Quando a relação machuca

Números da Delegacia da Mulher de Curitiba mostram que denúncias de ameaça são maiores do que os por agressão física. Porém, quase não se fala nas lesões psicológicas. Muitas mulheres estão ou já estiveram em relacionamentos abusivos.

Texto: Gabrielle Russi
Fotos:
Fabrício Calixto
Produção: Vinícius Frank Vaz


A violência é muito presente na vida de várias mulheres. A quantidade de denúncias de agressão física dentro dos relacionamentos é muito alta. Só de janeiro a março deste ano, a Delegacia da Mulher de Curitiba registrou 308 boletins de ocorrência. Porém, a agressão física não é a única forma de violência que muitas vítimas sofrem. As relações abusivas são muito comuns e, em muitos casos, deixam consequências psicológicas sérias.

Em maio de 2016, a Delegacia da Mulher de Curitiba registrou 253 ocorrências decorrentes de ameaças e 256 por injúrias. Só em terceiro lugar é que estão os por lesões corporais, com 137 registros. Com esses números é possível concluir que os abusos psicológicos são mais frequentes do que os físicos, porém, as pessoas se indignam mais com crimes onde há agressão, se esquecendo dos emocionais. Em muitos casos, um relacionamento abusivo pode se tornar algo mais sério, como nos casos que veremos a seguir. Todas as histórias relatadas aqui são verdadeiras e apenas os nomes foram modificados, a pedido das entrevistadas.

Mas o que são relacionamentos abusivos? Sabe aquela sua amiga, irmã ou prima que reclama do ciúme obsessivo do seu parceiro? Que mudou seu jeito de se vestir e seu estilo para agradar seu companheiro? Que escuta xingamentos, ofensas e difamações do namorado ou marido? Que está mais triste, chorona, com baixa autoestima devido à relação? Que largou os estudos, o trabalho ou as coisas que gostava de fazer? Que escuta ameaças e acusações do parceiro? Ela está em uma relação abusiva.

E você deve estar se perguntando por que ela aceita passar por isso, por que não termina. Os motivos são diversos: porque ela não consegue, porque talvez ela não enxergue que passe por essa situação, porque o parceiro a ameaça quando tenta terminar ou porque, devido a sua criação, ela considera aquele tipo de relação aceitável, sofre, mas cede, pois acha que é normal.

Como é o caso da consultora de imagem Heloísa*, de 28 anos. Ela conta que sua relação com o pai na infância e adolescência sempre foi beirando posse, pois ele era ciumento, exigente e extremamente cuidadoso e, por isso, sempre buscava agradá-lo. Após a separação do seus pais, quando tinha 16 anos, começou a namorar um homem mais velho e, pouco antes de completar um ano de relacionamento, decidiu morar com ele. A relação durou cinco anos, mas foi extremamente conturbada.

Ela conta que esse rapaz era muito parecido com seu pai: era machista e tinha opiniões fortes. Durante a relação, sofreu muito. Sentia-se como uma propriedade do seu namorado. Todo seu salário ia para ele e ela não tinha autonomia financeira. Foi forçada a mudar o jeito como se vestia e como se relacionava com as pessoas. Afastou-se se sua família e ele não a deixava ter amigos. “Minha vida era bem vazia. Ele me acuava e eu não fazia muitas coisas por sentir medo.”

Para a psicóloga Edilene Lourenço Gomes, a Delegacia da Mulher tem um excelente projeto de proteger e acolher a mulher que sofreu agressões, mas muitas vezes a mulher está muito fragilizada e não quer expor a sua dor, se considera um fracasso pessoal e tem medo da violência e ameaças do companheiro. Para ela, esses casos acontecem porque existe uma cultura machista muito forte, porém tem o agravante de doenças psicológicas, como a bipolaridade e o descontrole emocional. “Há casos em que existe só o machismo, mas há aqueles nos quais ocorrem só os transtornos emocionais. Mas o pior é quando os dois aspectos estão presentes. Isso agrava a agressividade e o companheiro sofre muitos danos psicológicos.”

Ana*, de 24 anos, estuda Medicina na Unicesumar de Maringá. Loira natural, ela adora brincar com as cores, gosta de maquiagens coloridas e batom vermelho, já pintou as pontas de seus cabelos de diversas tonalidades e vive cortando em comprimentos diferentes. Sua personalidade alegre contrasta com a história que viveu. Quando tinha 16 anos, começou a namorar Carlos* e, se no início ele parecia alguém legal, logo começou a se mostrar possessivo. Ele queria as senhas de suas redes sociais. Não podia cumprimentar ninguém do sexo masculino sem que ele fizesse perguntas acusatórias e não podia sair sozinha.

