Eu finalmente entendi por que você odiou Os Últimos Jedi. E você está errado.

Antes de mais nada, não custa deixar bem claro para todos os leitores deste texto/crítica/desabafo que o que vocês lerão abaixo do presente parágrafo está recheado dos tão odiosos, temidos e mal fadados spoilers. Leia apenas se já tiver assistido o filme (a saga inteira, aliás) ou se tiver a couraça grossa para aguentar uma discussão bastante aprofundada acerca da última aventura da novela espacial mais amada de todos os tempos sem que suas retinas tenham a testemunhado (o que eu entendo ser um problema que deva ser sanado o mais pronto o possível).

Mas, antes de entrar propriamente numa discussão acerca do último fascículo da franquia, eu gostaria de explicar o porque quando todos me perguntam meu filme preferido de Star Wars, eu respondo tão prontamente que é O Império Contra Ataca. A reação de muitos é concordar porque se tornou comum dizer que este é o melhor filme de toda a franquia, simplesmente porque todo mundo diz. A reação de outros é simplesmente ignorar ou dizer que apenas gosto de Império porque todo mundo diz ser o melhor. Permitam-me elaborar melhor e responder à pergunta que ninguém perguntou: Por que O Império Contra Ataca é meu filme preferido de Star Wars.

Tirando do caminho toda a primazia técnica da direção de Irvin Kershner, Império constrói em cima dos alicerces fixados em Uma Nova Esperança algo completamente novo e (frisa-se) surpreendente. Vejamos como o filme acaba: o trio de heróis estabelecidos no primeiro filme não está mais unido, a última esperança da galáxia descobre ser descendente direto do homem que mais odeia, a rebelião sofre uma dura derrota em Bespin. O que tornou Império um filme tão importante na história da cinematografia mundial é o fato de quem teve a oportunidade de assistir no momento de seu lançamento ou assistir pela primeira vez após sem ter nenhum conhecimento da franquia (o que beira a impossibilidade, uma vez que a célebre frase de Darth Vader à ponte do Star Destroyer é conhecida universalmente, além de ser o maior ponto de virada da franquia) terminou o filme surpreso e sem saber o que esperar do futuro da franquia.

Avançamos quase 30 anos na história, os estúdios do camundongo mais famoso da história adquiriram a franquia mais célebre da história, que foi reavivada num ótimo sétimo episódio. Ótimo, porém nada surpreendente. Já é letra morta falar (frisa-se, falar, não estou reclamando) acerca das similaridades entre O Despertar da Força e Uma Nova Esperança. O filme faz bem esse papel: dizer para o público que aquela história finalizada em 1983 está de volta. Que se fará jus aos filmes anteriores.

Os Últimos Jedi vem e quebra justamente a ilusão de que a nova trilogia seria apenas uma homenagem ao já estabelecido. O filme pega todas as expectativas que foram fixadas, teorizadas, analisadas pelos fãs e descarta para a apresentação de um horizonte completamente novo para a franquia. Assim como Império fez.

E eu sei que isso te irrita. Eu sei que você queria Luke Skywalker empunhando seu sabre de luz e liderando a resistência numa épica batalha de quase paridade com a Primeira Ordem. Eu sei que você queria uma longa e épica luta entre Kylo Ren e Luke Skywalker. Eu sei que você queria que Luke retomasse para si o protagonismo da série, sendo um mestre dedicado e atendendo de pronto o chamado da Resistência quando a Rey entrega o sabre de luz que se tornou a relíquia mor da família Skywalker.

Eu sei disso. Rian Johnson sabia disso. E, como Luke fez com a relíquia supra mencionada, pegou todas as expectativas e jogou fora. Fez algo novo.

Antes de continuar, gostaria de deixar meus kudos para a ousadia que a LucasFilm (e principalmente a tão conservadora Disney) está tendo com este material. Me surpreendi com Rogue One e me surpreendi novamente com o capítulo deste ano da saga regular.

Retornando a discussão. O filme começa no que parece ser um lugar comum (e reconfortante para o fã médio) na franquia, que é a Primeira Ordem se mostrando superior e levando a luta à Resistência. A República se foi novamente. O ambiente dos filmes originais parece restabelecido, com a Rebelião sendo os Cavalos Paraguaios desta guerra que retornou. Você gostou disso. Ver Star Destroyers perseguindo a rebelião e X-Wings lutando contra as massivas naves imperiais. “Isso é Star Wars, eu gosto disso”, você pensou.

Aí Luke joga o sabre que foi dele (e de seu pai anteriormente) fora como se nada fosse. Luke demonstra desinteresse em treinar Rey. “Eu também gosto disso! Yoda demonstrou desinteresse em treinar Luke também”, você já na beira da poltrona do cinema (o que, aliás, atrapalha a pessoa sentada atrás de você nas salas com formato mais stadium, então pare de fazer isso).

Descobre-se uma ponte entre Rey e Kylo Ren. “Ora, já vimos essa ponte antes! É óbvio! Rey é irmã de Kylo Ren, a legítima herdeira Jedi dos Skywalker!”. O filme se concentra justamente em manter e alimentar as suas expectativas e suas teorias durante uma boa parte dele. Você está muito satisfeito com isso.

Então você descobre que Luke quase matou seu sobrinho por medo. Você descobre que a ponte entre Kylo Ren e Rey é apenas uma artimanha de Snoke. Rey é filha de um casal de delinquentes que a trocou por dinheiro. Que o retorno de Luke Skywalker ao fronte de batalha da Rebelião era apenas uma projeção (o que demonstra de forma clara que Luke Skywalker pode ter sido o Jedi mais poderoso que já viveu). Que Luke Skywalker não retornará mais ao fronte de batalha.

Eu sei que você está decepcionado. Que você internalizou que o herdeiro de Anakin era a última esperança da galáxia.

Mas se você odiou o filme por causa disso, você está errado.

O trabalho de Rian Johnson neste filme é de longe o mais complexo e mais profundo realizado até hoje na franquia. Os pontos deixados ao final deste filme demonstram que, por mais que conheçamos a fundo a história de Star Wars, com análise detalhada de cada filme e de cada pedaço Universo Expandido (o que eu, como fã absoluto, não me envergonho nem um pouco de dizer que faço), nada disso importa.

Nós não sabemos o que vai acontecer daqui para frente.

Eu considero assistir Os Últimos Jedi a experiência mais próxima que já tive de assistir Império sem saber nada. Eu saí do cinema com todas as minhas expectativas quebradas. Com situações ocorridas que eu nunca imaginaria que seriam feitas. Caminhos trilhado que nem os mais teóricos imaginariam.

Acompanhando os mais diversos rumores, desde os mais banais até mesmo do mais absurdo (que nesse caso, foi o de que Rey seria a reencarnação de Anakin), todos se baseavam na manutenção da história central na família Skywalker. Este filme comprova uma coisa apenas: a história que Star Wars conta não é dos Skywalker. E da guerra estelar. Movida por motivações políticas e religiosas (parece familiar pra você?).

Eu saí do cinema com lágrimas nos olhos e com grandes expectativas. Pela primeira vez, eu assistia um filme desta saga sem a mínima ideia do que virá. Teorizando de formas tão diversas, tantas possibilidades. Um horizonte completamente novo nesta guerra entre a Luz e o Lado Escuro da Força. Entre um governo totalitarista e uma rebelião buscando a instituição de uma República.

Eu não sei o que vai acontecer.

Eu sei o que você esperava do filme. Eu também esperava. E estou feliz porque é justamente o contrário que recebi.