Confira na íntegra a publicação do Olofmeister para a The Players’ Tribune traduzida para o português.

A The Players’ Tribune é uma plataforma online que publica conteúdos produzidos por atletas profissionais dos mais variados esportes e que busca dar a esses atletas um canal para que possam se expressar e contar suas histórias a partir de seu ponto de vista. O site já recebeu contribuições de grandes nomes do esporte mundial como Fernando Alonso, Tiger Woods e Kobe Bryant e hoje, publicou pela primeira vez, um nome relacionado ao Counter-Strike.

No artigo intitulado “New York City Huge”, Olofmeister conta um pouco sobre sua trajetória como profissional, a lesão que o afastou por meses do cenário e do espanto com as proporções alcançadas pelo Counter-Strike. Confira abaixo a versão traduzida:

Foto retirada da hltv.org

“Oi. Meu nome é Olof Kajbjer Gustafsson. Meu trabalho é jogar video-game. E no ano passado, eu me lesionei jogando Counter-Strike.
 
 É, eu sei, isso soa meio… louco. Mas aconteceu. Eu torci meu cotovelo direito de alguma forma. Muito provavelmente por fazer os mesmos movimentos com o mouse e teclado repetitivamente. Eu fui pra diferentes médicos e fisioterapeutas, mas nenhum deles pode chegar a uma conclusão do que havia de errado comigo. Não havia nada que eu pudesse fazer a não ser ficar algumas semanas longe do game e esperar a dor passar. Foi muito frustrante.
 
 Em maio de 2016, durante minha recuperação, eu viajei da minha casa na Suécia para Nova York. Numa noite eu estava no meu hotel assistindo as finais da NBA na televisão. O jogo era Oklahoma City vs Golden State — Stehph, Klay, Russ e KD estavam acabando com o jogo. Então,do nada, no canto da tela, meu rosto apareceu acompanhado de uma propaganda de e-sports ao vivo na TBS.
 
 Foi muito DOIDO — todos aquelas super-estrelas americanas na TV e de repente… bam! Olof! Eu sabia que o CS estava trabalhando com emissoras nos EUA, mas nunca imaginei que erámos tão grandes.
 
 Eu não conseguia acreditar. Esse jogo que eu comecei a jogar no meu quarto quando era apenas uma criança de repente era enorme. Enorme tipo NOVAFUCKINGYORK. Eu sabia disso, claro, mas foi a primeira vez que eu realmente vi isso. Isso foi… estranho.
 
 Se você acompanha e-sports, você talvez me conheça como “olofmeister”. Você talvez não me conheça bem, claro, mas como eu gosto de dizer: 
 
 Eu não sou o melhor jogador de CS do mundo.
 
 Mas não tem ninguém melhor.
 
 Nesse ponto, você deve estar se perguntando por que todo esse alvoroço ao redor disso. Permita-me, então, te dar uma introdução de 30 segundos sobre o Counter-Strike.
 
 Basicamente, o CS é um FPS( Jogo de tiro em primeira pessoa), parecido com o Call of Duty, mas tipo, muito, muito melhor. Nós jogamos apenas um tipo de jogo: ‘’defuse a bomba’’. É bem simples. Há dois times, os terroristas e os contra-terroristas. A missão de cada time é bem direta. Os terroristas tem a bomba e um minuto e 55 segundos para planta-la em um dos dois locais de um mapa. O trabalho dos contra-terroristas é elimina-los ou defusar a bomba caso esta seja plantada.
 Se a bomba explodir, os terroristas ganham.
 
 Cada partida é melhor de 30. O primeiro time a ganhar 16 rodadas é o vencedor.
 
 Entendeu? Ok, bom.
 
 Counter-strike é o FPS mais popular do mundo atualmente. Existem eventos enormes a cada dois meses e uma fan base que faria algumas ligas de esportes profissionais parecerem pequenas. Mas nem sempre foi assim. Há apenas cinco anos atrás, eu nunca imaginei que seria capaz de dizer que eu joguei video-game pra viver — nunca foi meu plano. Minha meta era ,na verdade, ser jogador de futebol.

Quando eu tinha 14 anos, eu era como qualquer outra criança de Estolcomo. Eu ia pra escola, olhava o relógio o dia todo, corria pra casa- corria literalmente — jogava CS e então ia para o treino de futebol. Eu joguei futebol em alto nível. Quanto mais velho eu ficava, mais eu queria ser como Ronaldinho e Zinedine Zidane. Eu treinava futebol toda noite durante a semana e disputava partidas todo final de semana. Quando eu tinha 15 anos, machuquei feio meu joelho. Tive alguns ligamentos rompidos e meu médico disse que eu teria que ficar um ano longe do futebol.
 
 Eu lembro de chegar em casa naquela noite, entrar no CS e bem… talvez aquela lesão tenha sido uma benção.
 