Após alguns meses de namoro, ele começou a ameaçar um garoto com quem Ana havia se envolvido antes de conhecê-lo e, um dia, em uma discussão sobre isso, ele a bateu. Ela conta que se fosse hoje, teria tomado alguma atitude, mas naquela época não sabia o que fazer e não queria contar aos seus pais e amigas por vergonha.

“Foi horrível. Eu tentei terminar e ele ameaçou a mim e a minha família. Então eu continuei quieta, fazendo tudo o que ele queria para evitar algo ruim.”

Juliana*, de 28 anos, foi outra mulher a sofrer uma relação abusiva, que durou seis anos. O conheceu quando cursava o segundo ano de Psicologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Ele não gostava que ela fizesse trabalhos com amigos. Ouvia ameaças, ofensas e acusações. Quando se formou, em 2010, ele não queria que ela atendesse homens. Controlava seus horários. Ela acabava fazendo o que ele queria para agradá-lo e para que não terminassem. Tinha uma grande dependência emocional. Acreditava que tudo em seu relacionamento era sua culpa: que era ela que fazia ele ter ciúmes e desconfianças e que ele agia daquele modo pelo maneira como se portava.

“Ele dizia que eu era um lixo e isso fazia com que eu me sentisse assim, porque eu aceitava.”

Ela chegou a sofrer um abuso sexual. Eles estavam brigados, foram a uma festa e ele exagerou na bebida. Quando voltaram para casa, estava descontrolado. Segundo Juliana, ele estava diferente e parecia possuído. Foi para cima dela e ela viu que não ia conseguir se defender. Não ofereceu resistência, mas não queria aquilo, não consentiu. Ele não a escutava, estava agressivo. Para ela, aqueles foram os momentos mais longos da sua vida e nunca sentiu tanto medo como naquele dia.

Autoestima

Edilene conta que atende muitas pacientes que sofrem agressões físicas e morais, principalmente acima dos 40 anos, que para ela é uma faixa etária que a cultura machista é mais forte. “Os danos são devastadores para a autoestima. Muitas vezes elas se mantêm num relacionamento doente por causa dos filhos ou da situação financeira, impedindo que elas tomem alguma atitude.”

Juliana chorava constantemente durante seu relacionamento, sua autoestima era baixa e parou de se cuidar. Não se arrumava para ir à faculdade para evitar brigas, emagrecia e engordava durante curtos períodos de tempo. Hoje, é uma pessoa tímida e introvertida, mas se esforça para ser sociável. Para ela, mulheres que entram em relacionamentos abusivos e permanecem é porque não estão bem consigo mesmas e não conseguem impor limites.

“Elas não conseguem mostrar ao parceiro que merecem ser respeitadas porque elas próprias não conseguem se respeitar.”

Heloísa sofria abusos psicológicos contra sua autoestima. Ouvia coisas do tipo “você nunca vai ser magra o bastante, nunca vai ser gostosa o suficiente”. Isso fez com que ela desenvolvesse uma relação triste com seu corpo. A menina que sofreu essas situações em nada se parece com a mulher que Heloísa se tornou. Com seus cabelos curtos castanhos e seus grandes olhos, é dona de uma personalidade marcante, trabalha com moda e estilo, ajudando outras mulheres a se redescobrirem.

Feminista e defensora dos animais, luta por seus sonhos e ideais. Largou uma carreira de sete anos como administradora e decidiu escolher uma profissão movida a paixão. Está sempre arrumada, gosta de se sentir bonita e, por já ter passado por essa fase, decidiu conciliar sua carreira com a vontade de ajudar mulheres que estão passando por transições e precisam resgatar seu amor-próprio.

Termino

Quando se está nesse tipo de relacionamento, o término pode ser conturbado. É comum o parceiro não aceitar, fazer ameaças e ficar agressivo. Muitos casos chegam a ter consequências fatais. A psicóloga Edilene Lourenço Gomes cita como exemplo o caso polêmico do policial que matou a namorada após o término. “O ciúme é um descontrole emocional e se a pessoa é violenta, o medo de enfrentá-la é muito grande.”

O relacionamento de Heloísa terminou quando ela tinha 22 anos e estava cursando Administração no UniBrasil. Um colega de turma passou a demonstrar interesse por ela e a fazer vários elogios. Ela começou a perceber que o que vivia era bobagem, que seu namorado pensava e fazia aquilo para acuá-la. Passou a se impor e decidiu terminar o namoro. Chegou da faculdade à noite e, como morava com ele e não tinha carro, falou que ia embora e depois buscava suas coisas. Ele não aceitou. A expulsou de casa e disse para tirar tudo, pois o que ficasse ele iria dar fim. Foi obrigada a abandonar seus cachorros. Antes de partir, ele a agrediu fisicamente.

