Comala brasilis
Quando chegou no pueblo de Comala, estranhou. Juan Preciado havia prometido à sua mãe, quando esta, já bem doente, anunciava a sua partida, que iria buscar por seu pai, Pedro Páramo, naquele misterioso lugar.
Ao chegar, descobriu que Pedro estava morto há muito tempo. Em contato com os outros moradores, vai constatando sobre o verdadeiro caráter de seu pai.
O pueblo de Comala, entretanto, vive da memória dos seus já mortos habitantes, que não tem consciência da sua própria condição, num local onde o presente e o passado constantemente atravessam a linha do tempo pra se comunicarem.
Juan Rulfo, no auge da sua genialidade, conta a história desse pueblo que é o protagonista do seu romance, e só se mantém vivo pelas memórias fúnebres dos que ali ficam por não terem sido absolvidos dos seus pecados.
O Museu Nacional, casa de mais de 20 milhões de frações da história, ardeu em chamas. Com ele, seus milhares de habitantes que participaram do processo de construção da história como ela é hoje e a refletir sobre os acertos e as atrocidades do passado.
Contar a história é sempre um exercício de reflexão, de auto-identificação de indignação e de criação de identidade.
O descaso com a pesquisa, com a cultura e com o passado sempre foi um projeto, principalmente para a área das ciências humanas e sociais. A cultura é tão importante quanto saneamento ou saúde — mas destroem a nossa identidade e a nossa memória ao renegar à ela último lugar na fila das prioridades governamentais.
O dano é inimaginável. O Brasil não está num pesadelo porque os efeitos desse crime são concretos e vão ser sentidos ao longo do tempo.
Não é um dia para esquecer. É um dia para ficar na lembrança gritando bem alto que cultura e história também são prioridade e que esse descaso causa danos irreversíveis.
E da mesma forma que Comala, que depende da sua memória pra continuar a existir, nós também necessitamos manter a comunicação com o passado para nos mantermos vivos, porque um povo sem memória é um povo sem futuro.