 Não ter mais treinos de futebol significava mais tempo para o CS. E eu comecei a ficar bom. Tipo muito bom. Eu comecei a jogar torneios online e estava indo tão bem que as pessoas pensavam que eu estava xitando (trapaceando). Como um gamer, esse é o melhor elogio que você pode receber. Alguns anos depois, meus pais começaram a questionar sobre meu futuro no jogo. Na época, não tinha muito dinheiro no CS, mesmo depois de eu entrar num time profissional. Meu pai me deu um ultimato: Até que eu estivesse ganhando um salário bom o suficiente pra me sustentar, eu teria que ir para a faculdade.
 
 Então eu fui. Durou três semanas. Aquilo não era pra mim. Eu gostava das aulas, mas não me interessava por estudar. Eu queria melhorar minhas habilidades. Eu estava melhorando, e sabia que logo eu teria a chance de mostrar meus talentos para a comunidade do CS.
 
 Em março de 2014, a oportunidade veio. Katowice, na Polônia, sediou um major de CS:GO. Eu estava jogando pela LGB eSports na época. Nós não eramos grande coisa, mas haviamos conseguido alguns resultados expressivos durante o campeonato. Nas quartas de final, nos jogamos contra um dos melhores time do mundo, o Fnatic.
 
 Nós eramos definitvamente a zebra, mas todo mundo no nosso time só clicou. Nos estavámos jogando o melhor CS da nossa vida e a gente ganhou. Eu acho que nós os pegamos um pouco desprevinidos. Pra ser honesto, eu acho que nós pegamos toda a cena do CS desprevinida. Pessoas que duvidavam do nosso talento viraram nossos maiores fãs. Nós perdemos nas semis para o Virtus.Pro, mas isso nem importou muito. Nós chegamos. As pessoas agora conheciam nosso time e também meu nome. Naquele final de semana eu vi o que poderia me tornar. Mas mais importante, eu vi o que o CS poderia se tornar.
 
 Eu sentei na primeira fileira da arena Spodek na final. Era o Virtus.Pro, o time polonês contra o Ninja in Pyjamas (NiP), um dos maiores times da Suécia. Haviam 11,000 pessoas lá, gritando a plenos pulmões durante todo o jogo, a todo abate, a todo momento. Isso foi… não sei como explicar. Eu nào sabia que tantas pessoas amavam esse jogo tanto quanto eu amava. Eu me senti validado. Esse jogo que eu joguei por tantos anos quando criança significava algo — tipo REALMENTE algo — pra muitas outras pessoas.
 
 Algumas semanas mais tarde eu acabei entrando para a Fnatic. Com eles, eu realmente dei passos largos. Um ano depois daquela noite na Polônia, eu estava novamente em Katowice, tentando vencer meu primeiro major. Era basicamente o contrário do ano anterior. Dessa vez eu estava na Fnatic e nós chegamos na final contra o NiP. Foi um dos melhores torneios da minha vida. No mapa final do campeonato, eu era o top fragger (mais abates). Eu me senti no topo do mundo depois dessa vitória.
 
 Havia algo incrivelmente especial em estar de volta a Katowice (onde eu meio que comecei de fato a carreira) e ganhar um major.
 
 Os majors são a razão pela qual eu amo tanto o CS. A incrível atmosfera que temos nos major é tão única no nosso jogo. É por isso que eu fiquei tão desencorajado quando me lesionei no ano passado, logo antes do major em Columbus, Ohio. E quando voltei, havia uma parte mental do meu jogo que eu precisava reaprender.
 
 Eu precisava acreditar em mim de novo, como fiz quando entrei na cena. Lembra quando eu disse que ningúem é melhor que eu? Bem, isso pode não ser verdade — mas eu tenho que pensar assim. Nesse nível, você precisa ter esse tipo de confiança. Eu respeito meus oponentes, mas eu nunca tenho medo. Nunca. Se você joga com medo, você não está jogando. Vá assistir jogadores como JW, kennyS, FalleN — eles podem sentir o cheiro do medo. Eles te comerão vivo se você não estiver na sua melhor forma, física e mental.
 
 Essa é a mentalidade que eu comigo de evento pra evento. E eu espero que possa continuar jogando nesse nível por um tempo, porque eu acredito que a cena do CS só vai ficar maior e maior. Todo ano, tem mais gente assistindo nossas transmissões e indo para os nossos torneios. É motivador.
 
 Nosso time jogou um torneio em Minsk ano passado no meio do inverno. Acho que fazia uns -20 °C lá fora. Nós chegamos no local do evento e haviam umas 500 pessoas nos esperando do lado de fora. Eles estavam de pé lá o dia todo só pra ver os times entrarem na arena.
 
 Isso é paixão.
 
 É por isso que eu jogo o jogo.
 
 Eu lembro de ter vergonha de eu e meus amigos jogarmos video game quando era mais jovem. Como se eu tivesse que me envergonhar de algo.
 
 Mas hoje, nós somos os que lotam estádios pelo mundo. 
 
 Olof “Olofmeister” Kajbjer”