Medo da chuva

“Eu sei, você vai rir da minha cara”, ela disse, como se ignorasse a seriedade de tudo o que havia acabado de falar. Ele não riu. Talvez aquilo tudo não passasse de um teste para ver se ele, de fato, queria ficar. Como odiava testes, partiu sem responder. Nunca conseguiu entender essa mania que as pessoas têm de afastar as outras, esperando secretamente que elas permaneçam. Só as pedras permanecem imóveis na praia e, como Raul, ele havia perdido há muito o medo da chuva. Aliás, podia mesmo ser que ele não pretendesse ficar, mas não estava interessado em descobrir. A única certeza que tinha é a de que não pretendia perder tempo pensando nisso: o que não tem remédio, remediado está.

Enquanto se deslocava pelas ruas, lembrou-se ironicamente do diálogo travado entre a indecisa Alice e o risonho gato de Cheshire:

“Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?”
“Isso depende bastante de onde você quer chegar”, disse o Gato.
“O lugar não importa muito…”, disse Alice.
“Então não importa o caminho que você vai tomar”, disse o Gato.

O gato riu da cara da Alice: para quem não sabe o destino que persegue, qualquer caminho basta. Para ele, bastava a certeza de ter tentado. Já não importava se ela tinha preferido um príncipe num cavalo branco ou um amor antigo requentado: nem todo mundo vive numa música da MPB ou numa comédia romântica de Hollywood. O fato é que o mundo é mesmo um moinho e ele tinha vivido o bastante para não querer estar por perto quando ela se desse conta.

Enquanto acendia mais um cigarro, um pensamento finalmente provocou seu riso. O romantismo de Goethe que nutriu na juventude tinha cedido espaço definitivo ao niilismo dos andarilhos: esse caminho de quem não possui mais nada a perder. “Qualquer caminho serve”, repetiu para si, e saiu caminhando a esmo, assobiando a introdução de Like A Rolling Stone.

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