho de merda! Nem consegui perguntar o nome dele ou puxar um papo, que desgraça, devia ter comprado um gato.

Calma Nicolas, isso é mera trivialidade — discutia ele consigo mesmo em sua própria mente — um filósofo como você não deve se irritar com essa estupidez. Você é como Sócrates! Um esquisitão, um atopos! — Ao menos Sócrates conseguia dialogar com alguém! — Ele se respondia e se irritava com outro ele. Por fora um calmo e inofensivo homem passeando com seu cão. Por dentro era o conflito sangrento de duas ou mais personalidades de um homem.

Parte 2 — “Medos”

Nosso herói quase xará do Papai Noel chega na praça com seu cão as vinte três e vinte uma hora. Lá tira a guia do animal e joga para ele uma bolinha de tênis.

Nico: Sabe Medus, sempre que perguntam se você morde tenho medo de responder que não. Vai que você resolver morder. Não da pra confiar.

Medus: Au!

Late o cão aguardando a bola.

Nico: Da próxima vez vou responder nunca mordeu mas não garanto nada, se quiser fazer carinho é por sua conta.

Medus: Au!

Late o cão aguardando a bola.

Nicolas jogava repetidas vezes a bola para o cão, até perceber o cansaço e o desinteresse de Medus na bolinha que já foi tão amada e desejada por ele. Tenho medo de me casar e acontecer isso — pensou Nico sobre relacionamentos. Colocou a guia de volta no cão e caminharam juntos para casa. Tenho medo de você fugir querido.

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