Maldade Planejada
Na modalidade básica da educação humana, (bom dia, boa tarde, obrigada, desculpa, respeitar o coleguinha etc etc… os papos daquelas musiquinhas escrotas pra caramba lá da Tia Cocota que entranhou em você, somadas as coisas que a tua mãe enchia o teu saco quando “ar visita” ia na tua casa ou quando ela levava você “nar visita”) é uma blasfêmia furar fila. Não há justificativa. Poucas coisas me deixam tão desgraçada da cabeça quanto.
Não comprimentar as pessoas ao entrar num recinto? Ok, às vezes a pessoa tá tendo um dia péssimo. Perdoada. Esbarrar e não se desculpar? Ah, poxa… Vai que a criaturinha de beleza tropical tá tão desligada que nem viu a gente ali. Perdoada também. Deixar um bom dia\tarde\noite no vácuo? Péssimo, mas tudo bem. Pisar num pé sem querer? Me desculpa, vai.
Mas agora, furar fila é inaceitável. Inadmissível. É maquiavélico. É maligno. É o número um do ranking da maldade da educação simplória do Homo Sapiens (empatadíssimo com o ato de pisar em chão recém passado pano) da escala Gabichter da escrotisse barata. É maldade da pior espécie, justamente por ser planejada, com o intuito de levar vantagem. Até rola perdão, mas só depois de umas olhadas feias, uns comentários maldosos e até um possível barraco.
Nem preciso te contar que tem uma fila silenciosa marota no ponto, né? Se tu pega ônibus em horário de rush tá ligadaço no que eu to falando, né pai? Chegou, entra na fila do teu ônibus e espera. E ninguém nunca precisou ensinar isso pra ninguém, e porque? Porque cai lá na educação básica da musiquinha da Tia Cocota mais os cascudos da sua mãe quando tu fazia merda. Dito isso, acompanha aqui comigo:
OLHO NO LANCE: São vinte para as seis. 05:40 se tu achar melhor. Aquela hora que ainda tá meio escuro e ao mesmo tempo meio amanhecido. Eu moro numa Avenida que só passa uma linha em direção a Cidade Maravilhosa, ou seja: Quer ir sentada querida? Então pega cedo esse teu ônibus, frô. Posso pegar qualquer condução até às 06, porque, pelos meus cálculos e habilidades recém-adquiridas ao estagiar e estudar no Rio mas morar em São Gonçalo, consigo ir sentadinha bem patroinha no canto, se eu der sorte.
Chego no ponto. Só tem eu e o os anjos do Nosso Senhor JC na rua. Saco meu celular chinfrim de ouvir música do bolso e já coloco naquele Pique Novo pra começar o dia DaKeLe jEiTo®. To com cara de boba mas to esperta. Já são 5:47. Dei uma distraída e quando eu menos espero surge um sujeito com uma cara amassada suspeita trajando uma camisa vermelha-vermelhasca-vermelhante-vermelhona do Rock In Rio. Não passou nem Wi-Fi. Dá bom dia. Respondo. Perguntou do último ônibus pro Rio. Digo que não sei. Seguimos quietos.
De repente passa uma senhora, que acredito eu, pensou ver uma linha mas viu outra, passa CORRENDO, mas que, ao perceber seu erro, se junta a nós meio envergonhada. Dá bom dia. Rock in Rio e eu respondemos. Seguimos quietos.
Daí pra frente surge umas figuras com uns casacos que você só vê no ponto de ônibus com ar condicionado frio até o talo. Hoje era um senhor com um casaco de lã desses estilos europeus bem cafonas. Tinha rena e tudo. Acenou com a cabeça. Respondemos. Todo mundo continuou quieto.
Agora já são 5:55 e ele pode passar a qualquer momento. Junta-se a nós uma menina cheia de fumaça, que ao chegar no ponto, apaga o mesmo (CIGARRO, GENTE!!) e dá bom dia. Todos respondemos. Mas agora, a gente segue quieto e esperto. A essa altura, temos no ponto: Eu, reclamando do meu apogeu, nosso amigo Rock In Rio que eu jurava que iria me assaltar, a Usain Bolt da madruga, o Sr. Rena de Lã e a Miss Cigarro.
Mas de repente, e não mais que isso, chega ELA, a mal educada com um tiozão a tiracolo, marchando em direção a minha frente. Eu, o Rock In Rio, a Usain Bolt, o Sr. Rena de Lã e a Miss Cigarro não entendemos nada, já que ELA passou na frente da medalhista de ouro do 520 cadeira-livre-do-canto das 06, eu, que estava esperado, como te disse lá em cima, faziam quase vinte minutos.
Certeza absoluta que todo mundo pensou (me incluo, óbvio): “po gente, tamo julgando a mina mal, vai? eles devem pegar as outras linhas com certeza”, pois nesse ponto também passam conduções seguindo para Niterói, Neves e para o Porto da Pedra, que não precisam de fila, é só tu subir. Pois bem: PASSARAM OS TRÊS UM ATRÁS DO OUTRO e nada deles subirem.
Todos nós entendemos a maldade. Poucos segundos depois dos ônibus passarem, a gente tinha: eu, full pistola e fazendo uma careta mais feia do que a tua cara espanta-bandido-trombadinha-espírito-maligno quando você precisa passar no Largo da Carioca, o Rock In Rio de bicão, a Usain Bolt fazendo a egípcia (questionamento: será que elas se conhecem??????? Essa situação não dá pra fazer a egípcia não, fia), o Sr. Rena de lã e a Miss Cigarro também bolados, enquanto ELA, com o tiozão a tiracolo, faziam cara de paisagem.
Nisso, deu seis horas. E ele, todo branco e verdinho com uma bolota laranja colada no vidro frontal, despontava lá longe. Automaticamente a fila que parecia meio desordenada e espalhada, se juntou. Eu, o Rock In Rio, a Usain, o Sr. Rena e a Miss Cigarro quase nos fundimos para não deixar ninguém passar. AQUI NÃO, QUERIDINHA.
E ele se aproximava cada vez mais. Ninguém dava um pio, mas tava todo ligado, inclusive ELA, com o tiozão a tiracolo, que só iam esperar alguma bobeada minha, do Rock In Rio, da Usain, do Sr. Rena e da Miss Cigarro para FURAR A FILA. (Tu tá sentindo a maldade planejada????? Cadê o responsável dela??? Tiozão a tiracolo também deixou a desejar….)
Ele já tava bem perto. Fiz sinal. Depois daí foi tudo em fração de segundos. A porta abriu bem na minha frente, e fiz questão de esperar pra gente subir coladinho. Entrei no ônibus e segui meu ritual: Bom dia ao motorista, seguido de esfregar o BU naquela máquina e falar alto umas bobagenszinhas, junto com o Rock In Rio, e o pessoal que já estava dentro do ônibus me olhava como se eu fosse a louca. Mal sabiam eles. Depois de mim e do Rock In Rio vieram a Usain Bolt, o Sr. Rena de Lã e a Miss Cigarro. Por fim, não faço ideia de quando ELA e o tiozão a tiracolo conseguiram entrar.
E, sem um pio, a educação básica e o respeito ao outro, após um leve período de instabilidade, venceram mais uma.