“Não deixou marcas em meu corpo, mas deixou na minha vida.”

Para Ana, a gota d’água em seu relacionamento foi quando foram em uma festa na casa de amigos e Carlos queria ter relações sexuais no local. Quando ela negou, ele a acusou de traição e a arrastou para um quarto. A agarrou à força, jogou na cama e subiu em cima dela. Ela começou a gritar desesperadamente e um amigo forçou a entrada no quarto, evitando que algo acontecesse. Após o ocorrido, em um domingo, quando Carlos ligou para Ana, ela negou sair com ele e disse que se sentia esgotada. Ele foi até sua casa e a arrastou para o carro. Ele ficou com raiva, começou a correr e a furar todos os sinais. A levou para o meio do mato e disse que ela ficaria com ele viva ou morta.

Ela o convenceu de que não terminaria com ele, mas não conseguiu parar de chorar. Carlos a deixou em casa e terminou a relação. Mas a situação não acabou por ali. Ele ligou para Ana querendo voltar e, quando ela recusou, a ameaçou de morte. Nesse momento, ela contou aos seus pais. Ela sentia medo e evitava sair sozinha.

“Hoje me sinto muito mais forte porque jamais deixaria isso acontecer novamente.”

Para Juliana, o fim do namoro foi por conta das brigas e do desgaste. Os dois estavam insatisfeitos, mas partiu dele. Ele conheceu outra pessoa e começou a flertar com ela pela internet. Ela ficou de luto até fim de 2014. Mas, hoje, diz já estar melhor, mais forte e jura que jamais voltaria com ele.

“Ainda restam algumas magoas, não sei se isso um dia vai passar, mas vivo minha vida. Feridas cicatrizam, mas deixam marcas.”

A delegada Sâmia Cristina Coser, da Delegacia da Mulher de Curitiba, explica que para a mulher registrar um boletim de ocorrência ela precisa contar um fato ocorrido, pois, o que importa é a violência praticada em dia, hora e local certo e dentro de um determinado lapso temporal. Ressalta que não é só agressão física que pode ser registrada, se o fato e a conduta do agressor configurarem qualquer crime contra a legislação penal, ele pode ser denunciado.

Ela conta que a maioria das mulheres chega à delegacia falando em fatos que sempre ocorrem, mas sem precisão e nesses casos, ela não pode transformar isso em uma ação judiciária posteriormente. “É importante que as pessoas entendam que mesmo que a mulher tenha sofrido violências a vida inteira, o homem vai ser punido pelos atos que ela consiga descrever e isolar.”

Tratamento

Edilene afirma que o tratamento indicado para esses casos é a terapia, para trabalhar as causas, a questão da autoestima e de como enfrentar a situação e seus medos e, em alguns casos, é necessário a introdução de medicamentos. Isso acontece porque algumas mulheres que passam por essa situação acabam desenvolvendo um quadro de depressão, ansiedade ou crises de pânico.

“A violência sempre traz danos muito grandes.”

Mesmo antes do fim do relacionamento, Juliana já frequentava uma terapeuta e, para ela, foi isso que a ajudou a se entender, se conhecer melhor e recuperar sua autoestima. Ela afirma que já estava meio preparada para o fim, mas que a forma como tudo acabou foi péssima. Foi sua analista que a ajudou a se reerguer e a pensar em superação.

“Eu já vivia antes dele e ia continuar vivendo, só que mais feliz, mais eu de verdade.”

Mesmo após anos de término, Heloísa carregava consigo um sentimento de culpa, desenvolveu uma depressão e decidiu procurar ajuda de uma psicóloga. Só então começou a entender a condição que viveu e aceitar que não era culpada pelos anos de relacionamento abusivo que sofreu. Compreendeu que foi a vítima e não a culpada.

“Eu me considerava uma burra por não conseguir sair, mas quando você está dentro desse tipo de relação, você acha que não é boa o suficiente para nada, nem para sua vida, nem para a vida de ninguém. Somente dez anos após que tudo aconteceu, é que consigo dizer que não sofro mais por isso.”
  • Nomes fictícios utilizados a pedido das entrevistadas.

Matéria desenvolvida para a disciplina de Produção Editorial para Revista, ministrada pelo professor Paulo Camargo, no curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
Publicada na versão impressa da revista CDM.