Cotidianos.

Espera. Coloca a cabeça para frente, olha ao fundo. Nem sinal do trem. Contorce-se para o relógio acima de sua cabeça: 6h47. Guarda o celular entre o cós da calça e a calcinha, assim é mais seguro. A noite seus pensamentos a atormentaram, mas agora só consegue se focar nas horas. Espera. De novo estica o pescoço. Um rapaz se coloca ao seu lado; junto a ele, um menino franzino e com cara de sono segura sua mão – ou é segurado por ela.

O menino coça os olhos com a mão espalmada. O rapaz mexe no celular. Aonde vão? ela gosta de devaneios. Ela sorri para o menino. Já não pensa nas horas, nem no atraso. Pensa que o trem chegará cheio e o pobre terá de lidar com as primeiras espremidas da vida. São tantas.

O trem vem fazendo barulho. A moça, o rapaz e o menino estão atrás da linha amarela. A porta abre. Entram. Ela não vê mais o menino, mas o sente entre as suas pernas e as do rapaz. O desconforto tem diversos pontos de vista. Não se ouve nenhuma reclamação do menino; sequer sua voz. Deve ter experiência. Ele pousa uma das mãos em seu joelho, aperta; ela sente o calorzinho de sua mão. As portas apitam. Fecham. Ela quer ser mãe. Coloca sua mão sobre a mão do menino. Ele não retira a dele. Isso a remete a seu pai; dele só lembra das mãos firmes e seguras. Pensa que gostaria de ser o suporte de alguém, nesse mundo sem suportes e com trens lotados. Ela pega o celular: 6h51. Não chegará atrasada, afinal.

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