Mulher, 20 anos, mãe de um, universitária. Essa sou eu. Me descrever nem sempre foi fácil, diante de todas as coisas que passei, vivi, senti na pele e por fim segurei a barra das consequências. Era mais fácil quando tinha 13 anos e achava que a vida era uma linda e florida passagem, com pessoas boas e generosas, homens legais e igualitários e com líderes que entendiam o que a gente precisa. Pois bem, não era disso, antes perto, mas longe, a realidade é outra, o que fica é a decepção de tudo não passar de uma utopia.

Nascer mulher não é fácil, nascer mulher e ser mãe aos 20 é desafiador, nascer mulher, ser mãe aos 20 e de um menino é O desafio. Acredito que nada nesse mundo acontece por acaso, a gente recebe exatamente aquilo que temos capacidade de aguentar, e é nisso aí que me agarro todos os dias. Foi muito difícil lá no comecinho quando descobri que estava grávida do pequeno, a primeira coisa que pensei foi “acabou, vou ser crucificada e nunca mais minha vida será a mesma. Não vou mais estudar, ter tempo de aprender novas línguas, viajar, me conhecer e ser egoísta as vezes. É o fim. A vida mal começou e eu já parei aqui? Meus pais? Minha família? Eu? Eu ainda vou existir? Eu, sozinha, singular, será?”.

Desde muito cedo, escutei do mundo que nós mulheres, nascemos para: crescer, casar, gerar e viver integralmente em prol desse ser que tá sendo formado, mas espera, eu não sou casada, não estou nem perto do que entendem ser casamento... será que vão entender quando eu tiver que explicar que tenho um filho mas não sou casada? Desculpem, me perdi nessa linha que deveria cumprir com êxito, me confundi e virei para a esquerda quando deveria ter ido pela direita.

Como encarar os olhares de decepção dos familiares, dos amigos e conhecidos, o desapontamento já que sou mulher e deveria agir como tal... eu simplesmente quebrei um padrão que foi criado há tempos, quando diziam o que deveríamos ou não fazer, como nos vestir, como SER, esse padrão que é tão encorajado a continuar existindo depois de tantas lutas, lutas essãs intermináveis, eu mesma estou aqui agora escrevendo isso com a intenção de tocar algumas pessoas. E sou vivente do séc XXI, 2017. Bom, a má notícia é que tudo que disse acima, todo esse pensamento machista e ruim, existe, e existe muito. A boa notícia é que eu não me integro dele, eu repudio e faço discurso de amor a quem tenta me convencer de que ele é bom. Eu tenho medo, nojo, tristeza por ver o quanto ele é repassado.

Depois de ter reprovado na prova de como ser o ser humano perfeito e ter pensado e repensado em todas essas questões que fazem infelizmente parte do nosso cotidiano, por fim decidi que iria enfrentar isso e do jeito que acreditava ser o certo, sadio, prazeroso e humano. Enfrentar os olhares, os discursos de reprovação, a dificuldade de me integrar no mercado de trabalho, o desafio de criar o pequeno nesse mundo onde desde cedo ensinam que o homem é um ser inabalável, insensível, machista, dominador, soberano e macho. Sim, eu aceito o desafio de criar meu menino em meio a tantos dizendo a ele como um homem deve ser. Linha tênue entre desafio e sorte. Sorte poder ter a chance de crise um pequeno e poder passar pra ele que não é assim. Nunca vai ser assim aqui na lista de coisas que quero ensinar pra ele. Vai ser diferente, sensível, mutável, bonito, igual, sincero e libertador com sabor de missão cumprida.

Agora eu escrevo isso com meu menino aqui do lado e olha que extraordinário, nada mudou, estou fazendo duas coisas que amo, escrever e cuidar dele. Continuo sendo eu, só que muito mais certa que nem tudo que propagam por aí sobre maternidade tá tão certo assim. Vou continuar estudando, lendo, escrevendo, viajando e aprendendo, sendo mãe. Não preciso ser casada pra isso, nem deixar de ser quem eu sou. Só quero ser mais. Tenho mergulhado e explorado partes minhas que nem sabia que existiam, minha busca é essa.

Estamos juntas.

Gabriella Lacaille

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