Dilma e os xingamentos machistas

Muitas pessoas usam xingamentos sexistas contra a presidente Dilma Rousset para expressar suas opiniões.

Texto de Gabrielle Russi.


Durante todo o processo de impeachment, muitas pessoas manifestaram suas opiniões, se dizendo a favor ou não do processo. Nas redes sociais e nas ruas, durante as manifestações, era comum ouvir e ver cartazes de pessoas que são a favor do afastamento da presidente, se referindo a ela de modo agressivo e ofensivo, com palavras de baixo calão, e, na maioria das vezes, as agressões não entravam no mérito político e tinham um caráter sexista, a ofendendo como mulher.

“Vagabunda”, “vadia”, “gorda”, “feia” eram apenas algumas das ofensas. Uma misoginia explícita. Porque uma coisa é ser chamada de incompetente e ouvir críticas ao seu regime político, outra bem diferente é ser chamada de “vaca” e “biscate”. São ofensas sexistas e machistas, afinal será que se a Dilma fosse um presidente homem, lhe direcionariam o mesmo tipo de xingamentos? Será que um político homem recebe esse mesmo viés de ofensas? Podemos nos perguntar como, com tanta luta contra a desvalorização da mulher sendo travada, é possível esse tipo de xingamento contra a presidenta ser considerado normal para expressar oposição à sua política.

Durante a abertura da Copa do Mundo, em 2014, a torcida insultou a presidente em uníssono. Na ocasião, o jornal O Globo publicou uma reportagem na qual especialistas analisaram o fato como algo motivado por valores conservadores e divergências ideológicas em relação à presidente. A socióloga Ana Thurler afirmou que achava pouco provável que fizessem isso para o Fernando Henrique ou para o Lula.

No dia 8 de março de 2015, Dia Internacional da Mulher, Dilma Rousseff fez um pronunciamento em rede nacional. Centenas de brasileiros foram até as janelas e sacadas dos prédios e bateram panelas para se manifestar contra a presidenta. Além do barulho, foi possível ouvir xingamentos como “vaca”, “puta” e “arrombada” direcionados à presidenta. O Jornal El País publicou uma matéria com Jacqueline Pitanguy, coordenadora-executiva da CEPIA — uma ONG voltada para a execução dos direitos humanos das minorias. Para ela, o episódio foi ocasionado pelo ódio na política e isso faz vir à tona preconceitos que às vezes ficam maquiados.

Além dos insultos, ainda há as piadas sobre sua sexualidade. Há muitos comentários dizendo que a presidente “precisa arrumar um namorado” e “precisa fazer sexo”. Há ainda as piadas que mencionam o seu estupro, tanto o que ela já sofreu durante o Regime Militar, quanto com o estupro que gostariam que ela sofresse, como no caso do adesivo para bombas de gasolina que simulava um pênis entrando em sua vagina.

Em março deste ano, a ONU Mulheres Brasil divulgou uma nota na qual condena a violência de ordem sexista que vem sendo praticada contra a presidenta Dilma Rousseff. “Nenhuma discordância política ou protesto pode abrir margem e/ou justificar a banalização da violência de gênero”, diz o comunicado, assinado pela representante da entidade, Nadine Gasman.

Como será que é governar vendo, ouvindo e vivendo esse tipo de coisa? Os homens não precisam se preocupar com isso. Será que essa agressividade e ofensas gratuitas e odiosas para uma figura pública constantemente avaliada não impacta uma mulher que precisa governar, exercer autoridade e fazer escolhas? Neste sentido, ser mulher é uma dificuldade no meio político, assim como em qualquer lugar da sociedade, porque os homens passam incólumes física e psicologicamente por esse tipo de situação.


Editorial desenvolvido para a disciplina de Assuntos Contemporâneos, ministrada pelo professor Paulo Camargo, no curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.