Las Katharsis (1934–1935), José Clemente Orozco.

Notas sobre a América Latina

A América Latina é um labirinto de tensões, taquigrafadas ao longo dos séculos. Um jogo de relações de poder, historicizadas nos tempos pré-colombianos e vividas pela contemporaneidade. É um mosaico de povos transculturados pelas relações mutuas entre europeus, indígenas, africanos e mesmo povos orientais imigrantes.

A procura por uma narrativa que descreva esse labirinto não é a busca por um descobrimento teórico que enquadre bem a América Latina. Mas sim o exercício de compreender a confluência de forças e atores sociais postos neste tabuleiro de múltiplos arranjos. Como tentar descifrar um enigma, estamos em um movimento pendular interminável compreender, e encontrar, reeditar, um — ou no plural — pensamento latino-americano.

Nesse sentido, abaixo levantamos algumas notas, alguns recortes, fruto e um primeiro contato com as tentativas de compreensão das dinâmicas próprias de nosso continente. O texto é uma síntese, uma breve fala sobre as sociedades pré-colombianas, a invasão europeia, o genocídio promovido contra populações tradicionais, a violência da escravidão, os (des) caminhos do capitalismo e o imprescindível valor sociopolítico e simbólico das resistências.

Aqui já existiam civilizações robustas, com relações de produção tributária e hierarquia de classes. Encontravam-se ao oeste e ao norte da América do Sul. Os sistemas de produção funcionavam com tributos e as relações de hierarquia baseadas na religião e no desenvolvimento das relações com um centro de poder. Possuíam altos níveis de organização militar, religiosa e comercial. As terras do Leste eram ocupadas por nações indígenas auto suficientes e dispersas.

Por extensão, os espanhóis também encontraram e destruíram grandes civilizações originárias, que já estavam organizadas. Em outros territórios as populações comunitárias originárias de auto suficiência, que estavam dispersas, foram outrora dizimadas pelo Império Português. A história da América Latina após a invasão europeia é dominação e exploração, jogado, principalmente, pela Espanha e por Portugal.

Em 1990, Shun Ljon — indígena Maya da Guatemala — faz um grito claro e verdadeiro do projeto de conquista e dominação da Península Ibérica,

pero no sé si realmente fue una conquista, para nosotros no lo fue, sólo fue una acción de massacre, de asesinato.

Um grito maya, que reverbera com a história da imensidão de povos indígenas que aqui viviam e conviviam, em sistemas próprios, antes da chegada dos invasores. Contrapõe toda a ideia de catástrofe populacional pós “descobrimento”, sobrepondo-a com a narrativa de massacre populacional contra os indígenas.

Soma-se a esse contexto a violenta desterritorialização forçada dos africanos, em função da escravidão. Leda Maria Martins (1997) apresenta em suas palavras:

Assujeitados pelo perverso e violento sistema escravocrata, tornados estrangeiros, coisificados, os africanos que sobreviveram as desumanas condições de travessia marítimas transcontinental foram destituídos de sua humanidade”.

A diáspora forçada dos africanos, rumo às Américas, é historicamente um dos traços fundamentais da dominação européia sobre os povos latinos.

Ainda, os teóricos como o sociólogo Florestan Fernandes estratificam e estudam a história do capitalismo em nossas terras. Sua formação, suas características, seu desenvolvimento multifacetado — mercantil, comercial, industrial — , sua voraz exploração de toda e qualquer mão de obra, desde que os Europeu pisaram em nossas terras. Uma superexploração cruel que inscreveu, na história da América Latina, a submissão às elites e aos interesses das economias centrais.

Atentos ao passado, encontramos muitos elementos que nos permitem encarar a colonização do Império Espanhol e Português como um projetos de invasão sucedidos pela dominação. Por outro lado, as resistências também são um valor político, simbólico, material da vida e história de todos os povos que se pretendeu dominar. Logo, a resistência dos dominados foi o efeito colateral da expansão mercantilista, foi resposta que emergiu dos povos colonizados que se sentiram ameaçados com a hostilidade das elites econômicas.

Estamos frente a luta política e cosmológica dos indígenas e dos negros africanos e seus descendentes contra o colonizador. Frete as resistências, com todos seus problemas ideológicos, de caráter nacional por independência. Frente s a luta contra a submissão às elites, contra o imperialismo, culminando, outrora, em revoluções. O conjunto social da América Latina vive, passado e presente, os elementos que encarnaram os abismos de desigualdades e violências que ainda vivemos.

Todo esse esforço nos permite compreender a superexploração capitalista da América Latina. Ainda, a desterritorialização dos negros africanos que resultou em diferentes dinâmicas sociais, nas diversas regionalidades. Ainda, os indígenas viveram um processo de genocídio que também desenvolveu dinâmicas muito próprias do continente. Portanto, o que hoje chamamos e entendemos como país na América Latina é uma das conseqüências do colonialismo europeu e todas transformações subsequentes.

Destarte, é na procura de uma narrativa que praticamos o exercício de compreender a confluência de forças e atores sociais postos no mosaico latino americano e caribe. Não que já deciframos deciframos o enigma, no entanto, ao menos buscamos cada vez mais o pensamento latino-americano. Logo, é na caminhada dos séculos que podemos prestar nosso pensamento à serviço transformação e superação das desigualdades sociais, que como faca cortam as sociedades latino-americanas.